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'Câncer no cérebro me fez ser profissional melhor', diz médico do Palmeiras

Bárbara Therrie

Colaboração para VivaBem

24/04/2022 04h00

A pandemia estava chegando ao Brasil, em março de 2020, quando Gustavo Magliocca, médico do exercício e do esporte, sócio-fundador da Care Club e chefe do departamento médico da Sociedade Esportiva Palmeiras, foi diagnosticado aos 39 anos com câncer no cérebro. Com medo, mas também com muita vontade de viver, Gustavo, carinhosamente conhecido como Doc, hoje com 41 anos, conta como foi trocar o papel de médico pelo de paciente e como tem convivido com o tumor.

"Era um sábado de março, estava me preparando para levar minha filha na piscina do prédio quando senti uma alteração no lado direito do meu corpo, não senti dor, mas não conseguia movimentar muito bem os braços e as pernas. Observei os sintomas naquele dia, como eles persistiram, decidi ir ao pronto-socorro no domingo acompanhado de um amigo médico.

Dadas as minhas alterações, imaginei que poderia ser desde um mal-estar até um quadro de estresse, mas o médico que me atendeu suspeitou que fosse algo cerebral e pediu uma ressonância da cabeça. No mesmo dia veio o diagnóstico: câncer no cérebro —o tumor já tinha um tamanho considerável e estava numa posição delicada.

Ao receber diagnóstico, decidi que iria lutar

Trocar de lugar, sair do papel de médico para virar paciente foi ruim, péssimo. Senti medo, fiquei tenso e preocupado, mas pensei que, independentemente da gravidade do meu caso, iria lutar com todas as forças pela minha vida, pelos meus filhos e pela minha esposa —só pensava na minha família.

Gustavo Magliocca, médico do Palmeiras, teve câncer no cérebro - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Imagem: Arquivo pessoal

Assim que recebi o diagnóstico, compartilhei a notícia com dois amigos que trabalhavam no hospital onde fui atendido. Eles prontamente mobilizaram as equipes de neurologia cirúrgica e oncologia clínica à minha disposição. Dois dias depois fiz a cirurgia.

O tumor que tenho no cérebro é maligno e agressivo. Os médicos explicaram que a área onde ele está localizado contém muito tecido nobre e pela posição que está não pôde ser completamente ressecado. Por esse motivo, eles ressecaram o máximo possível.

Um exemplo que ilustra bem o meu caso é como se o tumor fosse uma árvore, as folhas e galhos podem ser podados, mas a árvore inteira não pode ser cortada nem arrancada.

Duas semanas após a cirurgia, iniciei o tratamento oncológico, uma combinação entre radioterapia e quimioterapia oral. Mesmo sendo médico, não intervi nas decisões da minha equipe e me mantive na posição de paciente.

Eles cuidavam da parte da doença, enquanto me envolvia e dava sugestões apenas nas coisas relacionadas à minha área de atuação, que é buscar formas de melhorar a qualidade de vida por meio da atividade física, alimentação, hidratação, sono e saúde mental.

Fiquei com sequelas na parte motora, visão e audição

Gustavo Magliocca, médico do Palmeiras, teve câncer no cérebro - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Imagem: Arquivo pessoal

Ao longo do processo, fiquei com algumas sequelas da doença. Na parte motora, meu lado direito funciona mais devagar. Ao subir ou descer uma escada, meu pé se posiciona de forma diferente e tenho dificuldade para ultrapassar um obstáculo no chão, por exemplo.

As outras sequelas foram na visão e audição. Enxergo mais de perto, menos de longe, e passei a usar óculos. Perdi em torno de 60% da audição do ouvido direito.

Meu raciocínio e memória também foram afetados. Se alguém me perguntar como foi a conversa com a repórter que me entrevistou para essa matéria, vou lembrar que falamos sobre meu diagnóstico, mas não vou lembrar dos detalhes que contei.

Também percebi que perdi um pouco a concentração. Hoje demoro mais para ler um livro, às vezes preciso reler alguma parte. Ao assistir um filme legendado, perco muitas legendas.

Incluí o uso do canabidiol no tratamento

Gustavo Magliocca, médico do Palmeiras, teve câncer no cérebro - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Imagem: Arquivo pessoal

Fizemos um estudo genético para entender a origem do meu tumor, ao que tudo indica, sou o primeiro da família a ter, meus dois filhos não herdaram a mutação. Após o tratamento oncológico que durou 1 ano e 2 meses, segui com o acompanhamento clínico e há seis meses comecei a usar por iniciativa própria, mas com autorização do meu oncologista, o canabidiol (CBD) como forma de tratamento adjuvante. O canabidiol é uma das substâncias encontradas na Cannabis, planta popularmente conhecida como maconha.

Não há na literatura muitas informações sobre os efeitos do canabidiol em pacientes com tumores cerebrais, mas há relatos de benefícios dessa substância em outras doenças, como o Alzheimer, que afeta a memória.

Fiz algumas associações com o meu quadro e sintomas, e pensei, por que não tentar e ver no que vai dar? Tenho gostado do resultado e sentido melhora na parte motora e de memória.

Recentemente, fui para os Emirados Árabes com o Palmeiras e decidi não levar o canabidiol com receio de que a entrada da medicação fosse barrada. Fiquei três semanas sem tomar e percebi uma piora.

Exercício físico me dá disposição para trabalhar e viver melhor

Um outro aliado desse processo foi o esporte. Já praticava antes, mas bem menos do que gostaria por conta da correria do dia a dia. Após o diagnóstico, me exercitar virou prioridade. Faço natação, musculação e bike indoor quase que diariamente.

O exercício físico foi fundamental no meu tratamento e na minha vida, me ajudou a manter o peso e estimulou a parte motora. Ele é essencial para mim, é quem aumenta a minha disposição e energia para trabalhar, para viver melhor, para me trazer bem-estar, alegria e mais saúde.

Antes de passar por tudo que passei, me achava invencível, já tinha o script da minha história: ia me aposentar, viver até os 80 anos e por aí vai, mas o câncer me mostrou a fragilidade da vida e do ser humano e que não sabemos o dia de amanhã.

Câncer me fez ser um médico melhor

Gustavo Magliocca, médico do Palmeiras, teve câncer no cérebro - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Imagem: Arquivo pessoal

O câncer me trouxe maturidade, mudou minha forma de pensar e me transformou num médico melhor. Passei a valorizar mais as coisas, a ser otimista, a ter mais esperança, a ser menos acelerado, a ouvir melhor meus pacientes, a ter mais empatia e uma vontade maior de ajudá-los e acolhê-los.

Atualmente estou bem, mas como meu tumor é irressecável, preciso conviver com ele. Meu tratamento vai muito na linha de como estou me sentindo clinicamente.

Caso piore, pode ser necessário uma nova cirurgia e uma nova etapa de quimioterapia, mas não perco meu tempo projetando um futuro ruim. Tenho esperança de ver um horizonte além do que a literatura tem mostrado até agora.

Antes eu era uma pessoa de pouca fé, confiava muito mais em mim, hoje entendo que tenho que andar lado a lado com Deus."

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