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Vencedores x perdedores: nem sempre é bom supervalorizar o que é seu

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Imagem: iStock

Diego Garcia

Colaboração para o VivaBem

03/03/2022 04h00

Você já ouviu falar no mero efeito de propriedade? O conceito é pouco conhecido, mas está presente no nosso dia a dia em várias situações. Tal ideia, como denomina a psicologia, indica que se você possui uma coisa, naturalmente ela se torna mais valiosa, mais atraente ou de melhor qualidade para você. Qualquer que seja o rótulo, o efeito é simples e consistente.

O problema é que esse efeito distorce a tomada de decisão em grupo, porque leva as pessoas a supervalorizarem os argumentos próprios, subvalorizarem as informações apresentadas por outros, e a serem prejudicadas com os contra-argumentos esperados.

Para Marcelo Fonseca Gomes de Souza, psicólogo, doutor e mestre em psicologia e professor adjunto de psicologia do Centro de Ciências da Saúde da UFRB (Universidade Federal do Recôncavo da Bahia), a hipervalorização do indivíduo e da narrativa do sucesso como produto do próprio mérito divide o mundo na fórmula empobrecida: vencedores versus perdedores.

"Desse modo, a desconfiança contínua e a desvalorização do outro e de suas conquistas e posses é parte da rotina de nossas relações", diz. Segundo ele, seguindo essa lógica, ou possuímos o que é socialmente valorizado —o que é cada dia mais raro em um planeta em que a concentração de renda é cada vez maior— ou depreciamos o que o outro tem —que é uma forma desesperada de diminuir o reconhecimento da própria infelicidade.

Segundo Yuri Busin, psicólogo, mestre e doutor em neurociência do comportamento pela Universidade Presbiteriana Mackenzie, o valor emocional aplicado aos nossos objetos impacta na forma como avaliamos o que vem do outro. "Acabamos menosprezando os objetos, inclusive idênticos, que o outro possui justamente por não haver esse valor sentimental conectado."

Vai além de bens materiais

A questão não tem a ver apenas com o valor das coisas. Um estudo publicado neste ano no periódico Social Psychology concluiu que o mero efeito de propriedade não acontece apenas em relação ao aumento do valor conferido aos objetos possuídos por alguém, mas também em relação a objetos imateriais.

Os pesquisadores propuseram a um grupo de 300 participantes que resolvessem, em trios, um mistério de assassinato em um jogo de detetive. A tarefa era avaliar a utilidade das pistas que eles ou seus parceiros possuíam. Havia três suspeitos principais no jogo, mas somente com a estreita colaboração entre os participantes foi possível descobrir que um quarto personagem da história era o verdadeiro assassino.

Os resultados mostraram que as pessoas tendiam a classificar suas próprias pistas como mais úteis para resolver o mistério em comparação com pistas que não possuíam. Esse é um exemplo típico de mero efeito de propriedade. Entretanto, de acordo com Michael Bialek, professor de psicologia da Universidade de Wroclaw, na Polônia, e um dos autores do estudo, o trabalho deu um passo além ao mostrar que a mesma avaliação distorcida se aplica a coisas que criamos ou ideias que temos, e não somente a objetos materiais: elas são percebidas como melhores do que se a mesma coisa ou ideia tivesse sido criada por outra pessoa.

"Esse mero efeito de propriedade leva não apenas a uma valorização inflacionada das coisas possuídas, mas também a uma desvalorização de objetos ou ideias pertencentes a outros, e ao preconceito contra contra-argumentos", afirmou o autor em um artigo no site da revista Psychology Today. Para ele, é mais difícil ser racional quando você "possui" um conceito, opinião ou afiliação política.

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Alguns dos efeitos negativos da supervalorização de objetos materiais ou imateriais é a desvalorização do objeto do outro e a distorção da realidade
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Ser e ter

Outro estudo, publicado na revista Trends in Cognitive Sciences em 2018, reforça que a propriedade é um domínio distinto de raciocínio e propõe que os entendimentos das pessoas sobre ela constituem uma teoria ingênua.

Tiago Ravanello, psicólogo, psicanalista e professor da UFMS (Universidade Federal do Mato Grosso do Sul), explica que, sob o ponto de vista psicanalítico, é possível afirmar que o sentimento de posse é um tipo de afeto narcísico, ou seja, um investimento que se faz em um objeto externo, mas que visa torná-lo uma parte do eu.

"Ser e ter são verbos fundamentais na gramática da construção do sentimento de ser si mesmo e eles possuem uma conjugação bastante complicada: quanto mais se afirmam, mais eles se perdem", diz. Ele complementa que o carinho, a valorização e o apego com os objetos têm a ver com o apoio que eles nos dão em afirmar o nosso sentimento de ser "eu mesmo", assim como servem para demarcar a relação com a nossa história. "Isso é meu" poderia ser lido, então, como "isso é m'EU", ou 'isso também é meu eu", segundo o psicólogo.

De acordo com Souza, o narcisismo é uma fase inerente ao nosso processo de individuação e à valorização de nossa própria imagem. Esse processo passa primeiro pelo investimento em nossa imagem corporal, estende-se progressivamente para o conjunto das coisas que possuímos, e que de certa forma nos singularizam e afirmam nossa potência diante do outro: nossas ideias, pensamentos, valores e crenças, assim como os objetos do mundo dos quais nos apropriamos.

"Esses objetos passam a possuir tanto ou mais valor pelo simples fato de estarem sob nossa posse, como se projetássemos sobre eles os valores que estimamos em nós mesmos", complementa o professor da UFRB.

Para Busin, a necessidade de reafirmação também pode estar por trás da supervalorização do próprio objeto: a pessoa desvaloriza o que é do outro para se sentir menos insegura e em uma posição superior a do outro. "A insegurança deste indivíduo é tão grande que para se reafirmar e se sentir melhor, ele desvaloriza o que é do outro, mesmo que os objetos sejam idênticos", explica.

Efeitos para a saúde mental

Luciene Figueiredo, psicóloga, doutora e mestre em família na sociedade contemporânea pela Universidade Católica do Salvador (BA), alerta que o mero efeito de propriedade pode causar danos à saúde mental das pessoas, tanto para quem superestima seus objetos como para quem tem seus objetos (materiais ou imateriais) subestimados.

Ela explica que comparações entre os objetos podem acarretar no desenvolvimento de pensamentos ansiosos, depressivos e alterações de humor. "Principalmente pela alta exposição nas redes sociais, pois parece que todos os outros têm vidas incríveis, divertidas e muito boas e só nós que somos chatos, que estamos passando por problemas, que não temos coisas boas (o suficiente)", complementa.

Outra possível implicação, como explica Bialek em seu artigo, passa pelo superdimensionamento de nossas ideias e, consequentemente, um certo caráter de alienação. Ele cita como exemplo um cientista que tem uma ideia e compartilha com outros colegas. Essa ideia se espalha e outras pessoas começam a utilizá-la e se sentem donos dela.

Ao surgir uma nova ideia, melhor do que a anterior, mas que precisa de aprovação da comunidade acadêmica, esses pares que se "apropriaram" da ideia anterior podem suprimir a nova ideia ou definir um nível de requisitos muito mais alto para essa nova perspectiva do que teriam para sua própria ideia. Isso mostra como o mero efeito de propriedade pode retardar ou mesmo impedir o progresso não apenas na ciência, mas também na economia, na política ou na cultura.

Atenção e autoconhecimento ajudam

Não é fácil mudar esse pensamento de que "o que é meu é melhor", segundo as fontes. A forma de vida globalizada em que vivemos contribuiu para o individualismo e o modelo concorrencial, de uns contra os outros, alimenta a supervalorização dos objetos pessoais e a desvalorização do objeto alheio.

O desafio é manter o equilíbrio entre o se doar demais aos objetos, o que pode fazer com que esqueçamos de elementos básicos do autocuidado, e se desprender totalmente dos objetos, o que pode nos levar a um tipo de dificuldade no trato com a realidade comum, ou não conseguir avaliar necessariamente bem as necessidades das pessoas que nos cercam.

Porém, é possível desenvolver uma conduta consciente sobre os objetos que possuímos. Podemos dizer que, da forma como o mundo atual se configura, isso só é possível através de métodos e que exigem um trabalho individual de autoconhecimento, como a psicoterapia e psicanálise, ou adesão a formas de vida coletivistas.

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