Muita calma nessa hora

Presidente da Nissan viveu de perto 'furacão Ghosn' e Sars. E mantém otimismo no mercado apesar do coronavírus

Daniel Neves, Fernando Calmon e Vitor Matsubara Do UOL, em São Paulo KEINY ANDRADE/UOL

A porta se abre e Marco Silva cumprimenta, um a um, a equipe de UOL Carros. Formado em administração, o executivo construiu sua carreira na indústria automotiva, mais precisamente na área de Finanças. Fez carreira na General Motors, onde trabalhou em países como Suíça, Coreia do Sul, China e Venezuela antes de retornar ao Brasil.

Desde 2016, Marco é o primeiro brasileiro a assumir o comando da Nissan no país. O paulista de 53 anos herdou o legado de François Dossa, que deixou o comando da filial brasileira para virar vice-presidente sênior de Transformação e Organização do Grupo Renault. Durante sua gestão, Dossa liderou momentos importantes da Nissan, como a inauguração da fábrica de Resende e o lançamento do Kicks durante os Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro em 2016.

Engana-se, porém, quem pensa que Silva tem vida fácil no comando da fabricante japonesa. O executivo lida com a responsabilidade de continuar o bom trabalho realizado por seu antecessor e manter a filial brasileira em alta, que contrasta com a vida tumultuada da empresa no Japão.

Em entrevista concedida a UOL Carros, Marco falou sobre futuros lançamentos, a importância das vendas diretas, o papel dos carros autônomos na indústria e até sobre sua relação com o ex-presidente da Nissan, Carlos Ghosn, que atualmente encontra-se no Líbano após protagonizar uma polêmica fuga do Japão.

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Assista à íntegra da entrevista com o presidente da Nissan no Brasil, Marco Silva, no canal do UOL no YouTube. Continue nesta página para ler o texto.

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Perigo no ar

Marco Silva conhece bem a tensão de viver em uma região afetada por um vírus mortal. Ele ainda trabalhava para o escritório asiático da General Motors quando explodiu no continente a epidemia de Sars (Síndrome Respiratória Aguda Severa).

"Estava na Coreia e eu tinha ido pro Vietnã, com a minha família. Nós fomos para lá e logo estourou e, assim, sem saber, só fazendo passeio, rodando pra lá. Quando eu voltei, todo mundo usando máscara. Não estava entendendo absolutamente nada. Eu não tinha nem olhado o noticiário", recorda Silva.

O executivo, inclusive, chegou da viagem ao Vietnã com um forte resfriado e deixou os colegas de trabalho assustados. "Chegamos em um domingo e decidi ir ao médico no dia seguinte. Liguei ao meu chefe e avisei: 'olha, acabei de voltar e estou com um resfriado muito forte. Vou chegar um pouco mais tarde'. E ele falou: 'nem venha"' Ninguém queria que eu fosse trabalhar naquele dia. O médico também ficou assustado".

Assim como na época, a atual epidemia de coronavírus assusta a população mundial e traz impactos na economia global. Silva torce por um desfecho positivo e acredita que o mercado automotivo brasileiro será pouco afetado pelo problema.

"Acho que afetará mais o mercado chinês. Eu, sinceramente, não vejo, hoje, um impacto grande [no mercado automotivo brasileiro]. Nós [Nissan] não temos grandes exportações, e não importamos muito deles. O que tem, na verdade, são alguns fornecedores, que estão na região e que temos olhado com mais cuidado. Saiu uma nota interna nossa, dentro da corporação, evitando que se vá à China, só isso", comentou.

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Relação com Ghosn

A Nissan vive um momento delicado em sua matriz desde 2018. Coincidência ou não, justamente nesta época é que o então presidente da montadora, o brasileiro Carlos Ghosn, foi preso sob acusação de má conduta financeira.

Ghosn acabou demitido, executivos foram trocados, mas a sombra do ex-presidente ainda permanece sobre a Nissan nos noticiários internacionais. Ainda mais depois de sua fuga espetacular da prisão no Japão e o asilo no Líbano.

Questionado sobre Ghosn, Marco Silva contou ter tido contato com o agora ex-presidente durante sua gestão, mas evitou maiores comentários. O executivo, inclusive, fez questão de frisar que os problemas ocorridos na matriz em nada afetaram a filial brasileira.

"Posso falar que sim, eu conheci o senhor Carlos (Ghosn) e tive a oportunidade de estar com ele no Brasil. O importante é que esse episódio (prisão) não teve absolutamente nenhum impacto em nosso dia a dia" garante.

"Três meses atrás, nós mudamos, praticamente, toda a direção da Nissan. Temos uma estrutura nova, todo o comitê executivo da Nissan é recém-empossado. A gente tem acompanhado o que tem acontecido (com Ghosn), mas, para ser bem sincero, não é alguma coisa que tenha impactado diretamente", completou.

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Chute certeiro

É senso comum que o Nissan Kicks é a "galinha dos ovos de ouro" da Nissan no Brasil. O SUV foi lançado durante os Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro em 2016 e se tornou principal responsável pelo crescimento da marca no país. Em 2019, foram mais de 56 mil emplacamentos e a quarta colocação no segmento.

"O Kicks é nosso carro-chefe e ainda tem muito apelo frente à concorrência, mesmo depois de quase quatro anos. Só que as pessoas que compraram o carro em 2016 e pretendem trocar de veículo vão ver que ainda é o mesmo carro. Então ele já merece uma revitalização, e isso está nos nossos planos. Vamos fazer alguma coisa interessante nele", contou Silva.

Enquanto não chega a hora do Kicks ser renovado, a Nissan prepara a estreia de outro importante produto. O novo Versa é a grande aposta da montadora para 2020, que pretende fazer frente aos concorrentes no país.

"Ele não vai substituir o Versa atual, pois vamos trabalhar com a estratégia de ter dois carros no mercado. Nossa ideia é manter os produtos com propostas bem claras, como vai acontecer com o Versa antigo (que vai se chamar V-Drive) e o novo Versa, que ficou lindo. Diria que faz frente aos outros japoneses aqui no Brasil. Enxergamos esse carro como uma ótima oportunidade para o país".

A chegada de outros produtos, porém, é analisada com cautela por Silva. Ao mesmo tempo em que monitora o crescimento dos SUVs, a Nissan ainda não bateu o martelo sobre a estreia do novo Sentra no Brasil.

"O mercado de sedãs no Brasil mudou em relação a quatro ou cinco anos atrás. Nos EUA oferecemos Altima, Maxima e o novo Sentra, e existe uma sobreposição entre os produtos. É isso que não queremos no Brasil", contou.

"Esse segmento ao qual pertence o novo Sentra é relativamente novo. Todos os modelos do segmento que chamamos de 'C' cresceram e ganharam espaço, assim como os sedãs do segmento 'B'. Precisamos ver se (o Sentra) faz sentido em nosso portfólio de produtos no Brasil. Se fizer, a gente vê a ideia com bons olhos. Mas, por enquanto, vamos manter o modelo atual em linha".

Se não tiver visão em relação à continuidade dos veículos, estaria cometendo um erro de trazer carro e depois de dois ou três anos, qualquer mudança de dólar, descontinuar a produção ou a importação dos carros

Marco Silva, sobre cautela em trazer novos produtos ao Brasil

A ideia é, realmente, continuar trabalhando nesses dois segmentos e com produto de qualidade, na mesma pegada do Kicks. O potencial do mercado brasileiro é muito vasto

Marco Silva, ainda sobre os lançamentos da marca no país

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Ligado na tomada

Eletrificação é algo que a Nissan tem conhecimento para falar, em experiência exemplificada no Leaf. O modelo, que completa 10 anos de existência em 2020, é um dos elétricos mais vendidos do mundo.

No Brasil, o modelo chegou em 2019, já na segunda geração, que traz um motor de 149 cv e 32,6 kgfm de torque. Algumas unidades, porém, foram importadas para cá em 2012 para serem utilizadas em um projeto-piloto de táxis em São Paulo. No ano seguinte, o programa chegou ao Rio de Janeiro, onde 15 veículos rodaram pelas ruas cariocas.

Fora isso, o conceito de eletrificação também está fortemente presente na tecnologia híbrida E-Power, na qual um motor a combustão faz o papel de um gerador e alimenta as baterias responsáveis por impulsionar um motor elétrico que traciona as rodas dianteiras.

Segundo a Nissan, com esse conjunto a montadora já alcançou 1.000 km de autonomia com um tanque de apenas 47 litros de gasolina. A fabricante, aliás, já confirmou a estreia do Kicks híbrido no Brasil em 2022. Inicialmente, o SUV vai estrear aqui abastecido apenas com gasolina, mas em um segundo momento deverá incorporar o sistema flex.

"Dentro da Nissan a tecnologia E-Power é parte da direção do powertrain do nosso portfólio. Hoje o único lugar que oferecemos essa tecnologia é no Japão, mas todo mundo quer levar isso para outros lugares. A Europa levantou a mão, o resto da Ásia levantou a mão e nós também. É uma tecnologia que faz todo o sentido para o nosso mercado dentro do nosso conceito de eletrificação", disse Silva.

"Muitas vezes olhamos somente para o Leaf, mas, na verdade, a eletrificação é um carro eletrificado. A autonomia pode chegar a quase mil quilômetros. O E-Power é nosso carro-chefe do futuro e gostaria muito de ver essa tecnologia no Brasil", afirmou.

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Otimismo no mercado

Enquanto o futuro não chega, a Nissan pensa no presente. Otimismo é a palavra de ordem nos corredores da empresa, e Marco Silva acredita no crescimento do mercado automotivo no país em 2020 - apesar de toda a turbulência econômica.

"Estamos muito confiantes para 2020, assim como pensando em 2021 e 2022. Vi uma retomada do crescimento do mercado, que havia caído abruptamente desde 2012, mas é claro que essa retomada será muito lenta, mas acreditamos em um crescimento de quase dois dígitos neste ano", comentou.

Sobre as metas da marca japonesa, Silva ressalta que a atual participação de 4% no mercado está dentro do planejamento da marca para o período. E afirma que, para os próximos anos, a expectativa é de crescimento.

"A médio prazo temos uma intenção de um crescimento ainda maior. Lá para 2024, 2025, a ideia é crescer por volta de 7%, 8%".

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Vendas diretas vieram para ficar

Assim como a maioria das montadoras, as vendas diretas foram responsáveis por turbinar parte dos números da Nissan em 2019. E Silva acredita que esse fenômeno, em muito impulsionado pelo público PCD e por locadoras, veio para ficar e continuará crescendo. O executivo, porém, alerta: a indústria precisa ter sensibilidade para identificar possíveis variações e até estagnações nos números.

"Acho que existe um limite nessas vendas, pois chegaremos a um ponto no qual o crescimento não será tão grande quanto o dos últimos anos. Temos aproveitado e olhando para cada um dos segmentos. E isso inclui as grandes locadores, que têm crescido muito no Brasil. Mas até quanto vai isso?".

E como ficam os concessionários? Estão correndo o risco de extinção no futuro? Para Silva, o mercado brasileiro mostra que ainda há espaço para o crescimento do modelo tradicional de vendas.

"Não podemos ir contra essa tendência do mercado, porque o mercado se movimentou para esse caminho. As empresas estão se adequando a essa nova realidade de mercado, e nós também. Mas quando olhamos o potencial do mercado brasileiro, pelo nível de motorização que existe, a gente vê que ainda existe um espaço muito grande de crescimento da venda convencional".

Nós acreditamos muito na relação com os nossos concessionários, pois eles são parceiros importantes na dinâmica de mercado e no pós-venda"

Marco Silva, sobre o modelo convencional de vendas

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Carro autônomo é o futuro, mas...

Assim como sua parceira Renault, a Nissan é uma das empresas que mais investem em tecnologias para o futuro do automóvel. Basta lembrar que o Leaf, um dos carros elétricos mais vendidos do planeta, está prestes a completar uma década de vida em 2020. Para Marco, a indústria vai se concentrar em três pilares.

"Nossa visão de futuro se baseia em conectividade, eletrificação e carro autônomo, mas não acredito que haverá uma única solução para o Brasil inteiro. Acho que serão soluções customizadas para cada país ou região. Tudo vai ter que ser testado, e muito. Em compensação, a velocidade do desenvolvimento dessas tecnologias no mundo é gigantesca", disse o executivo.

"Hoje o carro autônomo acaba sendo uma extensão da sua casa e do seu trabalho. Se você está assistindo a um vídeo, vai poder visualizá-lo no carro enquanto ele dirige sozinho. Se você estiver trabalhando, poderá realizar a reunião dentro do seu próprio carro. A gente acredita nessa liberdade para o futuro. O grande desafio é saber o quanto disso se tornará realidade e dentro de quanto tempo isso vai acontecer", comentou.

Saber como esta tecnologia será aplicada no dia a dia das pessoas é o grande desafio das montadoras, segundo Silva. O executivo, inclusive, contou que a Nissan trouxe ao Brasil em 2018 uma antropóloga do centro de pesquisas da marca na Califórnia. A partir de informações repassadas por ela, foi possível desenvolver uma inteligência artificial que "pense como um ser humano" ao dirigir.

"Na prática, a diferença é que, em vez de um ser humano, você precisa ensinar a um robô como se comportar em um ambiente caótico como o trânsito do Brasil ou da Índia. Claro que esse processo será mais longo do que em um lugar como o Japão, onde todas as ruas são bem sinalizadas. Mas isso vai acontecer e logo os algoritmos, sensores e radares do carro estarão bem calibrados".

Tecnologia não é o único entrave para a aplicação prática dos carros autônomos. Silva vê questões como segurança e legislação como obstáculos para a implementação desta 'visão futurista' de transporte.

"Quando alguém está dirigindo para você, sua confiança está naquela pessoa. E quando tem uma máquina te levando de um lado para o outro? Até quanto vai a minha confiança nessa máquina? E tem também a questão da legislação. Quem é o responsável em um acidente? Hoje, no Brasil, você não pode nem soltar a mão do volante. Será necessária uma mudança na mentalidade das pessoas", afirma.

Não tenho dúvida com relação ao sucesso do carro autônomo no futuro e creio que isso, inclusive, vai ter influência positiva nas vendas de veículos

Marco Silva, sobre o impacto dos carros autônomos no mercado automotivo

Inteligência artificial dos carros autônomos é uma tecnologia futurista e até meio difícil de se imaginar, mas ela vai vir para cá.

Marco Silva, sobre as tecnologias aplicadas em veículos autônomos

Como vou saber se alguém não está hackeando o carro? A questão da segurança ainda é um tema importante e que não tem solução definitiva

Marco Silva, sobre dúvidas sobre seguranças dos autônomos

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