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Saúde

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Doía comer, beber e falar: ela sentiu pior dor do mundo até descobrir tumor

Bárbara Therrie

Colaboração para VivaBem

14/08/2022 04h00

Por dois anos, Bruna Gasparin, 26, sofreu com a dor da neuralgia do trigêmeo, considerada uma das piores dores do mundo. "Era uma dor diferente de todas as que eu já senti na vida", diz a técnica de enfermagem que tinha dificuldades para comer, beber e até falar.

Em uma ressonância magnética, o médico descobriu que Bruna tinha um tumor de 4 cm no cérebro e que estava comprimindo o nervo trigêmeo, o que ajudaria a explicar ainda mais a intensidade da dor. Aos 23 anos, a jovem foi submetida a uma cirurgia para remoção do tumor e as dores desapareceram. Já recuperada, Bruna se tornou técnica de enfermagem no hospital em que operou e hoje motiva outros pacientes com sua história.

"Em 2017, senti uma dor muito forte, como se fosse um choque perto do maxilar do lado esquerdo e depois no queixo. Durava poucos segundos, mas era insuportável. No começo ela era esporádica, imaginei que poderia ser uma dor muscular, um mal jeito que tivesse dado no pescoço ou até uma dor de cabeça mais intensa.

No final de 2018, a dor passou a ir e voltar várias vezes durante o dia. Fui ao dentista pensando que poderia ser os dentes do siso, mas quando ele mexeu, o choque não veio e descartamos a possibilidade de ser alguma coisa relacionada a isso.

O segundo profissional que busquei foi um otorrinolaringologista por achar que poderia ser algum problema na ATM (articulação temporomandibular). No exame clínico, o médico mexeu atrás da articulação e senti o choque perto do maxilar e do queixo. Ele pediu uma ressonância da ATM, mas não deu nada.

Minha maior dificuldade era conseguir descrever como era essa dor para saber qual especialista procurar. Com o tempo, ela só foi piorando e passou a afetar coisas simples do meu dia a dia.

Sentia o choque ao mastigar, beber, falar, escovar os dentes, cumprimentar as pessoas com beijo no rosto, por exemplo. Durante as crises, eu chorava e gritava de dor.

Bruna Gasparin, 26, sofreu com pior do mundo - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Imagem: Arquivo pessoal

Fui diversas vezes ao pronto-socorro, alguns médicos deram algumas hipóteses do que poderia ser, mas nunca chegavam a uma conclusão. Falavam que poderia ser alguma dor crônica, ou uma dor causada pela neuralgia do trigêmeo, considerada uma das piores dores do mundo, descrita até como pior do que a dor do parto normal.

Fui ao neurologista, ele disse que não era normal uma pessoa da minha idade —tinha 23 anos— ter neuralgia do trigêmeo, porque ela é mais comum em idosos. Ele suspeitou de duas possibilidades: esclerose múltipla ou algum tumor perto do nervo trigêmeo. A pedido dele, fiz uma ressonância do crânio que mostrou um tumor de 4 cm localizado em um ponto que estava comprimindo o nervo trigêmeo.

Levei o resultado do exame para um outro neuro que já tinha passado algumas vezes. Ele disse que meu caso era cirúrgico, segundo ele, só a remoção do tumor poderia diminuir a pressão sobre o nervo, o que ia aliviar ou até cessar as dores. Ele me deu um encaminhamento de urgência para a cirurgia de retirada do tumor e me passou um anticonvulsivante, indicado para a neuralgia do trigêmeo.

Para ser sincera, a minha dor era tão forte que não tive reação quando soube do tumor. Meu desespero bateu quando passei na triagem para cirurgia, e eles falaram que ela poderia demorar até três anos para sair —eu não ia aguentar viver mais três anos com aquela dor.

Minha mãe foi na prefeitura da minha cidade pedir ajuda, eles viram o sofrimento dela, se mobilizaram e conseguiram acelerar o processo. A essa altura, tinha parado de fazer as aulas do curso técnico de enfermagem e passava a maior parte do dia deitada na cama, sonolenta por conta da medicação forte.

Bruna Gasparin, 26, sofreu com pior do mundo - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Imagem: Arquivo pessoal

No dia 30 de maio de 2019, fiz a cirurgia, o tumor foi completamente retirado. Após fazer a biópsia, descobrimos que ele era benigno, mas a remoção dele em cima do nervo trigêmeo foi fundamental para os choques pararem.

Já no quarto do hospital, consegui beber água, comer e conversar com a minha mãe sem dor. A sensação foi maravilhosa, de felicidade e gratidão. Em dois meses, minha vida voltou ao normal e passei a fazer acompanhamento uma vez por ano.

Terminei o curso e, em abril de 2020, consegui meu primeiro emprego como técnica de enfermagem no Hospital Universitário Cajuru, em Curitiba, onde fiz a cirurgia. Atuo na unidade de internação de transplante renal.

Superar a minha própria luta da época em que estive doente me ajudou a ressignificar a forma como trato meus pacientes e enxergo a vida. O tratamento e acolhimento que recebi da equipe quando fiz a cirurgia e fiquei internada foi muito importante em um momento que me senti frágil e desanimada.

Hoje, como profissional da área da saúde, sou empática e me coloco muito mais no lugar do outro. Tento oferecer um atendimento mais humanizado e, quando vejo um paciente triste ou com medo, conto a minha história como motivação para transmitir esperança."

O que é a neuralgia do trigêmeo?

Trigêmeo é o nome dado ao nervo craniano responsável pela sensibilidade (sensação tátil, térmica, dolorosa) do rosto e pelos movimentos mastigatórios. Neuralgia é a dor com origem em um nervo, nesse caso, é uma dor paroxística, isto é, que acontece de uma hora para outra, em um ou mais territórios de inervação do nervo trigêmeo, provocada pelos atos de mastigar, tossir e tocar a face.

Simples atos como escovar os dentes, pentear os cabelos, lavar o rosto ou mesmo uma leve brisa soprar na face podem desencadear terríveis crises dolorosas.

A causa da neuralgia do trigêmeo não é completamente esclarecida, mas algumas condições têm sido destacadas, como a compressão intracraniana do nervo trigêmeo por vasos periféricos, geralmente artérias. Outras causas incluem infecções viróticas, lesões tumorais, escleroses múltiplas, aneurismas e comprometimento alveolar após extrações dentárias.

A dor é parecida com um choque ou queimação, de forte intensidade, com duração de segundos a minutos e que desaparece assim como começou —em crises, ela pode durar horas. Limita-se a um ou mais ramos do nervo trigêmeo e acomete um lado do rosto.

Classicamente não se associa a anormalidades ao exame neurológico, porém em alguns casos é possível observar alterações sensitivas no território do nervo afetado. A dor pode ser tão intensa e as crises tão frequentes que podem levar o paciente a cometer suicídio.

Bruna Gasparin, 26, sofreu com pior do mundo - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Após cirurgia para retirada do tumor (foto acima), Bruna teve total alívio da dor
Imagem: Arquivo pessoal

Como no caso de Bruna, um tumor intracraniano localizado próximo ao nervo trigêmeo pode causar neuralgia por compressão ou deslocamento do nervo, bem como tumores originados do próprio nervo trigêmeo podem causar a neuralgia.

O diagnóstico da neuralgia do trigêmeo é essencialmente clínico, com uma história detalhada do início dos sintomas, das características da dor e sua evolução, aliado a um exame físico e neurológico minucioso. Nos casos suspeitos, é necessário realizar exames complementares com estudos eletrofisiológicos, neurorradiológicos e exame do líquor.

Inicialmente, o tratamento é feito com medicações específicas para dor neuropática, e costuma ser suficiente na maior parte dos casos. A cirurgia é indicada para pacientes cuja medicação não teve efeito ou em que foi identificado uma causa definida para a neuralgia do trigêmeo, como um tumor ou compressão vascular.

Nas situações em que a causa é identificada, a cirurgia pode proporcionar a cura e alívio total dos sintomas da dor.

Fonte: Robinson Antonio Menegotto Marques, médico neurocirurgião do Hospital Universitário Cajuru.