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Alzheimer aos 40: por que pessoas com síndrome de Down têm risco maior?

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Amanda Milléo

Colaboração para VivaBem

18/05/2022 04h00

A partir dos 30 anos, é comum perceber alguns sinais de envelhecimento do corpo. Mas enquanto a população geral encontra os primeiros fios de cabelo branco, as pessoas com síndrome de Down, na mesma faixa etária, precisam lidar com comorbidades mais sérias relacionadas ao envelhecer. Entre elas, o Alzheimer.

Estima-se que 5% a 15% dos indivíduos com a trissomia do cromossomo 21 apresentem, entre os 40 aos 49 anos de idade, sinais de declínio cognitivo associado à doença de Alzheimer. A prevalência aumenta para 30% ao chegar à quinta década de vida e, até os 65 anos, 68% a 80% das pessoas podem desenvolver a condição neurodegenerativa, de acordo com dados de um estudo publicado na revista científica Nature Review Neuroscience, e citado nas diretrizes mais recentes da Academia norte-americana de Pediatria.

Em comparação, na população geral, o Alzheimer atinge cerca de 11,5% dos brasileiros aos 65 anos ou mais, segundo dados do Ministério da Saúde.

Isso acontece porque a síndrome de Down está associada a um envelhecimento precoce do organismo, que é explicado pela própria condição. Ao invés de apresentar apenas dois cromossomos no par 21 nas células, as pessoas com a síndrome têm três (daí o nome da trissomia 21, ou T21). Nesses cromossomos estão presentes alguns genes importantes para os processos metabólicos, entre eles o gene da proteína precursora do amiloide Beta A4 (APP).

Como as pessoas com a síndrome têm uma quantidade maior deste gene, a tendência é que o organismo produza mais a proteína beta-amiloide. O seu acúmulo leva à formação de placas no cérebro e prejudica a ação dos neurônios. Uma das teorias sobre as possíveis causas do Alzheimer é justamente o acúmulo desta proteína.

De acordo com Norberto Anizio Ferreira Frota, coordenador do ambulatório de Neurologia Cognitiva e do Comportamento do Hospital Geral de Fortaleza e professor de medicina da Unifor (Universidade de Fortaleza), embora o risco de desenvolvimento da doença neurodegenerativa seja maior, não significa uma certeza absoluta.

"Há pessoas com mutações em outros genes ligados ao Alzheimer, que ficam em outros cromossomos, que também têm um risco aumentado, mas não quer dizer que obrigatoriamente vão desenvolver. Algumas coortes [tipo de estudo] de pacientes mostraram que as pessoas poderiam ter uma segunda mutação que as protegeria. É um risco maior, mas não é 100%", explica o especialista, que também é membro da Associação Brasileira de Neurologia.

Além disso, a questão genética não é o único fator que favorece o envelhecimento precoce da população com a síndrome de Down, segundo Carla Franchi Pinto, doutora em genética médica e fundadora da associação ELO21.

"Os mecanismos do envelhecer são vários. Existem genes do cromossomo 21 que fazem com que as pessoas sejam menos resistentes aos agentes agressores oxidantes do meio ambiente. O Down também favorece déficits imunológicos. Tudo isso, e mais a maior expressão do gene que produz a proteína precursora amiloide, forma uma trama interligada que favorece o envelhecimento precoce. E, ao acompanhar a pessoa, vemos os sinais desse envelhecimento aos 30 anos", afirma a especialista, que também é professora de genética da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo.

Prevenção do Alzheimer precoce é possível?

Conceito de demência, Alzheimer, esquecimento, cérebro - iStock - iStock
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Apesar de os especialistas já conhecerem a predisposição ao Alzheimer, ainda não é tão comum que os estudos clínicos que avaliam tratamentos à doença incluam pessoas com a síndrome de Down.

Um exemplo recente é o do medicamento aducanumab (cujo nome comercial é Aduhelm), desenvolvido pela farmacêutica Biogen, e aprovado em 2021 pela agência regulatória dos Estados Unidos (FDA, na sigla em inglês).

Mesmo sendo o primeiro tratamento aprovado para a doença em quase 20 anos, os estudos não incluíram indivíduos com trissomia 21, e a indicação de uso é restrita a pessoas com um diagnóstico inicial e com o acúmulo da proteína amiloide. A medicação ainda não foi liberada no Brasil.

Atualmente, as pessoas com Down e Alzheimer usam medicamentos que tentam atuar nos sintomas, mas nem sempre com melhoras significativas e, em geral, temporárias. "Os remédios de hoje melhoram alguns aspectos de atenção, memória e comportamento por um período. No longo prazo, a doença progride", explica o neurologista Norberto Frota.

Mesmo sem ter, ainda, remédios aprovados que impeçam a evolução da doença ao longo dos anos, o controle de alguns fatores de risco pode, sim, contribuir, segundo Ana Thereza Schneider, médica geriatra pela SBGG (Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia).

A especialista cita um estudo publicado no periódico científico Journal of Clinical Medicine, em 2021, que analisou dados de saúde e hábitos de vida de 214 pessoas com a síndrome de Down, acompanhadas durante dois anos.

Nos resultados, os pesquisadores perceberam que os indivíduos que praticavam exercícios físicos de intensidade moderada apresentavam uma redução de 47% no risco de declínio das atividades diárias. Se os exercícios tivessem uma intensidade mais alta, o risco era 62% menor.

"[Atuando] com esses fatores de risco, conseguimos diminuir efetivamente o desenvolvimento do declínio cognitivo, e isso é um resultado muito significativo. Até o momento, precisamos investir em hábitos de vida, dieta adequada e exercícios", explica Schneider. A especialista destaca ainda a importância de manter uma reserva cognitiva, que inclui acesso à educação desde cedo e ao mercado de trabalho.

Cuidados com a audição, visão e coração

Homem com síndrome de Down trabalhando em mercado - iStock - iStock
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Além do Alzheimer, outras comorbidades surgem precocemente nas pessoas com a síndrome de Down, e demandam atenção. Problemas visuais, como o desenvolvimento da catarata de forma precoce, deficiência auditiva, osteoporose e mesmo a dislipidemia (aumento dos níveis do colesterol), que eleva o risco de doenças cardiovasculares, são algumas das condições listadas por Anderson Nitsche, neuropediatra e preceptor da residência médica do Hospital Pequeno Príncipe (PR).

"É preciso fazer exames de rotina com mais frequência do que a média. Enquanto uma criança sem a síndrome segue em contato frequente com o pediatra até os sete ou oito anos, diminuindo a frequência a partir disso e, na adolescência, praticamente não vai ao consultório, na criança com Down isso não pode acontecer. Precisamos avaliar, no mínimo, uma vez por ano", explica o especialista.

De acordo com dados das diretrizes da Academia norte-americana de Pediatria, cerca de 75% das pessoas com síndrome de Down apresentam problemas auditivos e 60% a 80% desenvolvem doenças visuais, como glaucoma, estrabismo e catarata. Pelo menos metade (50% a até 79%) também tem a apneia obstrutiva do sono que, segundo destaca a geriatra Ana Thereza Schneider, pode estar associada ao desenvolvimento precoce do Alzheimer nessa população.

"A limpeza da proteína beta-amiloide [associada ao desenvolvimento da doença neurodegenerativa] é feita durante o sono, à noite. Então, investigar a apneia [distúrbio do sono que afeta a respiração] é muito importante para essa população, porque pode gerar hipoxemia [baixo nível de oxigênio no sangue] e inflamação, quando não é tratada", explica a geriatra.

Papel da família

Criança, sindrome de down, escola - Getty Images - Getty Images
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Da perspectiva dos pais e familiares, é fundamental que entendam que o envelhecimento precoce é um fato, de acordo com Etiene Rossi de Aguiar da Rosa, enfermeira graduada, mestre e doutora em gerontologia e pesquisadora do envelhecimento das pessoas com síndrome de Down e suas potencialidades.

"Na síndrome de Down, uma pessoa com uma idade cronológica de 25 a 30 anos se assemelha a alguém de 60 a 65 anos sem a síndrome. Ter esse conhecimento é primordial e, a partir daí, fazer uma boa triagem, identificar como a pessoa está, se há quedas de funcionalidade ou sinais das comorbidades", reforça.

Ter essa percepção é algo novo, segundo Rosa, porque o próprio envelhecimento da população com Down é recente. Até a década de 1930, as pessoas com a condição genética viviam, em média, 10 anos.

"Principalmente porque cerca de 50% das crianças nascem com uma cardiopatia congênita que, na época, não era tratada. A partir do momento que começam a operar o coração, melhoram a qualidade de vida. Hoje, a média de idade passa dos 60 anos", explica Franchi Pinto, doutora em genética médica.

"Eu gostaria que todos os profissionais de saúde soubessem [do envelhecimento precoce no Down], mas é algo muito novo. Quando eu estudei a questão no mestrado, alguns colegas nem sabiam que as pessoas com Down envelheciam", destaca Rosa.

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