Entre o sagrado e o profano

Como o tantra conciliou o sexo e a espiritualidade na vida de ex-pastor e o ajudou a melhorar da depressão

Fel Mendes e Simone Cunha Colaboração para o VivaBem
Lucas Seixas/UOL

Os primeiros raios de sol anunciam o final de mais uma noite no Enigma Club, casa de suingue na Zona Sul de São Paulo. Lá dentro, a atmosfera ainda preserva o escuro, enquanto homens e mulheres aproveitam o finalzinho da festa. Johnny dança funk como se não houvesse amanhã. Nem toda noite rolava sexo, mas aquela havia sido especialmente animada.

Enquanto um funcionário empilha as cadeiras, Johnny vai até o carro e dirige até um supermercado próximo, onde estaciona. Ele reclina o banco, ajusta o despertador e dorme pelas próximas duas horas. Ao acordar, troca de roupa e vai até a padaria mais próxima para um rápido café. Próxima parada: Igreja Metodista da Vila Mariana. Johnny voltava a ser Roy Duarte, o pastor que, às 9 da manhã, dava início ao culto de domingo.

Por muito tempo essa dualidade foi harmoniosa, mas por fim essas duas vidas se opuseram e levaram Roy a uma depressão. Até que ele encontrou no tantra uma forma de conciliar esses dois impulsos: entre o sagrado e o profano.

"Eu nasci dentro da Igreja"

Roy nasceu em Guaianases, extremo leste da cidade de São Paulo, filho e neto de membros influentes da Igreja Metodista. Desde pequeno começou a cantar e até a dar sermões na igreja. E não faltavam manifestações de apoio, como a de uma senhora devota que chegou a profetizar: este menino seria um bom pastor.

Dito e feito, aos 15 anos, ele começou a conduzir cultos e a cursar o pré-teológico, uma espécie de preparação para quem vai se dedicar aos estudos religiosos na faculdade. Assim que atingiu a maioridade, Roy ganhou uma bolsa para fazer teologia na Universidade Metodista, que também seria sua casa e seu trabalho pelos próximos anos.

A faculdade apresentou-lhe outros prazeres. Roy, que por diretrizes da religião havia sido abstêmio até então, experimentou o álcool e, depois, a maconha. Nesta época ele também conheceu Simone*, estudante de secretariado, com quem teve sua primeira relação sexual. Foi com ela que, aos 21 anos, pouco tempo após ser nomeado como pastor na Igreja Metodista da Vila Mariana, resolveu se casar.

Casei com a primeira mulher com quem transei e o primeiro ano me trouxe a sensação de que eu não ia mais experimentar a sexualidade na sua variedade. Eu sentia a necessidade de conhecer outros corpos, me relacionar com outras mulheres"

A questão foi minando aos poucos a energia do casal até que Roy decidiu compartilhá-la. Simone não reagiu bem aos anseios de Roy. Mesmo assim, ele resolveu arriscar. "Eu entenderia se ela quisesse o divórcio depois, mas eu precisava dar ouvidos àquela necessidade". Ele seguiu suas vontades. E voltou. Contou a Simone como havia sido a experiência e disse que adoraria estar com outras garotas, junto com ela.

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O nascimento de Johnny e a chegada do pânico

A ideia de conhecer uma casa de suingue foi de Simone. Se iriam mesmo fazer aquilo, ela que decidiria quando e onde. Escolheram o Enigma Club, que era perto de casa e parecia confiável. Após uma breve passada pela pista de dança, uma loira chamou a atenção de Simone, com quem fez contato.

Começaram a ir, uma, duas, três vezes na semana. Ao se tornar um dos frequentadores mais assíduos, Roy acabou conhecendo os funcionários da casa e foi convidado para se tornar a atração musical que abria os trabalhos. Como precisava de um nome para se apresentar, Roy escolheu Johnny. "Eu cantava MPB, músicas para dar início à noite de amor que ia acontecer. Eu fazia a mesma coisa na Igreja, só que cantando hinos". Foi nesta época o auge da sua vida dupla. Umas três ou quatro vezes chegou a ir direto do suingue para o culto.

Eu não me sentia culpado porque nunca achei que estava fazendo algo errado. Quando eu estava na Igreja, minhas práticas eram totalmente condizentes com as leis de lá. E quando eu estava em um ambiente onde a liberdade sexual era vivenciada, também

Depois de um tempo o casal conheceu Carla*, adepta do Wicca (uma linhagem de bruxaria). Eles passaram seis meses se encontrando e decidiram dar um passo naquela relação: convidá-la para morar com eles. Para isso, Roy teria que revelar sua real identidade. A reação dela, no entanto, foi ruim e ela estava disposta a contar tudo na Igreja e no Colégio Metodista, onde ele havia começado a dar aulas de ensino religioso.

O pensamento de que ela iria jogar tudo no ventilador começou a persegui-lo. E sua primeira crise de pânico foi durante um sermão, quando ele viu uma ruiva entrar no salão da igreja. "Era uma mulher parecida com ela. Na hora minha cabeça entrou numa viagem e eu vi uma coisa que não existia, um cartaz na mão dela, me denunciando, contando que eu era um pastor que fazia ménage em casa de suingue". Ele travou. Suas mãos começaram a suar. A pressão caiu. E outro pastor teve que continuar a condução do culto.

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O fundo do poço

A sensação de que, a qualquer momento, tudo iria pelos ares era constante. O alto nível de ansiedade havia dado início a crises semanais de pânico. A ponto de fazê-lo ficar dias sem conseguir dormir, apenas chorando. Roy escreveu para o Bispo, pedindo licença dos trabalhos e, depois, no consultório médico, o diagnóstico: depressão crônica. Ele teria que conviver com a doença.

Roy tomava cinco remédios diferentes para a depressão e tentou suicídio tomando uma cartela inteira de um deles. Foi encontrado por Simone, que rapidamente socorreu o marido e evitou sua morte. Todo o ciclo da depressão durou 4 anos. Ele já havia ultrapassado a barreira dos 120 quilos e andava praticamente catatônico.

Em um determinado momento a esposa de Roy, na tentativa de melhorar a renda familiar, decidiu vender produtos eróticos. Foi nesta empreitada que ela se deparou pela primeira vez com um curso de massagem tântrica, que prontamente decidiu fazer. A possibilidade abriu as portas para o curso de formação em terapêutica tântrica. Ao chegar lá viu que havia uma possibilidade de trabalhar com casais, mas para isso teria que participar de outro curso, desta vez com seu parceiro.

Roy recusou esse convite, mas ficou curioso com a descrição de um terceiro curso (multiorgásmico para casais) e decidiu experimentá-lo. "Foi uma experiência horrível, porque eu não senti nada demais. E no último dia, quando as pessoas compartilharam depoimentos cheios de sentimento e testemunhando o bem que aqueles hiperorgasmos haviam feito para elas, eu tive a certeza de que o problema era comigo".

Ele já havia se desligado da igreja quando, dias depois, em uma festa misturou cocaína, antidepressivos e álcool até que teve um princípio de ataque cardíaco. Foi o que ele considerou a segunda tentativa de suicídio.

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A descoberta de Deus em um orgasmo

O dia seguinte ao ataque cardíaco lhe trouxe o pensamento: "eu tenho que fazer alguma coisa por mim". Entrou novamente no site do local em que havia estado com Simone e viu que havia um novo curso: "o caminho do amor". Inscreveu-se. Lá, na primeira meditação, teve a experiência de encontrar seu pai, falecido há um ano e meio. "Ele apareceu e falou que ia ficar tudo bem. E que este caminho do tantra poderia ser bom para mim".

Roy ficou morando dois anos no local do curso, onde conheceu e aplicou as meditações desenvolvidas por Osho nos anos 1970 e o poder curador do hiperorgasmo proporcionado pela massagem tântrica. Perdeu 40 quilos, parou de tomar as medicações e também se formou terapeuta tântrico. Mudou de nome novamente ao adotar o sannyas (algo como um nome espiritual) de Deepak Ayama, que significa a dimensão da luz.

Quatro anos depois, em 2019, Ayama já atendeu mais de 1.000 pessoas com massagem tântrica, meditação e uma terapia bastante única que ele desenvolveu aliando respiração consciente, música e frequências sonoras de cura.

Em sua sala em Pinheiros, na Zona Oeste de São Paulo, Ayama Roy reflete: "Hoje eu sinto que acolhi minha sexualidade e minha espiritualidade de forma amorosa. E se alguém me pergunta se ainda sou pastor, eu digo que sim. Porque estou fazendo a mesma coisa que eu fazia antes, mas de maneira refinada. De um lado, saíram as perversidades daquela sexualidade e, do outro, as castrações da religião".

Ainda sou um pastor e meu culto é o orgasmo, porque sei que é possível encontrar Deus em um orgasmo

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Um ritual que está além do sexo

A prática do tantra envolve yoga, alimentação adequada e um modo de vida absolutamente saudável. Porém, muitas pessoas ainda o associam apenas à sexualidade. "O tantra yoga tem como objetivo o despertar da kundalini, força espiritual que se encontra na base da coluna e que promove uma transmutação psicofísica", explica Aderson Moreira da Rocha, médico clínico geral, diretor científico da Associação Brasileira de Ayurveda e praticante de yoga e meditação há mais de 30 anos.

A filosofia tântrica conduz a um estado de autoconhecimento, de evolução do ser e de identificação com a natureza. "O tantra lida com o prazer, mas uma pequena parcela do prazer é a sexualidade", reforça Humberto Giancristofaro, doutor em filosofia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e estudioso sobre o tema há mais de 20 anos. Segundo Rocha, o tantra é um caminho de busca da transcendência. Uma das teorias tântricas é que temos 7 chacras (pontos energéticos) que se relacionam ao nosso sistema nervoso e estão no corpo refletidos na coluna vertebral do ser humano. "Ao equilibramos nossos chacras também promovemos harmonia psicoemocional", acrescenta o médico.

A prática de tantra yoga envolve posturas, pranayamas (respiração) e meditação. Já o sexo é considerado um ritual de inspiração divina, chamado 'maithuna', em que a mulher conduz, pois detém a energia da deusa Shakti. Já o homem deve ser passivo, sob a energia do deus Shiva. Para atingir o clímax, o casal precisa agir sem pressa, prolongando as preliminares e deixando que os cinco sentidos sejam despertados.

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Espiritualidade ajuda a manter equilíbrio

Pesquisas demonstram que pessoas que frequentam uma religião, regularmente, são mais saudáveis e tendem a ter uma incidência menor de distúrbios mentais como ansiedade e depressão. Não há uma explicação sobre cada tipo de atividade religiosa ou espiritual, portanto, não é possível afirmar que o tantra pode ajudar no tratamento de doenças emocionais.

E pessoas que praticam relatam sentir maior consciência corporal, melhora na capacidade de lidar com emoções, pensamentos e desejos. De acordo com especialistas, a prática da fé pode ser uma aliada para vencer fases difíceis quando não compete com os tratamentos médicos.

Portanto, uma atividade espiritual/religiosa pode contribuir para que uma pessoa reaja melhor a um tratamento, por exemplo. Segundo o psiquiatra Frederico Leão, coordenador do ProSER (Programa de Saúde, Espiritualidade e Religiosidade) do IPq do HC-FMUSP (Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade São Paulo), a ciência já comprovou que o impacto da fé interfere na qualidade de vida. "Ela está associada a um estilo de vida mais saudável e com menos riscos que também funcionam como fator protetor da saúde", avalia. Ou seja, os efeitos da espiritualidade/religiosidade caracterizam um tipo de proteção, pois podem contribuir com a resiliência, otimismo e enfrentamento do problema.

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Entendendo melhor o tantra

De acordo com diretor científico da ABA, no Ocidente as práticas tântricas foram modificadas afastando-se do tantra indiano tradicional. E na escola de vama tantra, a prática do 'maithuna' ou coito sagrado, exige um local adequado, o momento (tempo) correto e o Guru iluminado. "O objetivo não é o prazer sexual, mas o despertar da kundalini" confirma. E somente discípulos preparados por um mestre devem praticar o tantra.

Por aqui passou a ser chamado de neotantra. "Uma coisa é realizar práticas tântricas tendo a meditação e o trabalho consciente com o corpo como um hábito. Outra coisa é partir de uma sociedade reprimida sexualmente e repleta de dogmas religiosos", explica Evandro Palma, psicólogo e terapeuta tântrico. Mas, segundo ele, é preciso muita responsabilidade e comprometimento para trabalhar com o tantra, afinal as práticas tântricas atuam em três pilares: biológico, psicológico e social.

A psicóloga e sexóloga, Carla Cecarello, diz que o tantra pode ajudar na sexualidade, mas a prática não é indicada para algum tratamento específico. "Ajuda os casais a se concentrarem em outras partes do corpo, ampliando a autopercepção, melhorar a respiração e conhecer suas sensações. Mas ainda é visto com preconceito e é preciso cuidado na hora de escolher um local para aprender sobre o tema", fala.

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O que faz um terapeuta tântrico?

Terapeutas como Roy fazem atendimentos privativos de massagem tântrica e conduzem meditações como sessões de Renascimento, técnica de respiração circular desenvolvida pelo norte-americano Leonard Orr, nos anos 1960.

Na tradição indiana, essa figura é inexistente, ou seja, existem os mestres e os discípulos. "Um mestre iluminado pela escola de filosofia indiana pode orientar as práticas do tantra yoga aos seus discípulos", reforça o diretor científico da ABA.

Mas, no Ocidente, existem formações para trabalhar a técnica que oferecem certificação. Portanto, se você se interessa pela área, vale buscar locais com referência e seriedade para compreender e praticar o tantra. Uma dica é buscar a ABDTY (Associação Brasileira de Dakshina Tantra Yoga).

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