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Equilíbrio

Cuidar da mente para uma vida mais harmônica


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Por que há quem não seja carinhoso? Adotar pet, fazer caridade ajuda?

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Imagem: iStock

Marcelo Testoni

Colaboração para o VivaBem

04/05/2022 04h00

Você já conheceu alguém que não gosta de abraçar, fazer cafuné, dizer o quanto gosta de quem convive com ele? Pessoas assim, chamadas de frias, têm seus motivos para não serem afetuosas. Experiências na infância, como sempre, podem estar por trás do comportamento. Crianças que não receberam atenção e carinho suficientes dos cuidadores, ou que não aprenderam a desenvolver e reproduzir afeto geralmente se tornam pessoas mais secas. Mas há outras causas.

Nem sempre dar presentes, levar aos melhores lugares, atender a todos os desejos contribui para que o outro se sinta amado e retribua com afeto. "Muitas vezes, os pais agem assim por trabalharem muito, mas não substitui um elogio, incentivo, tempo juntos. Sem tudo isso, há chance de se tornar alguém frio na vida adulta. Da mesma forma, quando se é muito mimado, não recebe limites, constrói um senso de grandiosidade muito grande", diz Eduardo Perin, psiquiatra pela Unifesp (Universidade Federal de São Paulo).

Às vezes, pode ocorrer ainda de a pessoa sentir afeto, ser até carinhosa, mas não demonstrar na intensidade e da maneira exata que o outro deseja, por ser menos extrovertida, ou quem sabe simplesmente ter um ponto de vista diferente. Quando se trata de uma preferência individual ser do jeito que se é (no caso, menos afetuoso, autossuficiente), é mais difícil a pessoa querer mudar, porque ela se sente confortável e deseja continuar sendo igual.

Há ainda transtornos que explicam esse tipo de frieza, como os de personalidade antissocial, psicopatia, narcisista. E se não for tudo isso, pessoas podem se "esfriar" ou demonstrar que são assim por insegurança, baixa autoestima, histórico de muitas decepções e traumas envolvendo relações interpessoais, ou excesso de racionalidade, aponta Perin.

Envolver-se com algo ou alguém ajuda?

Muito se ouve —e muita gente acredita— que quando alguém casa, vira pai ou mãe, adota um animalzinho ou começar a ajudar uma causa social (orfanato, hospital, lar de idosos), muda seu jeito de ser. Traduzindo: torna-se um sujeito mais empático, amável, atencioso, podendo ainda mudar em outros aspectos, como deixar de ser menos egoísta, orgulhoso, pessimista, fechado para o mundo ao seu redor. Mas será verdade que é possível se "metamorfosear" assim?

Estímulos externos podem contribuir para um sujeito que não é carinhoso desenvolver esse lado, uma habilidade nova. Mas, para que isso aconteça, é preciso encontrar algo que se goste de verdade, pois, do contrário, não funciona. Se a pessoa não se interessa por cachorro, por exemplo, não conseguirá demonstrar afeto por ele.

"Claro que são atitudes que contribuem para gerar empatia, desenvolver o olhar para o outro e, quando se reconhece isso, começa a ceder um pouco, ver outras qualidades em si e se expressar melhor. Mas, não necessariamente, torna-se alguém mais carinhoso", informa Gabriela Luxo, psicóloga, mestre e doutora em distúrbios do desenvolvimento pela Universidade Presbiteriana Mackenzie, citando que muitos têm filhos, mas não são bons pais.

Outra profissional dessa área, Leide Batista, psicóloga pela Faculdade Castro Alves, em Salvador (BA), acrescenta que o indivíduo, sendo menos carinhoso, para melhorar, precisa reconhecer que há algo de errado com ele, que o incomode e prejudique suas relações: "Isso é mais fácil de se perceber estando em um relacionamento com uma pessoa mais carinhosa e com dificuldade para demonstrar a ela o que sente, gerando sofrimento e medo de perdê-la".

Carinho é subjetivo e atemporal

Para alguém um pouco ou nada afetuoso, perceber a relevância do afeto e de demonstrá-lo, como explicado, é positivo. Porém, quem está do outro lado também precisa reconhecer que nem todo amor é manifestado com flores, beijos e abraços. Uma mãe pode ser contida, mas exteriorizar o que sente pelo filho quando prepara para ele um prato que tanto aprecia. Um tutor de animal pode não dormir com ele na cama, mas mantê-lo sempre muito bem cuidado.

É necessário compreender que há quem demonstre carinho por ações consideradas concretas. "Como acompanhar a pessoa amada numa consulta médica, ou seja, tem gente que busca por ação. Sem esquecer que alguns ainda têm dificuldade para entrar em contato com os outros através do toque. Pode ser apenas uma opção, do tipo 'prefiro ser assim'", explica Carolina Mirabeli, psicóloga pela PUC-SP (Pontifícia Universidade Católica de São Paulo).

Ela e os demais concordam que o segredo é buscar equilíbrio nas relações e, com dificuldades, sem saber por onde começar, procurar ajuda profissional e psicoterapia para se conhecer. Todos podem aprender, a todo momento, em qualquer faixa etária, estratégias para se tornar alguém melhor, basta querer e se esforçar. "Mesmo aos 80 anos. Mas quanto antes, maiores as possibilidades, para o comportamento não enraizar e dificultar o processo", diz Perin.

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