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Ela ganhou 12 kg por inchaço de linfedema e fez transplante inovador

Bárbara Therrie

Colaboração para VivaBem

23/01/2022 04h00

Em seis meses, Eliane Eudes de Oliveira, corretora de imóveis, 52, viu seu peso saltar de 57 kg para 69 kg. Os 12 quilos a mais, no entanto, não foram causados porque ela "engordou", mas devido a um inchaço provocado por uma condição chamada linfedema. Moradora de Belo Horizonte, Eliane passou por um procedimento inovador, o transplante de linfonodo, para tratar o problema de saúde.

"Em dezembro de 2019, sofri uma queda na rua, torci o pé esquerdo e caí com o joelho direito, mas não fui ao médico. Um mês depois, estava voltando a pé do centro da cidade para casa e comecei a mancar e a sentir uma dor muito forte no pé direito.

No dia seguinte, a dor se tornou insuportável, não conseguia pisar no chão. Ao fazer alguns exames no hospital, foi constatado que tinha rompido o ligamento do joelho direito e trincado um osso. O ortopedista recomendou fazer 20 sessões de fisioterapia, usar tala e muleta. No meio do tratamento, o médico fez um novo exame clínico e disse que meu joelho estava bom.

A partir desse episódio, comecei a sentir muitas dores nos membros inferiores e notei que os meus dois pés e tornozelos começaram a inchar bastante. Gradativamente, esse inchaço foi aparecendo em outras partes do corpo: nas pernas, nos joelhos, na barriga e nos braços. Minhas coxas e bumbum ficaram enormes.

Os transtornos causados por esse inchaço foram além da aparência com a qual ele me deixava, ele afetou sutilmente algumas coisas do meu dia a dia.

Eliane Eudes de Oliveira - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Imagem: Arquivo pessoal

Por exemplo: tinha o hábito de fazer muitas coisas a pé, saía de sandália para ir ao curso e, quando voltava para casa, tirava o calçado e os pés estavam marcados. Além disso, não conseguia mais andar tão rápido porque sentia o corpo muito pesado. As roupas ficaram mais apertadas até chegar a um ponto de nenhuma das minhas 20 calças jeans servirem e passar a usar só legging, saia e vestido.

Em seis meses, ganhei 12 quilos devido ao inchaço, fui de 57 kg a 69 kg. Uma amiga de infância ficou preocupada e todos os dias me falava: 'Eliane, olha como você está inchada, olha o tamanho dessa barriga, dessas coxas, por que você está tão gorda?'

Realmente meu corpo tinha mudado bastante, era magra e estava ganhando peso mesmo não mudando nada na minha alimentação. Comecei a fazer caminhada quatro vezes por semana para ver se 'emagrecia', mas as dores só pioravam.

Sem saber o que tinha, decidi procurar ajuda médica e passei no angiologista e no cardiologista. Fiz uma bateria de exames, mas não foi encontrada nenhuma alteração. O angiologista disse que a parte venosa estava ok, ele suspeitava que fosse algo no sistema linfático e pediu um exame chamado linfocintilografia.

Em fevereiro de 2021, fui diagnosticada com linfedema nos membros inferiores, grau 2. O médico explicou que, pessoas com essa condição têm acúmulo de líquido linfático, o que provoca os inchaços. Ele me passou um remédio para dor, pediu para fazer drenagem linfática com fisioterapeuta e me encaminhou para uma colega angiologista que atende esse tipo de caso.

Nesse meio tempo, fui à uma consulta de rotina com o coloproctologista, contei do meu problema de saúde e ele me indicou um neurocirurgião especialista em linfedema. Passei com esse médico, que pediu a linfocintilografia dos membros superiores e descobriu que também tinha a condição no braço esquerdo.

Segundo o neuro, não é possível saber se nasci com o linfedema ou se adquiri a condição em algum momento da vida, com traumas, como naquela queda em que eu rompi o ligamento do joelho e trinquei o osso.

Eliane Eudes de Oliveira tem linfedema - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Imagem: Arquivo pessoal

O médico me apresentou um procedimento cirúrgico inovador, o transplante de linfonodo. A técnica consiste no transplante de linfonodos vascularizados de outras partes do corpo para a área afetada. O médico faria um corte no abdome para retirar linfonodos do estômago e transplantar nos membros afetados.

Realizei todo o tratamento, incluindo a cirurgia, com a cobertura do plano de saúde. Marcaram o procedimento três vezes em três hospitais diferentes, mas só na última deu certo. Fiz o transplante de linfonodo no dia 25 de agosto de 2021 dos membros inferiores —o médico optou por marcar a dos membros superiores seis meses após a realização do primeiro, ou seja, somente em fevereiro de 2022.

Fui para a cirurgia confiante de que daria tudo certo, o procedimento durou cerca de oito horas. Fiquei apenas dois dias internada e já recebi alta para casa, mas com a recomendação de ficar em repouso por um mês.

Minha recuperação e cicatrização estão indo muito bem. Parei de tomar remédio, nunca mais senti dores e nem tive inchaço nas pernas, tornozelos e pés. Ainda tenho um pouco de inchaço na barriga, coxas e braços. Um ano após a cirurgia terei a confirmação se o transplante deu certo.

Em meio a esse processo, criei um grupo no WhatsApp e um grupo no Facebook chamado Linfedema: Socorro SUS para pedir aos órgãos competentes de todo o país a liberação do tratamento completo do linfedema, incluindo cirurgias, pelo Sistema Único de Saúde.

Eliane Eudes de Oliveira tem linfedema - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Imagem: Arquivo pessoal

Pacientes do Brasil todo e também de países como Espanha, Argentina, EUA e Kosovo já entraram em contato comigo pelas redes sociais.

Atualmente, estou desempregada e tenho dedicado meu tempo a essa causa. Tenho buscado investidores para uma fábrica de calçados sob medida para pessoas com linfedema. Tem gente que sonha em calçar um sapato, especialmente as crianças, mas não consegue por conta dos inchaços. Isso é algo que comove muito meu coração.

O linfedema não tem cura, mas minha esperança é a de que com informação e acesso ao tratamento, assim como eu, outras pessoas possam ter mais qualidade de vida."

Entenda o linfedema e o transplante de linfonodo

  • Linfedema

Linfedema, como o próprio nome diz, é o edema, isto é, o inchaço, causado por uma disfunção do sistema linfático. Ele pode ser congênito, quando a criança nasce com disfunção do sistema linfático e cursa com graves edemas nos membros. Também pode ser primário, quando a causa que provocou o problema da disfunção linfática é desconhecida. E ainda pode ser secundário, quando ocasionado após tratamentos médicos, infecções ou tumores.

O exemplo mais comum é a remoção da cadeia linfática após câncer de mama, em que se esvazia a axila. Muitas vezes, as mulheres desenvolvem edema e desconforto no membro superior do lado que foi retirada a mama.

O linfedema pode ser ainda de causa infectoparasitária, em uma doença que se chama filariose ou elefantíase. Isto ocorre após o verme (filaria) invadir e bloquear o sistema linfático do paciente.

Os sintomas são inchaço, aumento expressivo do membro acometido causando desconforto, mobilidade reduzida, alterações de sensibilidade e grave disfunção estética.

O diagnóstico é feito a partir da suspeita clínica. O exame de referência é a cintilografia linfática ou linfocintilografia —exame em que se injeta uma substância no subcutâneo e se avalia a velocidade e fluxo com que tal substância é drenada pelo sistema linfático.

Os principais tratamentos são os realizados por medidas físicas, como elevação do membro, fisioterapia com drenagens linfática e uso de meias compressivas.

  • Transplante de linfonodo

O transplante de linfonodo é uma técnica microcirúrgica em que o tecido doador (tecido rico em linfonodos e vasos linfáticos juntamente com sua vascularização) é retirado e transferido (transplantado) para a região afetada. O objetivo é que este tecido transplantado crie novas vias de drenagem linfática na área afetada e diminua o edema do membro acometido.

A peculiaridade e a dificuldade de tal técnica é que as suturas são realizadas em vasos com menos de um milímetro de diâmetro, necessitando de instrumental microcirúrgico com pontas de 0,1 a 0,25mm e com uso de microscópios cirúrgicos de última geração.

A técnica utilizada pelo grupo de microcirurgia e linfedema, no Instituto Orizonti, em Minas Gerais, é por meio do omento (estrutura linfática retirada dentro da cavidade abdominal juntamente com artéria e veia) ao invés de outras cadeias linfáticas. Essa técnica é chamada de VOLT (vascularized omentum lymph node transfer).

Algumas revisões têm apontado que esse tecido teria a capacidade de crescimento e regeneração melhor do que as de outras cadeias linfonoidais. A maior desvantagem é que é necessária uma abertura do abdome para se retirar o tecido.

O maior risco está relacionado à infecção do tecido transplantado e alterações abdominais, como alterações transitórias no ritmo intestinal do paciente (pela abertura do peritônio para retirada do omento).

O transplante da cadeia linfonodal pode ser feito no SUS desde que o cirurgião tenha treinamento em microcirurgia em vasos com menos de 1 mm de diâmetro, bem como material especializado. Como não há registro deste tipo específico de tratamento nos códigos do SUS, a auditoria médica poderá não autorizar os procedimentos.

No caso dos planos de saúde, também não temos codificação específica e aplicamos códigos por aproximação como microcirurgia para reconstruções nervosas.

Fontes: José Augusto Malheiros Santos Filho, coordenador da equipe de neurocirurgia do Instituto Orizonti, em Minas Gerais; e Marcelo Magaldi, neurocirurgião do Instituto Orizonti e pesquisador de linfedema.

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