Para vencer o calor

O que você pode fazer pra ajudar a conter o aquecimento global?

Paula Rodrigues e Peú Araújo De Ecoa

O clima está mudando. Com maior ou menor intensidade, comunidades do mundo todo percebem a transformação. Ondas de calor intenso assolam as metrópoles. Alterado, o regime de chuvas compromete produções agrícolas, muda a forma como povos ribeirinhos vivem. Autoridades internacionais, reunidas pela ONU (Organização das Nações Unidas), têm feito esforços para conter o aquecimento global e, ao mesmo tempo, encontrar caminhos para que, como humanidade, possamos nos adaptar ao novo cenário que se apresenta.

Mas como nós, pessoas comuns, tão distantes das decisões que impactam nas grandes transformações, podemos fazer parte desse efetivo? Das pequenas atitudes cotidianas à participação em movimentos coletivos, é possível, sim, agir de forma efetiva. Nesta reportagem, além de orientações de especialistas, há exemplos de gente que tem organizado sua vida individual de forma simples ou radical com esse objetivo. "Cada ação importa", disse a Ecoa Thelma Krug, vice-presidente do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas da ONU. "Quanto mais envolvermos a sociedade civil, maior será o sucesso."

Efeito positivo em cascata

A professora Mariana Moraes, 35, tem tentado agir de forma consciente principalmente na maneira como educa seus dois filhos pequenos: Manu, 2, e Lucas, de três meses. "Acredito muito na força do exemplo que damos às crianças. Mesmo tão pequena, minha filha já se preocupa em fechar a torneira e separar o lixo. Já fala até 'reciclado, mamãe'", conta ela, que também faz um esforço para evitar comprar produtos com plástico, prefere itens de higiene não industrializados ou fabricados por empresas que se preocupam com o impacto gerado na cadeia de produção, entre outros hábitos.

As pequenas porém conscientes ações de Mariana promoveram um efeito dominó na família. Certo dia, ela recebeu um pedido de uma das irmãs: Maria Carolina queria dicas para começar a ter uma vida ambientalmente correta. A terceira irmã, Maria Clara, também fez coro. E, assim, as três passaram a organizar rodas de conversa sobre o tema e, há um ano, criaram o blog Verdes Marias, em que compartilham dicas de como viver e criar filhos de forma ecológica.

No caminho da ciência

As atitudes de pessoas como Mariana caminham de acordo com os resultados de um artigo robusto publicado recentemente por dois pesquisadores da Universidades de Lund, na Suécia, e da Universidade da Colúmbia Britânica, no Canadá. A dupla de autores, Kimberly Nicholas e Seth Wynes, investigou 148 ações individuais para conter o aquecimento global.

Os achados assustam. São quatro as ações recomendadas por eles: evitar viagens de avião, não usar carros, não comer carne e ter apenas um filho. Isso porque a queima de combustíveis fósseis (gasolina e diesel), o funcionamento do agronegócio e da indústria, e a degradação de resíduos produzidos por cada pessoa que ocupa o planeta liberam quantidades exageradas dos chamados Gases de Efeito Estufa (GEE), que têm impacto direto no aquecimento global.

É claro que pouquíssimos de nós podemos viver com tantas restrições. Mas é possível fazer pequenas concessões na alimentação, nas viagens e na criação dos filhos e, assim, diminuir as consequências negativas (selecionamos algumas dicas práticas distribuídas nos quadros ao longo da reportagem). Em entrevista a Ecoa, Kimberly diz que, apesar de compreender que o número de filhos é uma escolha de cada família, controlar o aumento da população é uma ação efetiva a longo prazo. Especialmente em países que emitem gases de efeito estufa em grande escala, como a China, responsável por 23,7% das emissões globais, sendo o país que mais polui no mundo.

"Se as pessoas optarem por ter filhos, e as crianças crescerem produzindo a mesma quantidade de poluição que os pais, eles vão acabar fazendo parte de um mundo com mudanças climáticas perigosas", diz a pesquisadora. Por isso, ela acredita que é fundamental que as famílias eduquem os filhos para um jeito mais sustentável de viver.

Eles acreditam em um futuro melhor

A pesquisa conduzida por Kimberly Nicholas e Seth Wyne também concluiu que os jovens estão mais dispostos a adotar novas ações de impacto contra mudanças climáticas. Tal disposição tem motivado o surgimento de movimentos internacionais como o Fridays for Future (traduzido para Sextas Pelo Clima no Brasil). Protagonizado por jovens, surgiu há cerca de um ano na Suécia, com atitude da ativista Greta Thunberg, 16. Ela faltava à aula toda sexta-feira para ir ao Parlamento Sueco com uma placa escrito "Greve Escolar pelo Clima".

A ação chegou ao Brasil. Uma das integrantes do coletivo em Fortaleza, Sarah Lima, 22, comenta sobre a mobilização do grupo que atualmente reúne cerca de mil garotos e garotas no país: "Acredito que a educação, principalmente a ambiental, é uma das chaves para que a gente consiga alcançar cada vez mais pessoas, por meio da informação, do debate, da sensibilização e das mudanças de hábito".

A baiana Hamangai Pataxó, 22, faz parte do Engajamundo, um coletivo de jovens integrado aos fóruns internacionais de meio ambiente. Moradora da aldeia Caramuru Catarina Paraguaçu, no município de Pau-Brasil (BA), ela conta que, conectando-se com outros jovens, aprendeu formas de atuar melhor em sua comunidade. "Cada um de nós é parte da solução. Precisamos compartilhar nossas sementes de luta e fortalecer alianças, seja aqui no Brasil ou em outras partes do mundo", diz Hamangai Pataxó.

Um exemplo do extremo

No extremo norte da capital paulista, vive uma figura especial: a artista plástica Dona Jacira, 54. Popular sobretudo no circuito cultural das periferias de São Paulo — sua casa está até marcada no Google Maps como referência da região — ela construiu um jeito peculiar de viver. É um exemplo distante das possibilidades da maioria dos brasileiros e brasileiros, mas serve como fonte de inspiração para pequenas mudanças.

"Já reparou que uma planta precisa de tudo o que precisamos? Água, luz, calor...", diz ela enquanto olha para a grande horta que tem na laje de casa. Em sua casa, Dona Jacira cultiva pés de frutas, vegetais, legumes e flores sobre o piso cinza, de concreto. É dali que saem os alimentos que consome, e também produtos como sabonetes, xampu, perfumes e até mesmo a tinta que usa para desenhar e para pintar paredes. Essa foi a forma mais viável que encontrou para cuidar da saúde - a dela e a do meio ambiente.

Foi em meio à sua horta que Dona Jacira conversou com a reportagem de Ecoa. Falava e, ao mesmo tempo, mexia em suas plantinhas. Em um dado momento, despejou na terra a água que estava em excesso em um dos vasos. "Reguei demais e, por isso, quase matei esta planta. É o que a gente faz com a natureza quando prioriza o excesso em nossas vidas", diz ela, que, além de produzir boa parte do que consome, cria objetos a partir de itens que seriam descartados. São bonecas, quadros e objetos de decoração. "Antes eu recebia materiais dos vizinhos, que sabem que tenho essa proposta de criar com o que eles chamam de lixo. Mas aí percebi que todos precisam se responsabilizar também", diz ela.

Para se envolver

ONGs e outras associações da sociedade civil com as quais você pode colaborar

  • Casa Ecoativa

    Na Ilha do Bororé, às margens da Represa Billings, sul de São Paulo, é um centro eco-cultural que dialoga com escola estadual, creche e posto de saúde locais, além de informar a comunidade sobre a importância da preservação do meio ambiente.

  • Aliança Resíduo Zero Brasil

    Tem propostas para a diminuição dos resíduos sólidos, o combate ao aterramento e a incineração. Pressiona autoridades na aceleração de uma política nacional sobre o tema e na busca por igualdade na cadeia de reciclagem.

  • 350

    Maior ONG climática do mundo, foi fundada em 2008 por um grupo de universitários dos EUA e atua no combate aos combustíveis fósseis e no incentivo à substituição por energias renováveis. É possível participar com doações ou integrando as ações promovidas.

  • Engajamundo

    Tem como objetivo trazer a discussão ambiental para a juventude brasileira e estimular a participação dela em processos políticos internacionais, dando ferramenta e articulação no âmbito político. Para entrar é preciso ter entre 15 e 29 anos.

  • Greenpeace

    A organização nasceu em 1971 no Canadá e atua em 55 países com petições e ações diretas. No Brasil, há uma campanha pela preservação da floresta amazônica. No site, o grupo sugere algumas formas de engajamento possíveis.

  • Iniciativa Verde

    Organização do terceiro setor, calcula inventários de carbono de pessoas, de empresas ou outras instituições. No site, é possível descobrir quanto você emite de CO² e quantas árvores precisa plantar para compensar, bem como fazer uma doação para plantio.

  • Instituto Centro da Vida

    Criada em 1991, a organização da sociedade civil de Mato Grosso visa a construir soluções sustentáveis para o uso da terra e dos recursos naturais. É possível fazer doações. No site há dados para a consulta.

    Imagem: Reprodução
  • Mapa das feiras orgânicas

    Consumir orgânicos é uma ação simples que tem impacto na preservação do meio ambiente. O Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor criou um mapa com todas as feiras para encurtar o caminho do produtor ao consumidor.

    Imagem: reprodução
  • Mares Limpos

    No Brasil desde 2017, o projeto da ONU Meio Ambiente tem como objetivo diminuir a presença de plásticos descartados no oceano. A ação, que dura 5 anos, pretende dar outro panorama para a estimativa sobre os mares a médio prazo.

  • Saber Viver

    A instituição sem fins lucrativos, fundada em 1983, atua na região de Ilha de Deus, no Recife, com projetos nos manguezais. Plantio, limpeza, reaproveitamento do lixo e a criação e manutenção de hortas sustentáveis para a comunidade local.

    Imagem: Reprodução

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