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Água oxigenada para problemas na boca, pele e nariz? Entenda se faz bem

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Adriano Ferreira

Colaboração para VivaBem

27/05/2022 04h00

Você já deve ter lido por aí os "milagres" que a água oxigenada pode fazer. Ela é recomendada para tratar problemas de sinusite, dor de garganta, bronquite crônica, doenças de pele e até para manter a saúde dos dentes. Porém, nem todos os usos são saudáveis, por isso é preciso saber o que é benéfico ou não em cada caso.

Na farmácia é comum encontrar frascos que possuem o rótulo "10 volumes", que na verdade representa uma concentração de 3% do químico. É necessário tomar cuidado com a manipulação, que deve ser feita com luva, porque o contato com a pele pode resultar em irritações.

O que é a água oxigenada e qual a sua ação?

Rogério Aparecido Machado, professor de química e meio ambiente da Universidade Presbiteriana Mackenzie e doutor em saúde pública pela USP (Universidade de São Paulo), explica que a água oxigenada é um líquido que tem um átomo a mais de oxigênio na sua composição, por isso é quimicamente chamada de peróxido de hidrogênio (H2O2) e reage rapidamente com matéria orgânica causando a deterioração deste material.

Nisto, o oxigênio liberado pelo H202 acaba sendo extremamente tóxico para bactérias anaeróbias, aquelas que vivem em um ambiente sem oxigênio. Teoricamente, só haveria sentido o uso do químico onde esse tipo de bactéria existisse.

Porém, antes de qualquer decisão para uso na saúde, é preciso saber que o líquido:

  • Não deve ser usado por conta própria, portanto não se deve falar em volume seguro;
  • Não existe quantidade que não possa ser prejudicial;
  • Não é um remédio e não faz parte de nenhum tratamento padrão;
  • Não há embasamento científico para o uso da água oxigenada em nenhuma doença ou condição médica estabelecida.

Veja abaixo os usos na saúde que costumam causar dúvidas

  • Dentes e gengiva
Boca de mulher, dentes, alegria, felicidade, risada, sorriso - iStock - iStock
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Sérgio Fernando Torres de Freitas, professor e pesquisador do departamento de saúde pública da UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina), alerta que em relação aos dentes, a exposição à água oxigenada pode trazer alguns problemas.

O mais comum é baixar muito e de forma desnecessária o pH (potencial hidrogeniônico, medida que indica nível de acidez ou alcalinidade na saliva, neste caso), o que é um fator de risco para o aparecimento de cáries.

Existe também o risco de causar fragilidade nos dentes, principalmente na região de transição entre o esmalte e o cemento, que é o tecido que recobre as raízes.

Nas gengivas, o uso é recomendado em poucas situações e deve ser aplicado com muito cuidado, pois existe liberação de grande quantidade de oxigênio pelo peróxido de hidrogênio. Por ser um componente com um potencial irritante para as gengivas e mucosa bucal, é melhor fazer bochecho com antissépticos ou bactericidas bucais sem riscos e sem contraindicações para recuperações pós-cirúrgicas.

  • Aftas
Afta, boca ferida - iStock - iStock
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Atualmente, não existem estudos científicos que sejam completos e bem conduzidos que indicam o uso contra aftas. É preciso ter cuidado com pesquisas em alguns sites de divulgação científica, pois o uso acaba sendo indicado sem citação de fontes confiáveis e quase todos publicam um texto parecido, indicando também o uso de bicarbonato de sódio, que provoca um aumento acentuado de pH.

"Enquanto a primeira [água oxigenada] provoca uma queda brusca de pH, o segundo [bicarbonato de sódio] provoca um aumento, mostrando uma contradição que já indica a pouca confiabilidade", observa o pesquisador Freitas.

  • Clareamento dental

Os atuais clareadores são feitos com outras substâncias, como o peróxido de carbamida; que pode conter em sua fórmula o peróxido de oxigênio. É importante considerar que somente a água oxigenada tem uma concentração mais alta (de até 30%) em relação ao peróxido de carbamida.

Dessa maneira, seu uso é muito mais perigoso, pois agrava danos indesejáveis tanto nos dentes quanto em tecidos moles, o que inclui um efeito potencialmente cancerígeno sobre as mucosas bucais e gengivas, gerando irritações por queimaduras químicas.

  • Verrugas moles, manchas de envelhecimento e acnes
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Anber Ancel Tanaka, chefe do serviço de dermatologia do HUEM (Hospital Universitário Evangélico Mackenzie), esclarece que erroneamente muitas pessoas acabam usando fórmulas que encontram na internet para tratamentos de verrugas de origem viral, mas, por enquanto, não existem estudos e aprovação desta indicação.

Em relação às ceratoses seborreicas, que são lesões benignas na pele, à acne e às manchas, existem outras formas mais eficazes e mais seguras de tratamento que utilizam retinoides e peróxido de benzoíla —além de tratamentos físicos e químicos, como peelings, lasers e eletrocauterização, entre outros.

Se a água oxigenada é aplicada na pele, dependendo da concentração e da quantidade, pode haver desde uma leve irritação até mesmo queimaduras, o que pode resultar em ulceração no local e marcas.

  • No ouvido
Homem com dor de ouvido, otite - iStock - iStock
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José Fernando Polanski, professor de otorrinolaringologia da Universidade Mackenzie, mestre e doutor em otorrinolaringologia pela Unifesp (Universidade Federal de São Paulo), afirma que a água oxigenada pode ser útil para limpeza de ouvido, pois ajuda a amolecer o cerume e as crostas, mas que devem ser retiradas imediatamente por médicos. Por isso, não use o químico por conta própria.

Em casos de perfuração da membrana timpânica (ou tímpano), o líquido pode entrar dentro da orelha e ser tóxico para a audição. Nisto, um médico especialista deve ser consultado para confirmar se há perfuração do tímpano ou não.

  • Dor de garganta
Homem com íngua, linfonodo, caroço, dor de garganta - iStock - iStock
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A dor de garganta, chamada também de faringite, é um processo inflamatório da mucosa da cavidade bucal, faringe e às vezes se estende para a laringe, e não é amenizada com água oxigenada. O que poderia acontecer durante um processo infeccioso, onde existem bactérias na garganta, seria uma antissepsia, que se trata de uma desinfecção da área afetada.

  • Sinusite

De acordo com José Glauco Norões Xenofonte, otorrinolaringologista e professor da UFCA (Universidade Federal do Cariri), a aplicação não é recomendável para a sinusite a fim de desinflamar as vias nasais.

Hipoteticamente, haveria uma limpeza de bactérias que estão vindo das cavidades paranasais, regiões em torno ou próximas do nariz, e assim melhoraria o quadro infeccioso.

  • Bronquite crônica

Não existem benefícios para esse caso em nenhum nível. Uma vez que a bronquite é uma inflamação nos brônquios pulmonares, portanto a única coisa que pode entrar nesta via aérea inferior é ar.

Teoricamente, a utilização no nariz, na cavidade bucal ou na garganta poderia "limpar" secreções para saírem com mais facilidade e assim liberar as vias aéreas inferiores.

  • Cortes abertos

O professor Machado alerta que estudos científicos mostram que a água oxigenada não é a melhor opção para assepsia de cortes abertos porque pode gerar mais problemas do que soluções, uma vez que as ulcerações provocadas podem dificultar a ação natural da pele na regeneração natural em alguns casos.

Além disso, a manipulação deste material deve ser preferencialmente com luva porque o contato com a pele causa reação com qualquer microcorte e pode acarretar irritação.

Fontes: José Fernando Polanski, professor de otorrinolaringologia da Universidade Mackenzie; Rogério Aparecido Machado, professor de química e meio ambiente da Universidade Presbiteriana Mackenzie, doutor em saúde pública pela USP (Universidade de São Paulo); Sérgio Fernando Torres de Freitas, professor e pesquisador do Departamento de Saúde Pública da UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina); Anber Ancel Tanaka, chefe do serviço de dermatologia do HUEM (Hospital Universitário Evangélico Mackenzie); José Glauco Norões Xenofonte, otorrinolaringologista e professor da UFCA (Universidade Federal do Cariri); Karla Gayoso, dermatologista do HULW (Hospital Universitário Lauro Wanderley) da UFPB (Universidade Federal da Paraíba), vinculado à rede Ebserh (Empresa Brasileira de Serviços Hospitalares).

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