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Tomar pílula anticoncepcional engorda?

Priscila Barbosa
Imagem: Priscila Barbosa

Cecilia Felippe Nery

Colaboração para VivaBem

06/07/2022 04h00

Lançada no mercado em 1960, a pílula anticoncepcional é um dos métodos contraceptivos mais utilizados no mundo e uma grande conquista na autonomia feminina em relação à concepção. Entretanto, uma das mais frequentes queixas das mulheres que usam esse método é o ganho de peso, mas será que essa crítica procede? Será que a pílula anticoncepcional engorda mesmo?

No mercado, existem diversas composições de contraceptivos hormonais, alguns com mais ou menos hormônio na composição. "Eles não engordam, não fazem acumular gordura. O que pode acontecer é que alguns tipos de pílulas têm menor efeito diurético e, por isso, proporcionam retenção de líquido", afirma Helena Hachul, médica ginecologista.

Quando o organismo retém líquido, o corpo fica mais inchado em razão do acúmulo de água entre as células, dando a falsa impressão de aumento de peso. Conforme Waldiney Pires Moraes, professor de farmacologia, nas preparações atuais, com baixas doses de hormônios, esse efeito é cada vez menor.

"Os anticoncepcionais não engordam, eles podem reter líquido e as usuárias têm a percepção de aumento de peso, mas isso não se dá pelo acúmulo de gordura. Tanto os anticoncepcionais orais como os injetáveis são composições de baixas doses de hormônios e não engordam", explica Moraes.

Apesar do avanço nas formulações, de acordo com Hachul, os anticoncepcionais que mais retêm líquido são os injetáveis, sobretudo os trimestrais. Porém, a médica lembra que, muitas vezes, esse pode ser o contraceptivo hormonal de escolha das mulheres que não podem utilizar o estrogênio (por alguma condição clínica), ou ainda que estejam amamentando. "O ideal é fazer o controle com um profissional especializado", reforça.

O fato é que o anticoncepcional não mexe com o metabolismo e, principalmente, não pode ser generalizado para todas as mulheres. "Se uma paciente já tem problema com obesidade, ela vai ter mais complicações, principalmente na questão metabólica, dependendo da composição desse anticoncepcional", destaca a endocrinologista Dolores Pardini.

No passado, segundo a especialista, os anticoncepcionais eram todos feitos com eritridiol, um estrogênio sintético, e em doses muito altas, com 50 mg. Depois foram caindo para 35 mg e hoje apresentam de 15 mg a 20 mg.

Além disso, surgiram os anticoncepcionais que são à base de estridiol, que é um estrogênio natural, nos quais as complicações são muito menos evidentes. "Se a paciente estiver usando o medicamento, aliada a uma boa alimentação, ela não vai ter complicações no metabolismo de forma nenhuma, sobretudo de aumento de peso", acrescenta Pardini.

A escolha do contraceptivo

Antes de optar por um método contraceptivo ou pelo consumo da pílula anticoncepcional, a mulher precisa se informar de todas as alternativas. Hoje existem várias preparações, como os injetáveis, via oral ou adesivo, entre outros.

"É recomendado conversar com seu médico, que irá verificar, também, no histórico se há contraindicação para este ou aquele método", assegura Pardini.

A decisão de escolher um método contraceptivo —hormonal, de barreira, de longa duração ou definitivo— deve ser feita em parceria. De fato, a avaliação médica ajudará a classificar o risco-benefício do método escolhido.

"Isso se dá checando a existência de condições clínicas como hipertensão arterial, antecedentes tromboembólicos, enxaqueca com aura, entre outras, permitindo a escolha certa dentro da condição clínica da paciente", reforça Hachul.

Efeitos colaterais

Os contraceptivos orais, os adesivos e o anel vaginal com associação de estrogênio-progesterona proporcionam excelente contracepção quando usados de maneira correta, assegura Hachul. Por outro lado, ela adverte que todos elevam o risco de trombose venosa e tromboembolismo.

Dessa forma, as pacientes devem ser cuidadosamente aconselhadas sobre potenciais reações adversas antes de iniciar o uso de anticoncepcionais hormonais; Além de informadas para relatar sinais e sintomas de reações adversas graves para obter melhor adesão e resultados do tratamento.

"A maioria dos efeitos colaterais dos anticoncepcionais são leves e desaparecem com o uso contínuo ou com a mudança para outra formulação", assegura Moraes. De acordo com o professor, o efeito adverso mais comum dos anticoncepcionais orais combinados é o sangramento de escape.

"São descritos que mulheres também apresentam náuseas, dores de cabeça, cólicas abdominais, sensibilidade mamária e aumento do corrimento vaginal ou diminuição da libido. A náusea pode ser evitada tomando o medicamento à noite antes de dormir. A maioria das outras consequências serão resolvidas com o tempo ou com a mudança do anticoncepcional para uma preparação diferente", argumenta.

Logo que foram lançados na década de 1960 os anticoncepcionais causavam mais efeitos adversos, muitos desses efeitos eram dependentes da dose o que levou as atuais preparações com baixas doses de hormônios.

"Hoje, é consenso de que em mulheres sem fatores de risco predisponentes, as preparações de baixas doses acarretam riscos mínimos para a saúde, inclusive exercendo também alguns efeitos benéficos", explica o professor.

Assim, Moraes recomenda que mulheres que têm uma condição cardiovascular preexistente ou fumam não usem anticoncepcionais. Mulheres com diabetes mellitus podem precisar aumentar a ingestão de insulina para regular os níveis de glicose no sangue dentro da faixa desejada.

Além disso, anticoncepcionais orais podem causar hipertensão em 4-5% das mulheres saudáveis e exacerbar a hipertensão em cerca de 9-16% das mulheres com hipertensão preexistente. "O uso de anticoncepcionais pode aumentar o risco de eventos trombóticos venosos, especialmente durante o primeiro ano de início", alerta.

Segundo Moraes, ainda, há relatos de risco de acidente vascular cerebral e/ou infarto do miocárdio. O risco de acidente vascular cerebral isquêmico ou infarto do miocárdio aumenta com doses mais altas de estrogênio. Este risco foi maior quando as pílulas tinham mais de 50 microgramas de estrogênio. "A maioria das preparações agora contém menos de 50 microgramas de estrogênio, tornando o uso dos anticoncepcionais orais substancialmente mais seguros", garante.

A escolha de um método contraceptivo deve sempre ser individualizada, e as pacientes devem participar igualmente nesse processo sabendo dos benefícios e malefícios esperados de cada método e hormônio, quando presente.

A gravidez não planejada é mais comum em mulheres que não estão satisfeitas com o método contraceptivo que estão usando. "Não existe um melhor anticoncepcional ou método contraceptivo, existe aquele que é mais indicado para cada paciente", conclui o professor.

Fontes: Dolores Pardini, endocrinologista da SBEM-SP (Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia - Regional São Paulo); Helena Hachul, professora de saúde da mulher na Faculdade de Medicina Albert Einstein (SP), médica responsável pelo setor de Sono na Mulher da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo), pesquisadora do Instituto do Sono; e Waldiney Pires Moraes, doutor em neurociências e biologia celular, professor de farmacologia da Ufopa (Universidade Federal do Oeste do Pará).