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Quais abusos psicológicos a mulher pode sofrer e como se proteger

Getty Images/iStockphoto
Imagem: Getty Images/iStockphoto

Patricia Bellas

Colaboração para o VivaBem

27/04/2022 04h00

Se um homem a interrompe, apropria-se das suas ideias, explica o óbvio didaticamente e a chama de louca, você é vítima de violência psicológica. Violência não é só o empurrão, o tapa ou o puxão de cabelo, é também uma série de condutas silenciosas que causam danos emocionais, desconstrução de identidade e comprometimento no desenvolvimento pessoal.

Segundo a Lei Maria da Penha n° 11.340/2006, os principais tipos de violência contra a mulher são: psicológica, moral, patrimonial, física e sexual, sendo a psicológica a de maior incidência, definida como: "qualquer conduta que lhe cause dano emocional e diminuição da autoestima ou que lhe prejudique e perturbe o pleno desenvolvimento ou que vise degradar ou controlar suas ações, comportamentos, crenças e decisões, mediante ameaça, constrangimento, humilhação, manipulação, isolamento, vigilância constante, perseguição contumaz, insulto, chantagem, violação de sua intimidade, ridicularização, exploração e limitação do direito de ir e vir ou qualquer outro meio que lhe cause prejuízo à saúde psicológica e à autodeterminação".

A violência psicológica é sutil e sofisticada, sendo a porta de entrada para outras violências, porque o abusador utiliza técnicas para manter uma relação de poder, descredibilizando a mulher e ganhando a confiança das pessoas ao redor.

"Eu só me dei conta de que fui vítima, quando o meu olho ficou roxo. Eu sabia que estava sofrendo alguma coisa, porque a velocidade com que ele dizia que eu era linda e depois feia, incrível e depois insuportável, me confundia e eu não sabia dar nome", diz Andressa Meireles, jornalista e fundadora do projeto "O que não nos disseram", que engrandece mulheres vítimas de violência, expondo fotos que representam a sua liberdade.

Segundo ela, ao mesmo tempo em que parece ter boas intenções, o abusador planta inseguranças, para que ela se sinta rejeitada e inadequada. "É sempre em tom calmo, com o discurso de que só está tentando ajudar e apoiar, mas destrói a sua identidade a ponto de você não conseguir sair da relação, mesmo sabendo que é o que deveria fazer", diz.

Embora o comportamento familiar possa ser um indício, não existe um perfil específico de abusador. A única forma da mulher se proteger é ficar atenta aos sinais para que possa criar estratégias de afastamento o quanto antes. A seguir, conheça os principais abusos psicológicos.

Gaslighting

É a violência emocional com manipulação psicológica, na qual o parceiro mente com frequência, distorce a realidade, nega informações, ainda que provas sejam apresentadas, faz chantagem emocional para conseguir o que quer, culpa a mulher pelas próprias atitudes, a proíbe de trabalhar, viajar, ver amigos e familiares e a desvaloriza para outras pessoas, geralmente dizendo que ela é instável, pouco confiável e tem um gênio difícil. Dessa forma, faz com que desconfiem do que ela diz até que se torne uma pessoa recusada, isolada e sem rede de apoio, enquanto as atitudes são romantizadas pela sociedade como "cuidado".

Como consequência, a mulher se torna dependente, possui baixa autoestima, tem crise de ansiedade, medo de errar, dificuldade de tomar decisões, duvida das próprias capacidades e percepções, acredita que é emotiva demais, pede desculpas constantemente, sente infelicidade e que tem algo de errado no relacionamento, mas justifica as ações do parceiro se vendo confusa com os sentimentos, porque ele usa palavras amáveis para confundi-la.

Quando ela identifica o abuso, o parceiro aproveita para estigmatizá-la como insegura, histérica e agressiva, para se colocar em posição de vítima ou usar como motivo para cometer agressões e feminicídio. Por isso, especialistas não aconselham um rompimento sem apoio psicológico de um profissional.

Mansplaining

É quando o homem explica didaticamente coisas óbvias, como se a mulher não fosse inteligente o suficiente para entender sozinha. Ele faz elogios desnecessários ao corpo ou quando ela faz uma tarefa que ele considera simples, como se fosse uma grande conquista, e apresenta explicações sobre algo que ela conhece melhor do que ele, com a intenção desmerecer o conhecimento, tratá-la como inferior, minar a confiança, autoridade e respeito. Quebrar o ciclo dizendo "Você está me explicando isso mesmo?" é a melhor forma de uma mulher demonstrar que percebeu e não será permissiva.

Bropriating

É quando um homem se apropria da ideia ou conhecimento de uma mulher para receber os créditos no trabalho ou com os amigos. Para se proteger, é preciso fugir de questionamentos que são feitos de forma educada e envolvente, para que se sinta à vontade em transmitir a informação nos mínimos detalhes, sem imaginar que isso será repassado sem que o seu nome seja citado.

Manterrupting

É quando o homem quebra o raciocínio da mulher, interrompendo o que ela está falando para que ele possa falar em um contexto que ela pareça confusa e errada, enquanto ele aparenta ser coerente e assertivo. Para contornar a situação, é necessário insistir para terminar as frases sem deixar que ele domine o assunto.

*Helen conta que quando estagiava na Justiça Federal, um colega de trabalho sempre interrompia suas falas e controlava sua rotina, mas, como era muito bem visto no local, conseguiu atribuir uma tarefa para que ela precisasse ficar ao seu lado. Foi quando começou a encostar em sua perna e a perguntar sobre relacionamentos amorosos.

"Foi uma época muito tensa para mim, porque em um determinado momento as pessoas perceberam, por me verem saindo do banheiro chorando. A psicóloga me chamou, ele negou e a juíza passou a ter raiva de mim. Eu não queria acreditar que aquilo estava acontecendo. Entrei em depressão e pedi demissão. Como ele negava, dizendo que ninguém havia o acusado, parecia que eu estava inventando. Ainda tenho medo de conviver com qualquer homem", conta.

No relacionamento, trabalho, ambiente familiar ou na convivência social, violência psicológica é crime, previsto no código penal (Artigo 147-B) com reclusão ou multa, a depender da gravidade. A denúncia pode ser feita por telefone discando 180 ou presencialmente na CMB (Casa da Mulher Brasileira), que possui acolhimento multiprofissional, com ala psicossocial e delegacia com atendimento 24 horas.

A violência ocorre em todas as classes sociais. Entretanto, quanto maior a vulnerabilidade social, maior será o risco à violência. Mulheres negras, pobres e LGBTQIA + estão mais expostas, porque já vivem em um contexto de preconceito e violência na sociedade. É raro que o abusador mude a sua conduta, geralmente ocorre por obrigação judicial ou quando se sentem ameaçados de serem denunciados. Por isso é importante saber os sinais e buscar ajuda.

Fontes: Daciane Barreto, coordenadora da CMB (Casa da Mulher Brasileira) do Ceará; Rafaela Castello Branco, psicóloga e gestora do Centro de Referência da Mulher Francisca Clotilde; Elayne Esmeraldo, psicóloga especialista em violência contra a mulher na Cruz Vermelha Portuguesa, em Portugal; Nataly Sampaio, psicóloga especialista em violência de gênero que atuava na CMB (Casa da Mulher Brasileira) de São Paulo.

*O nome da entrevistada foi preservado para a sua segurança.

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