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Carnaval: alas de idosos receberão cuidados redobrados das escolas de samba

Ala das baianas é uma das compostas por idosos; na foto, desfile da Portela, em 2020 - Marco Antônio Teixeira/UOL
Ala das baianas é uma das compostas por idosos; na foto, desfile da Portela, em 2020 Imagem: Marco Antônio Teixeira/UOL

Valmir Moratelli

Colaboração para o UOL, no Rio

23/01/2022 04h00

Enquanto as autoridades públicas acompanham a evolução da pandemia de covid-19 para decidir sobre realização dos desfiles na Marquês de Sapucaí, algumas escolas de samba se organizam por conta própria para preservar seus componentes em grupos mais vulneráveis.

A tradicional ala de baianas, por exemplo, é obrigatória em um desfile de escola de samba. A ausência dela acarreta em pontos preciosos no julgamento. Já a velha guarda, que traz os integrantes mais antigos da agremiação, não conta pontos. Mas sua passagem geralmente encerrando o desfile costuma ser um dos pontos altos na Avenida.

Outra ala que também tem a presença de idosos é a de compositores, geralmente uma das últimas a passar nos desfiles. Pensando no bem-estar de seus componentes, as escolas estão reorganizando as apresentações de acordo com medidas sanitárias que visam ao distanciamento. As manobras no Carnaval têm como objetivo garantir que todos possam desfilar em segurança.

Na Imperatriz Leopoldinense, primeira escola a desfilar no domingo, dia 27, a tradicional ala de velha guarda foi realocada para o início do desfile. Assim, os integrantes fundadores da agremiação, logo os mais idosos, estarão posicionados em destaque — sendo os primeiros a entrar e a sair, evitando aglomeração. Na sequência virá a ala de baianas, igualmente pensando em não oferecer riscos ao ter que manter as "mães do samba" no meio de outras alas à espera do desfile. Fafá de Belém, cantora de 65 anos, será destaque do abre-alas, no enredo "Meninos, eu vivi... onde canta o sabiá, onde cantam Dalva e Lamartine". Desenvolvido pela carnavalesca Rosa Magalhães, é uma homenagem ao também carnavalesco Arlindo Rodrigues, morto em 1987.

A roupa das baianas é vista como um impeditivo natural de agrupamento, já que as saias são grandes e volumosas. "Para 2022, as baianas serão orientadas a vestir, assim que chegarem na concentração, as anáguas que já dão um distanciamento umas das outras. As alas já não se misturam, as escolas podem aumentar essa proteção utilizando tripés no meio delas. As alegorias também separam o contingente", explica Dam Menezes, especialista em Carnaval e atento ao regulamento de 2022.

Em reunião no começo de janeiro, Jorge Perlingeiro, presidente da Liesa (Liga Independente das Escolas de Samba do Rio de Janeiro), ressaltou a importância de se ter cuidados sanitários. "Só poderão desfilar aqueles que apresentarem o comprovante de vacinação, atualizado de acordo com os calendários das secretarias municipais de saúde. Para receberem a fantasia, precisarão mostrar que estão em dia com as doses de vacina", afirmou.

Médicos de prontidão

Na Mocidade Independente, o enredo sobre Oxóssi, em "Batuque ao caçador", terá os integrantes da velha guarda no abre-alas, também pensado em protegê-los de exposição por muito tempo na concentração, que acontece na avenida Presidente Vargas. O mesmo ocorrerá com a Portela, que trará seus baluartes junto à tradicional águia no abre-alas.

O compositor Noca da Portela, de 89 anos, um dos componentes mais idosos da azul e branca de Madureira, ainda não decidiu se vai encarar a Avenida. "Já ligaram pra mim lá da escola, mandando que eu fosse ao alfaiate tirar as medidas do terno. Mas ainda estou pensando muito bem, não dei o ok. Sigo conversando com a família pra ver o que acham. Temos que ter a humildade de pesquisar e acompanhar o desenrolar da pandemia", diz o sambista, que desfila há 55 anos na Portela, ao lado de nomes como Paulinho da Viola e Zeca Pagodinho.

Com uma homenagem ao ator Paulo Gustavo, morto vítima da covid-19 em maio de 2021, a São Clemente quer dar o exemplo na Avenida. Por isso resolveu tomar uma medida mais drástica. Renato Almeida Gomes, presidente da agremiação, anunciou que vai dispor de vinte médicos e maqueiros ao longo do desfile, para socorrer seus componentes de imediato, caso seja necessário. A escola segue fazendo ensaio de bateria sem a presença de público na quadra.

De todo modo, o Corpo de Bombeiros tem plantão na Sapucaí para eventual resgate de integrantes que venham a passar mal, seja pelo calor intenso ou por qualquer outro impeditivo que os façam chegar na dispersão.

Diante desses protocolos unilaterais, há quem defenda uma unificação das ações para que problemas de comunicação sejam evitados. "Seria interessante que os médicos dos comitês científicos se reunissem com as escolas para entenderem que temos mais protocolos que eles imaginam, que somos todos amigos e jogamos no mesmo time, no time da saúde e do carnaval. Estamos abertos a adequações", diz Dam.

Na atual campeã, a Unidos do Viradouro, a assessoria de imprensa informa que qualquer eventual troca de posição dos segmentos considerados grupos mais vulneráveis "será definida a partir da decisão da prefeitura no dia 24". Os ensaios de quadra, assim como já vinha acontecendo nos últimos meses, mantêm o sistema de rodízio de componentes. A escola de Niterói prepara o enredo "Não há tristeza que possa suportar tanta alegria", dos carnavalescos Marcus Ferreira e Tarcísio Zanon. O desfile pretende destacar a folia de 1919, que marcou o fim da pandemia da gripe espanhola.

Outras escolas também pensam em controlar o tempo de permanência de sambistas mais idosos na concentração e dispersão. Mas, assim como a Viradouro, tudo dependerá da decisão a ser tomada ainda esse mês, quando o prefeito Eduardo Paes deve bater o martelo em relação à realização dos desfiles na data programada.