Câncer foi 'porrada', mas músculos o ajudaram a vencer doença: 'Crucial'

Em 2016, o agora aposentado Tagli Gomes, 45, percebeu um sangramento na gengiva que acompanhava um forte cansaço. "Achei que estava com dengue hemorrágica, fiz o exame de sangue e minhas plaquetas deram muito baixas. Fiquei internado durante três dias, fiz vários exames e tudo dando negativo", conta Gomes.

Transferido de hospital, veio a confirmação após exames: ele estava com leucemia, com o subtipo LMA M3 (leucemia promielocítica aguda), que faz com que exista uma proliferação das células imaturas na medula óssea. "O diagnóstico foi uma porrada forte e horrível. Era muito ativo e de repente não pude sair da cama, fiquei totalmente dependente da minha esposa. A quimioterapia me trouxe complicações aos pulmões, juntando água na pleura", lembra.

Entretanto, apesar das dificuldades, a vida ativa que Tagli levava o ajudou a enfrentar o período de internação, quando perdeu 28 kg, caindo de 96 kg para 68 kg.

Quando precisava me levantar, tinha massa muscular para isso. Foi crucial, pois eu tinha a opção de ficar deitado ou me levantar quando estava bem, isso ajudou a reduzir o número de infecções no pulmão. Tagli Gomes

Antes do agravamento e diagnóstico da doença, Tagli praticava musculação, jiu-jitsu, vôlei e surfe.

Como os músculos ajudam a vencer doença?

De acordo com o ortopedista e médico do esporte Daniel Edde, o sistema músculo-esquelético é um preditor de saúde. "Estudos realizados com pacientes com internação prolongada, seja por qualquer motivo, desde covid a doenças oncológicas, demonstraram que quem tem melhor qualidade muscular e mais massa magra tende a passar melhor pela enfermidade", diz.

Um estudo, publicado em outubro de 2023 no periódico British Journal of Cancer, mostrou que a maior prevalência de massa muscular reduz o risco de morte em pacientes oncológicos.

Tagli Gomes antes do diagnóstico de leucemia praticava musculação e jiu-jitsu
Tagli Gomes antes do diagnóstico de leucemia praticava musculação e jiu-jitsu Imagem: Arquivo pessoal/Tagli Gomes
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O oncologista Jorge Abissamra Filho, coordenador da oncologia da Hapvida NotreDame Intermédica, afirma que os músculos funcionam como um estoque de saúde. "Eles [músculos] armazenam proteínas que são importantes para o sistema imunológico fabricar anticorpos. O ganho de massa muscular melhora a resposta do organismo a fatores estressantes, contribui para a recuperação mais rápida de doenças agudas e está associado a um efeito anti-inflamatório, à prevenção de doenças crônicas, incluindo alguns tipos de cânceres", diz.

Chance de vida depende de tratamento rápido

"As leucemias são cânceres extremamente agressivos das células brancas do sangue, que se desenvolvem na fábrica do sangue, que é a medula óssea. Esse tipo [LMA M3] tem chance de cura alta, em até 85%, se tratado rapidamente", explica o hematologista Vitor Augusto Queiroz Mauad.

Mas a sobrevida pode cair para 10% em casos hemorrágicos, que é quando fortes sangramentos podem surgir, como no caso de Tagli. "Neste subtipo da doença, as células se tornam instáveis, quando elas morrem, podem causar hemorragia. Nesse estágio, é bastante difícil conseguir tirar alguém desse quadro", afirma Mauad.

Segundo o hematologista, os principais sintomas de casos hemorrágicos são sangramento da gengiva e fluxo menstrual muito intenso. "Mas é uma coisa rápida e bastante agressiva, aparece de uma vez", afirma.

Tratamento e retorno à vida atlética

Tagli Gomes e sua esposa Lívia Soares tiveram uma filha após quatro anos do fim da quimioterapia oral
Tagli Gomes e sua esposa Lívia Soares tiveram uma filha após quatro anos do fim da quimioterapia oral Imagem: Arquivo pessoal/Tagli Gomes
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Mesmo com a ajuda de seu condicionamento físico e aporte muscular, o tratamento de Tagli foi feito com dois anos de quimioterapia venosa e outros dois anos por via oral. Ele seguiu o acompanhamento por cinco anos, para considerar a remissão do câncer.

O oncologista Jorge Abissamra Filho explica que há diferentes formas de tratamento da doença, mas que dependem da idade do paciente e de fatores de risco. Pode ser quimioterapia ou terapias alvo, que atacam especificamente as células doentes e causam menos danos às células saudáveis. "Há também transplante de medula óssea, no qual é feita uma infusão de células-tronco para repor as células destruídas pela quimioterapia. Essas novas células-tronco limpam a medula óssea e permitem a formação de novas células saudáveis", diz.

Ainda durante a quimioterapia oral, em 2017, Tagli retornou aos esportes e começou a estudar. "Comecei a faculdade de educação física e voltei a praticar musculação e jiu-jitsu. Dentro da minha possibilidade e intensidade, mas por um período, perto do fim do tratamento, os remédios aumentaram e fiquei 20 dias muito fraco, dando uma pausa", lembra.

Em 2018, ele terminou a quimioterapia oral, três anos depois se formou no curso de educação física e teve uma filha com sua esposa. "Agora, tenho que ficar ainda mais ativo, porque tenho uma filha de dois anos e tenho que acompanhar e participar do desenvolvimento dela, minha maior inspiração e força, o que me motiva", diz Tagli.

Ele recebeu "alta" no dia 20 de maio e levou a filha e família na ocasião, para a médica conhecer. "Recebi alta, as recomendações com cuidado agora são evitar sobrepeso, consumo de gordura e continuar as atividades físicas."

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