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Neurocirurgiões usam realidade virtual para fazer operação no cérebro

Quando os cirurgiões têm acesso ao cérebro, o paciente é acordado, mas não sente dor - iStock
Quando os cirurgiões têm acesso ao cérebro, o paciente é acordado, mas não sente dor Imagem: iStock

Taíssa Stivanin

08/10/2021 17h49

Para tratar lesões cerebrais, incluindo a epilepsia, tumores cerebrais ou outras doenças, a equipe do neurocirurgião francês Philippe Menei, do Centro de Pesquisa em Cancelorologia e Imunologia de Nantes, opera o paciente acordado. O objetivo é poupar as áreas cerebrais responsáveis pela linguagem ou motricidade.

Os pacientes são totalmente anestesiados para a instalação no bloco operatório, e ao mesmo tempo, recebem um anestésico local, aplicado na pele do crânio, que é a estrutura mais sensível da cabeça. Quando os cirurgiões têm acesso ao cérebro, o paciente é acordado, mas não sente dor.

O objetivo é testar se zona a ser operada pode comprometer os movimentos ou a linguagem. "Todos nós temos a mesma rede cerebral, mas há variações individuais", explica o cirurgião francês. Para operar com o mínimo de sequelas possível, os neurocirurgiões realizam, durante a intervenção, a chamada cartografia cerebral.

"Utilizamos a chamada estimulação elétrica. Temos um pequeno eletrodo que paralisa uma área do cérebro de cerca de um centímetro quadrado, durante alguns segundos. Pedimos ao paciente que fale, e se estamos em uma área importante para a linguagem, ele terá dificuldade se encostarmos essa zona cerebral com o eletrodo."

A região da linguagem, geralmente, se situa no hemisfério esquerdo, explica o neurocirurgião francês. Por essa razão, esse tipo de técnica é utilizada quando as lesões são detectadas nessa área.

Realidade virtual

Outras regiões do cérebro, entretanto, podem ser afetadas durante a cirurgia, como a chamada cognição social, ou a comunicação não-verbal. Ela se traduz pelo olhar e expressões faciais sutis que, ausentes, prejudicam a interação do indivíduo com o seu meio. Essas funções estão localizadas no hemisfério direito, explica Philippe Menei.

"Essa comunicação é extremamente importante e utilizamos todos os dias sem perceber: a maneira como olhamos as pessoas, a maneira como você exprime as emoções no rosto e como as interpreta e a maneira de "adivinhar" a emoção da pessoa que está olhando para você. Tudo isso faz parte da linguagem não-verbal", completa.

Apesar de ser extremamente importante, ressalta o neurocirurgião francês, essa zona do cérebro, durante muitos anos foi "esquecida" nas cirurgias, por ser considerada uma deficiência "invisível".

"Quando alguém não pode mais falar, percebemos na hora. Quando alguém perdeu uma parte das habilidades não-verbais, é considerado como bizarro, e reage de maneira bizarra às coisas, mas não é algo imediatamente visível", declara.

Testando a linguagem não-verbal

A equipe de Philippe Menei decidiu então testar essa área cerebral no bloco operatório, utilizando óculos inteligentes de realidade virtual. O paciente acorda, entra de maneira imersiva em um espaço virtual onde os avatares tentarão entrar em contato com ele de maneira não-verbal.

Durante mais de 10 anos, a técnica foi testada a pedido das Autoridades de Saúde francesas, que queriam avaliar a inocuidade da tecnologia nas cirurgias cerebrais. Hoje, o uso da realidade virtual na saúde se desenvolve rapidamente, mas esse não era o caso há alguns anos. Hoje, os óculos inteligentes fazem parte da rotina da equipe de Philippe Menei nos hospitais.

Ele exemplifica com o caso de um músico que precise operar o cérebro. A realidade virtual poderá simular sua participação em um concerto com uma orquestra, auxiliando os cirurgiões na preservação das regiões cerebrais utilizadas para tocar os instrumentos. "O único limite é nossa imaginação. Com a realidade virtual podemos reproduzir todo tipo de situação", conclui.

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