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'Minha barriga cresceu e sentia mexer, mas era gravidez psicológica'

Gabrielle guarda foto de quando acreditava estar grávida, com a barriga aparente - Arquivo pessoal
Gabrielle guarda foto de quando acreditava estar grávida, com a barriga aparente Imagem: Arquivo pessoal

Sarah Alves Moura

Do VivaBem, em São Paulo

23/06/2022 04h00

Barriga crescendo, seios inchados, enjoos e algo se mexendo no ventre. A dona de casa e influenciadora digital Gabrielle dos Santos Lima, 25, teve certeza de que estava grávida. Mas tinha um detalhe: não existia bebê.

Gabrielle teve gravidez psicológica, condição em que existem sintomas típicos de uma gestação, mas sem o feto. Com receio de engravidar, tudo aconteceu após uma injeção anticoncepcional mal aplicada. "Minha menstruação não desceu e os gatilhos começaram", conta. A mulher que havia aplicado, uma enfermeira conhecida da família, disse que a injeção "não devia ter pegado e que para ajudar pagaria o enxoval da criança".

"Coloquei na cabeça que estava grávida, porque a minha menstruação sempre foi muito regular. Fiquei com receio de fazer o teste, porque não era uma gravidez desejada", lembra. Começaram os enjoos, característicos do início da gestação, junto aos comentários da família de que ela certamente tinha engravidado.

Gabrielle dos Santos Lima, 25 anos - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Gabrielle dos Santos Lima, 25 anos
Imagem: Arquivo pessoal

Quando "estava" com um mês e meio, Gabrielle decidiu fazer um teste de farmácia. Negativo. "Na minha cabeça, estava na porcentagem de erro." A mesma porcentagem quando fez o exame de sangue e recebeu outra negativa. "Eu disse 'como, com dois meses?'", conta. Nesta altura, o corpo não deixava dúvida: ela já tinha volume na barriga.

Uma mulher, que não sei como, soube da minha história, disse que só confirmou a gravidez quando fez o transvaginal. Minha barriga continuou crescendo. Eu continuei com os sintomas e passei a ter tremores na barriga."

Então, ela decidiu agendar o exame. "Ainda consegui enxergar um feto na imagem." Mas não ouviu batimentos e se deu conta de que não estava grávida. "Eu disse que minha barriga estava grande, e o homem me atendendo disse que era coisa da minha cabeça", recorda.

O que é a gravidez psicológica?

A gravidez psicológica integra um grupo de transtornos chamados somatoforme, condições físicas que ocorrem sem razão biológica —no caso, uma gestação sem bebê. É como se o sofrimento psicológico fosse externalizado em sintomas.

"Sempre que existe quadro de somatização, há algo que não é dito. A gravidez psicológica ocorre, geralmente, em pessoas com dificuldade de se comunicar, com menor capacidade afetiva pela palavra e maior explicação no corpo." Amaury Cantilino, psiquiatra e doutor pela UFPE (Universidade Federal do Pernambuco).

O quadro é chamado cientificamente de pseudociese e há duas possibilidades: a verdadeira, quando a pessoa realmente acredita estar grávida, e a não verdadeira, quando ela sabe que não está, mas encena uma gestação. No caso da primeira, relatado por Gabrielle, é possível assimilar a situação logo ao descobrir que não existe bebê ou, ainda assim, ter resistência e culpar a equipe por eventuais erros de diagnóstico.

A condição difere de quadros psicóticos, nos quais é possível desenvolver o delírio de estar gestando, mas não necessariamente há sintomas.

Em geral, a pseudociese ocorre em quem está vulnerável emocionalmente, e pode ocorrer tanto em mulheres com pânico de engravidar quanto naquelas que desejam muito. "Não necessariamente precisa ter quadro psiquiátrico, mas sabemos que mulheres deprimidas são mais suscetíveis", afirma a psiquiatra perinatal Layla Campagnaro, do Centro de Medicina Integrativa do Hospital e Maternidade Pro Matre (SP).

Segundo Campagnaro, há algumas décadas, guinadas pela pressão da maternidade, era comum que as mulheres vivessem gravidezes psicológicas com maior frequência. Hoje, os casos são mais raros, mas muitas mulheres que vivenciam a pseudociese têm vergonha de revelá-la, inclusive deixando de buscar ajuda.

'Vi minha menstruação e disse que estava perdendo meu filho'

Foi justamente a pressão social que fez a autônoma Letícia Nicoletti, 23, acreditar que estava finalmente grávida, após três anos de tentativas. "Achando que poderia começar a demorar mais tempo e vendo que muita gente conseguia engravidar, fui ficando muito ansiosa", descreve.

Comecei a ter sintomas de gravidez, fazer muitos testes e bem naquela época a menstruação não desceu. Até foto da barriga eu tirava, e nada do positivo."

Demorou um pouco, mas ela descobriu que os sintomas batiam com os de gravidez psicológica. "Quando eu vi aquilo, meu chão caiu. Pensei que algo de errado existia, porque se fosse gravidez mesmo teria algum exame positivo."

Letícia Nicoletti - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Letícia fez vários testes e acreditava que estavam errados
Imagem: Arquivo pessoal

Veio a tristeza ao perceber que ainda não seria mãe. "Vi minha menstruação descendo, me joguei no chão e disse que estava perdendo o meu filho", conta. Letícia entrou em depressão e não conseguia sair de casa, principalmente pela vergonha de contar às pessoas que não estava grávida.

Hoje, ela se dedica a ajudar tentantes, mulheres que tentam engravidar, uma jornada muitas vezes solitária, cheia de autocobranças e frustrações.

Como o corpo organiza os sentimentos

A raiz emocional da gravidez psicológica e o surgimento dos sintomas da gestação são uma via de mão dupla. O forte desejo ou medo intenso de estar grávida pode criar desarranjos que interferem no funcionamento do corpo.

De forma prática, o sofrimento desregula as emoções, mas esses sentimentos também geram impactos na produção de neurotransmissores, substâncias bioquímicas responsáveis pela comunicação entre os neurônios. Isso pode desencadear alterações hormonais que explicam os sintomas. Há relatos, inclusive, de pessoas que chegaram a ter contrações do parto.

O sistema reprodutor é regulado pelo hipotálamo, glândula na base do cérebro. Os hormônios produzidos por ele agem em outra glândula, a hipófise, que coordena a ação nos ovários.

"O funcionamento do hipotálamo depende muito da bioquímica cerebral, os neurotransmissores. Então, alterações emocionais, algumas delas até inconscientes, podem levar à mudança da produção hormonal ovariana", diz o obstetra Edson O'Dwyer Junior, professor da Faculdade Unime (BA) e doutor pela UFBA (Universidade Federal da Bahia).

cérebro - iStock - iStock
Questões emocionais impactam os neurotransmissores, responsáveis pela bioquímica cerebral
Imagem: iStock

Outra reação associada aos sinais é o aumento nos níveis de prolactina, hormônio produzido na hipófise e que cresce durante a gestação, sendo responsável por alteração nas mamas e a formação do colostro (primeiro leite da amamentação). Entre os motivos para o aumento desse hormônio podem estar justamente questões emocionais, além do uso de algumas medicações, intensa estimulação das mamas, tumores na hipófise (o prolactinoma) e alterações na tireoide, por exemplo.

A hiperprolactinemia, ou seja, a produção do hormônio em excesso, é uma das razões para a ausência da menstruação. "Quando está aumentada, a prolactina inibe o funcionamento do ovário, causando parada da menstruação", explica O'Dwyer Junior.

Já o volume na barriga sem aumento do útero acontece porque há distensão do intestino e relaxamento do abdome.

Gravidez psicológica pode gerar trauma

Depois de descobrirem que não estavam grávidas, Gabrielle e Letícia tiveram que lidar com a frustração e o receio de julgamentos. Elas seguiram caminhos opostos: a última conseguiu engravidar meses depois, enquanto a primeira viveu abortos, recaiu na depressão após o marido morrer e hoje não quer ser mãe.

"Tive muita vergonha, cheguei a não sair de casa, frequentar ambientes onde as pessoas que sabiam estavam, escondi durante muito tempo o fato de ter tido gravidez psicológica. Eu já tinha um pouco de depressão na época e depois piorei, me isolei mais para evitar comentários, traumatizei", comenta Gabrielle.

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Compartilhar as emoções ajuda a superar o sofrimento
Imagem: iStock

O cuidado após viver a situação é essencial para conseguir assimilar o que aconteceu. Principalmente, porque é possível o sofrimento tomar novas formas físicas ou psicológicas, como dores de cabeça e transtornos mentais. Nesse processo, o acompanhamento psiquiátrico pode ser necessário e a terapia é a principal ferramenta.

Driblar o receio em compartilhar a situação também é a saída para conseguir diagnosticar e tratar eventuais problemas biológicos, como as alterações hormonais.

"Se existe ou existiu gravidez psicológica, é porque estão por trás sintomas e traumas que precisam ser conversados e elaborados. Se não trabalhar isso, não vai ser suficiente descobrir apenas que não gestou, não vai fazer com que o sofrimento psíquico suma", reforça Campagnaro.

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