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'Leva casaco': frio pode provocar gripe e resfriado? Médicos explicam

Pessoas caminham e se protegem do frio em avenida da zona sul de São Paulo - Bruno Rocha/Agência Enquadrar/Folhapress
Pessoas caminham e se protegem do frio em avenida da zona sul de São Paulo Imagem: Bruno Rocha/Agência Enquadrar/Folhapress

Ed Rodrigues

Colaboração para VivaBem

18/05/2022 12h09

Uma onda de frio atinge vários estados do Brasil nesta semana. A madrugada no Sul foi marcada por neve, sensação térmica negativa e incidentes causados pelos fortes ventos em meio a passagem do ciclone Yakecan, que alcançaram mais de 100 km/h, destelhando um hospital em Tramandaí (RS) e tombando um caminhão na Serra do Rio do Rastro (SC).

A cidade de São Paulo teve uma média de 8°C de temperatura ao longo da madrugada, mas o frio foi além, com sensação térmica negativa em algumas regiões, como o bairro de M'Boi Mirim, na zona sul, em que os 8ºC pareceram 1ºC, e a área do aeroporto de Congonhas, também na zona sul, onde a temperatura observada foi de 8ºC com sensação de -2ºC.

Esse tipo de friagem sempre provoca preocupação com a saúde e um questionamento que filhos e netos se fazem historicamente: afinal, quem pega frio desagasalhado, pode gripar, pegar resfriado ou ficar o nariz escorrendo?

A "pergunta de milhões" tem resposta simples: sim. O frio, segundo especialista ouvido pela reportagem de VivaBem, pode facilitar infecções virais. A explicação é do imunologista Fábio Castro, professor de imunologia clínica e alergia da USP (Universidade de São Paulo) e supervisor do Serviço de Imunologia Clínica e Alergia do Hospital das Clínicas de São Paulo.

As gripes são causadas pelo vírus influenza. A coriza pode ser sinal de um resfriado, que também é uma doença respiratória e, frequentemente, é confundida com a gripe. O quadro é causado, entretanto, por vírus diferentes. Os mais comuns, segundo o Ministério da Saúde, são os rinovírus, os vírus parainfluenza e o vírus sincicial respiratório. A diferença entre eles está, sobretudo, nos sintomas e na duração do quadro.

De acordo com o médico, o frio não age diretamente no sistema imunológico, mas pode funcionar como um gatilho importante. Além disso, aquele casaco guardado que só sai do armário eventualmente pode ter efeito contrário à proteção esperada, caso não tenha passado por uma higienização adequada.

"Esta época do ano, outono, é até pior do que o inverno. Vários fatores são importantes: as mudanças bruscas de temperatura; o confinamento e aglomeração das pessoas; o ar seco e frio; o aumento da poluição e é o momento que as pessoas tiram seus casacos e cobertores do armário, cheios de ácaros. Então, também é muito prejudicial para pessoas com rinite e asma", afirma.

Fábio Castro conta que existe uma luta constante entre o organismo humano, por meio do sistema imunológico, contra os agressores do ambiente externo: que são microrganismos (fungos, vírus e bactérias); alérgenos e poluentes ambientais (agentes químicos). Na maioria das vezes, ressalta o professor da USP, o organismo ganha essa batalha.

"Quando perde, vem a doença. O sistema imunológico é composto por células, proteínas, diferentes substâncias que interagem regulando, ativando e inibindo, enfim, controlando nossa defesa. A primeira defesa é a pele e mucosas (respiratória, digestiva, genitourinária). Qualquer quebra nessa barreira já propicia a entrada desses agentes agressores. Um exemplo: uma inflamação da mucosa brônquica em uma asma alérgica pode facilitar a infecção e uma infecção viral pode facilitar a piora da asma", destaca.

Para que o sistema imunológico funcione adequadamente, acrescenta, é fundamental uma boa nutrição, hidratação, atividade física moderada e descanso. Nesse caso, o especialista aponta que, mesmo se pegar um resfriado ou gripe, a pessoa terá uma evolução autolimitada de três a cinco dias porque o sistema imunológico organizou uma resposta mais elaborada de defesa.

"As infecções de repetição sugerem um defeito na resposta imunológica e têm obrigatoriamente de ser investigadas. São as chamadas imunodeficiências. Felizmente, não são tão comuns e podem aparecer na criança e no adulto."

Estou sempre gripado. E agora?

Os irmãos João Neto, 3, e Giovana, 1, estão longe de terem autonomia para enfrentarem o frio das ruas sozinhos, e ainda não chegaram na época de ouvir dos pais aquele velho conselho sazonal: "Crianças, levem os casacos porque o tempo vai esfriar".

No entanto, embora cuidados com toda a proteção, os filhos da educadora Priscila Cavalcanti, 39, estão quase que emendando ciclos gripais. Priscila conta que o problema ocorre desde que o pequeno João Neto começou a frequentar a escola.

"São sintomas que vão se repetindo. Na segunda semana de aula, ele já voltou corizando. Depois, tosse, catarro... E dias depois passou para Giovana, que ainda não frequenta o colégio. Tratamos. Os dois ficaram curados. Uns 15 dias depois, ele chegou novamente gripado, e a irmã pegou de novo. E as coisas vêm acontecendo repetidamente desde então", diz.

Esse contágio sequenciado, explica Fábio Castro, ocorre inevitavelmente quando os pequenos entram em contato com outras crianças no cotidiano escolar. Esse dia a dia aumenta a possibilidade de contato com o vírus e de desenvolverem as gripes e resfriados de repetição.

"O que de certa forma até constrói a defesa imunológica. Evidentemente, algumas poucas crianças podem ter uma baixa imunidade, então no caso de infecções de repetição é importante uma avaliação do especialista", alertou.

Já Filipe Prohaska, chefe da triagem de doenças infecciosas do HUOC (Hospital Oswaldo Cruz), unidade ligada à UPE (Universidade de Pernambuco), explica que quando a pessoa tem a primeira infecção viral, a imunidade baixa. E o que acontece em seguida?

"Facilita para a entrada de outras infecções. Abre a porta para outras infecções, outros vírus, outros fungos. O frio pode trazer mal assim como o calor, que traz muitas desidratações. O frio pode, sim, trazer uma maior quantidade de sintomas respiratórios. Mas não é somente o frio. Algumas situações fazem com que você fique doente. A troca repentina de temperatura, o choque térmico: você sai de um ambiente quente para um ambiente frio, por exemplo", diz.

Aglomeração e vírus

O infectologista lembra que nas épocas de frio as pessoas se acumulam em maior quantidade em locais fechados, que podem ter um calor agregado. Isso faz com que haja uma maior transmissão dos vírus.

"A covid-19 nos mostrou que a aglomeração aumenta a transmissibilidade das doenças respiratórias. É por isso que nessa época de frio temos os vírus mais circulantes, porque há aglomerações com maior frequência. O vírus tem muito a ver com o contato com as pessoas e a ausência de higienização das mãos. Quando você aquece um ambiente, ele acaba não tendo contato com o ambiente externo. E aí aquele ar fica acumulado. Se alguém ficar espirrando ou tossindo nesse ambiente, vai acumulando vírus ali dentro", ressaltou.

Segundo Marcus Villander, presidente da Sociedade Pernambucana de Clínica Médica, que trabalha diretamente com doenças autoimunes e imunodeficiências, é por causa desse agregado de aspectos que as vacinas da gripe são aplicadas em campanha feitas antes do inverno.

"Eu nasci no interior (de Pernambuco) e lá a gente chama o frio da noite de sereno. Tem um conhecimento popular de que frio pode causar gripe. É que existem alguns fatores relacionados ao frio que realmente podem aumentar o risco de infecções virais. Mais aglomerações, ambientes fechados, mas há outras causas. Por exemplo, no período frio e seco as mucosas produzem menos secreção, que é uma barreira protetora natural do sistema imunológico. Existem outros estudos que dizem que o frio pode estabilizar mais a membrana do vírus e tornar a exposição dele mais longa", explica.

Villander indica que as infecções virais são mais comuns no frio não necessariamente porque o vírus baixa o sistema imunológico, como faz o HIV por exemplo, mas porque causas indiretas, como mais aglomeração e ambientes mais secos, propiciam contaminação pelos vírus e facilitam a quebra da primeira barreira de defesa do organismo, que são as mucosas.

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