PODER SER E EXISTIR

Ex-BBB Sarah Aline faz teste de DNA e descobre ancestrais: 'De onde eu vim'

Beatriz Mazzei Colaboração para o UOL, de São Paulo (SP)

Nascida e criada em Osasco, na região metropolitana de São Paulo, o maior desafio da infância de Sarah Aline Rodrigues, 26, era acomodar todos os seus amigos e familiares em suas festas de aniversário.

Desde criança, ela viveu rodeada de pessoas que foi agregando naturalmente por meio da fala doce, afetuosa e didática. Foram esses talentos que também a fizeram ser reconhecida na edição 23 do BBB como uma participante com boa oratória, além de falas assertivas sobre a questão da negritude.

Sarah também rompeu barreiras na edição ao se assumir bissexual e se envolver com dois participantes de foma leve e bem resolvida. A ex-sister teve "uma amizade colorida" com Gabriel Santana e se envolveu romanticamente com Alface. Todos são amigos até hoje.

Psicóloga e analista de diversidade e inclusão, Sarah se define como uma pessoa que ama "gente" de tal maneira que, durante entrevista a Ecoa, falou muitas vezes a palavra "comunidade".

Para mim, a ancestralidade é sobre ser o sonho daqueles que sonhavam pela liberdade que eu tenho hoje de poder ser, de existir. A ancestralidade é sagrada e me conta sobre os meus próximos dias. Toda a minha intuição gira em torno da minha ancestralidade. Compreender isso é fundamental para entender quem sou, de onde vim e quais são as contribuições que desejo fazer para a minha comunidade.

Sarah Aline

Arquivo pessoal Arquivo pessoal

Casa cheia e rotina na igreja

O olhar para o outro vem de berço. Seus pais, Katia Belmira e Vagner Rodrigues, são missionários cristãos que desenvolviam projetos com as juventudes de escolas e espaços de detenção. Com isso, aprendeu que a atenção, a escuta e o cuidado podem ser transformadores.

Criada em São Paulo, as únicas migrações familiares que Sarah conhece são de Minas Gerais, pela parte paterna, e Alagoas, pela materna. Ambas as famílias se deslocaram para São Paulo pela necessidade de trabalho. Durante a infância, ela lembra os momentos de casa cheia e a rotina de ir para a igreja com os pais. Seus avós são católicos, e os pais evangélicos.

Por conta da atuação social dos pais, Sarah e a irmã, Nathália Rodrigues, tiveram a oportunidade de estudar com bolsa de estudos em colégios particulares onde, em sua maioria, eram as únicas garotas negras.

Minha infância foi marcada pela minha família. Eles sempre foram muito unidos. Pela forte influência do cristianismo, a gente estava sempre em comunhão, em coletividade. Isso molda um pouco quem eu sou, quem eu quero ser e as contribuições sociais que eu quero criar.

Sarah Aline

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BBB foi sonho do R$ 1 milhão

Além das festinhas de aniversário repleta de amigos e de brincar na área social do prédio em que a família vivia, uma memória particular da infância é de quando assistia ao Big Brother Brasil escondida com a irmã.

Até certa idade, os pais não a deixavam assistir por conta do horário do reality. Fã do programa e sonhadora, passou anos se imaginando fazendo discursos que daria para indicar os colegas ao paredão.

Em 2020 ela passou do sonho para a realidade ao se inscrever pela primeira vez no programa. Foram três anos até conseguir ser selecionada.

Ao descobrir que tinha entrado no programa, convocou a irmã e amigos para cuidarem de suas redes sociais, sem a menor ideia do que eles fariam.

A edição contou com a maior participação de pessoas autodeclaradas negras: 11 brothers e sisters de diversos locais do país e também de fora, como é o caso da angolana Tina. Durante a edição, houveram diversas discussões raciais como a denúncia de intolerância religiosa que envolveu Nicácio, Cristian, Gustavo e Key.

Fui pro BBB pelo mesmo motivo que todos vão: tentar ganhar um milhão de reais. Eu não pensei muito no que viria depois de sair, mas a minha participação foi muito importante. Fico feliz de saber que lá dentro meus valores foram evidenciados e eu pude ser reconhecida pelos meus afetos, minhas falas acolhedoras e como uma pessoa que gosta de ouvir e falar o que tem que ser dito com respeito.

Sarah Aline

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Conexão Angola

O resultado do teste de DNA de Sarah possibilitou a conexão com duas famílias: a de sangue e a de fãs. O teste apontou para 72% de ancestrais vindos do Oeste da África, que abrange países como Angola, Camarões, República do Congo e Gabão.

Com o início do tráfico de pessoas no Atlântico, milhões de pessoas do oeste africano foram levadas e vendidas nas colônias na América para o trabalho escravo em fazendas.

Estima-se que cerca de quatro milhões de africanos escravizados tenham desembarcado no Brasil, sendo um dos principais destinos as fazendas do sudeste brasileiro.

Sarah conta que, como mulher negra retinta, já imaginava que a maior parte do seu DNA apontaria para o continente africano, mas não tinha a menor ideia de quais países poderiam ser.

Por conta do BBB, eu tenho muitos fãs angolanos que me mandam mensagem todos os dias. Eu fico muito feliz de ver no meu DNA países tão admiráveis culturalmente. Essa possibilidade de nos conectar com o continente africano faz com que a gente colabore com a quebra da estigmatização. História triste falando de pessoas pretas do período colonial nós já conhecemos desde a época da escola. Porém, ninguém nos conta sobre as riquezas desses locais.

Apaixonada por leitura e pesquisas, Sarah diz que, agora, o mais interessante é ter a oportunidade de estudar sobre esses países e entender o que compõe a cultura no dia a dia, para além do que é ensinado de maneira muito superficial nas escolas.

O teste também apontou 19% do seu material genético oriundo da Europa Ocidental, região que abrange países como França, Alemanha, Áustria, Suíça, Bélgica e Holanda. Sarah diz não se surpreender com este resultado, uma vez que a miscigenação faz parte do processo de colonização do Brasil.

O resultado que mais a surpreendeu foi o de 5% do seu material genético ser oriundo das Américas, composta pelos grupos indígenas nativos da América do Sul, pertencentes à família linguística Tupi-Guarani.

Descobri que minhas raízes falam muito sobre o processo histórico do Brasil. Eu fico muito feliz, mas sei que isso é reflexo de um período colonial escravocrata marcado por relações muito violentas e problemáticas

Arte: Deborah Faleiros Arte: Deborah Faleiros

Sankofa

Como psicóloga e analista de diversidade, Sarah trabalha fazendo palestras e desenhando estratégias para incluir e agregar mais pessoas negras em empresas e organizações. Por isso, tem muito conhecimento sobre como o racismo impacta a mente humana.

Na sua visão, o contato da população negra com a escravidão e o apagamento intencional da história negra pelos colonizadores traz impactos psicológicos nos afrodescendentes a partir do momento em que a pessoa negra deixa de ser vista como ser humano para ser atribuída a um papel de produto e mão de obra.

Todo mundo vive buscando elementos para moldar sua própria identidade. O processo colonial é marcado pelo rompimento da nossa identidade como pessoa. Essa desumanização gera dificuldade de acesso de qualidade aos nossos sentimentos, às nossas tomadas de decisões e às relações que nós temos com a nossa comunidade.

Manter as pessoas negras nesse lugar, diz ela, é uma das ferramentas do racismo estrutural, conceito que Sarah discutiu em rede nacional quando participou do BBB.

O apagamento da nossa identidade é estratégico para a branquitude como sistema.

Conhecer suas próprias origens foi uma aventura de autoconhecimento para Sarah, e que a motivou a se apropriar ainda mais da sua própria história.

Na tradição africana existe um conceito que pode ser aplicado ao que ela sentiu com o teste de ancestralidade: o sankofa. Inserido em um conjunto de símbolos chamado Adinkra, o Sankofa é representado por um pássaro com a cabeça voltada para trás. Sanfoka simboliza o resgate do passado para ressignificar o presente e construir o futuro.

Deborah Faleiros/UOL Deborah Faleiros/UOL
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