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O que você come ou bebe influencia no nível de testosterona?

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Renata Turbiani

Colaboração para VivaBem

21/01/2022 04h00

Tudo o que comemos ou bebemos influencia diretamente na nossa saúde. Além de prevenir (ou até provocar) doenças, como as cardiovasculares, o diabetes e a hipertensão arterial, a alimentação também tem impacto nos hormônios que nosso organismo produz.

Mas você sabia que a testosterona, substância que está diretamente ligada à função reprodutiva masculina, é uma exceção? Neste caso, o que é ou não ingerido não faz tanta diferença no aumento ou na diminuição do hormônio no corpo —pelo menos não de forma direta.

"Se você procurar na internet, vai encontrar uma série de indicações e receitas milagrosas. Só que nenhuma tem comprovação científica. Ainda não foram descobertos alimentos capazes de diminuir ou aumentar os níveis deste hormônio", afirma Luiz Otávio Torres, diretor da SBU (Sociedade Brasileira de Urologia).

O médico acrescenta que até existem estudos relacionando alimentação e testosterona, porém, eles não apresentam muitas evidências sólidas. Um dos mais recentes a tratar do tema foi publicado em 2020, nos Estados Unidos, por pesquisadores da Universidade de Chicago, do Grupo NorthShore University Health System e da Universidade Northwestern.

Seu objetivo foi examinar a relação entre os níveis do hormônio e dietas com baixo teor de gordura, mediterrânea e com baixo teor de carboidrato. A conclusão do trabalho foi de que homens que aderiram a um cardápio com baixo teor de gordura apresentaram níveis séricos de testosterona mais baixos do que os demais —mas as diferenças foram bem modestas.

"No geral, essas análises falham por serem realizadas por um período curto e com uma pequena amostragem. Para testar realmente a eficácia de um alimento específico, dieta e até fitoterápicos que prometem aumentar as taxas da substância, seria preciso fazer um estudo duplo cego randomizado, comparando dois grupos de pessoas durante alguns meses. Aí sim teríamos uma resposta científica", aponta Torres.

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Alimentação não tem ligação direta com queda da testosterona, mas obesidade tem
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Alimentação balanceada é a chave

Apesar de ainda não ser possível cravar que algum ingrediente ou tipo de alimentação sozinho aumente ou diminua as taxas do hormônio masculino, o presidente da SBU garante que ter uma dieta balanceada é imprescindível para mantê-lo sob controle. "A boa alimentação é benéfica para tudo e contribui para a manutenção do peso corporal, e isso sim tem relação com a testosterona. Hoje, sabemos que a obesidade leva à diminuição dos seus níveis", diz.

Para se ter uma ideia, um trabalho recém-apresentado e realizado pelas pesquisadoras Taciana Leonel Nunes Tiraboschi e Monique Tonani Novaes, da UEFS (Universidade Estadual de Feira de Santana), da Bahia, com a colaboração de profissionais da UFC (Universidade Federal do Ceará) e da USP (Universidade de São Paulo), concluiu que homens obesos —com circunferência abdominal acima de 102 centímetros— têm cinco vezes mais probabilidade de apresentarem deficiência de testosterona do que os não obesos.

A pesquisa contou com a participação de 3.479 indivíduos, que foram divididos em 4 grupos: 45-64 anos (2.168), 65-74 anos (805), 75-84 anos (404) e acima de 85 anos (102). Pelos dados obtidos, a prevalência geral de taxas baixas de testosterona foi de 19% —e semelhante em todas as faixas etárias. Nos pacientes não obesos com circunferência abdominal menor que 94 cm, a taxa baixa foi de 4%, enquanto nos obesos com circunferência abdominal acima de 110 cm, chegou a 44%.

Segundo José Bessa Júnior, professor da UEFS e coordenador do estudo, esses resultados deixam bem claro que a obesidade é o principal fator associado à queda da testosterona nos homens. Uma das explicações é que o excesso de gordura presente no organismo aumenta a produção de uma enzima chamada aromatase, que converte a testosterona em estrogênio (hormônio feminino) e, consequentemente, faz com que os seus níveis diminuam.

Fora isso, o especialista aponta que a obesidade também dificulta os mecanismos compensatórios. "Quando há excesso de gordura, são liberadas no organismo quantidades maiores de substâncias inflamatórias e do hormônio leptina, relacionado ao controle do apetite. Eles interferem no funcionamento da hipófise, glândula situada no cérebro e responsável pela liberação de um hormônio, o LH (luteinizante), que emite um sinal para os testículos produzirem a testosterona", explica.

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Quando o nível de testosterona está baixo há o surgimento de sintomas: perda de massa muscular, falta de energia, diminuição da libido, disfunção sexual, cansaço, sonolência, irritabilidade e aumento da gordura visceral
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Consumo abusivo de álcool compromete os níveis do hormônio

Outro fator relativo ao que se consome e que pode levar à diminuição do hormônio masculino é o uso de álcool. O que acontece é que a metabolização da bebida altera o processo de fabricação do hormônio: ao mesmo tempo em que aumenta a liberação da aromatase, assim como acontece na obesidade, diminui a da coenzima NAD+, essencial para a produção da testosterona nos testículos.

Mas essa condição, como deixa claro Roberta Frota Villas Boas, endocrinologista do Hospital Nove de Julho, não acontece se a pessoa tomar uma taça de vinho ou um copo de cerveja vez ou outra. "É preciso um consumo abusivo. Nenhuma bebida sozinha, assim como nenhuma comida, tem influência sobre a testosterona, é benéfica ou prejudicial. Informações que dizem o contrário não têm comprovação", aponta a médica.

Torres complementa que o importante mesmo para manter as taxas do hormônio sob controle não é adotar essa ou aquela dieta ou consumir ou cortar algum alimento, mas sim adotar hábitos de vida saudáveis. "Isso inclui ter uma dieta balanceada, praticar exercício físico regularmente e evitar o estresse. É preciso estar bem física e mentalmente para que os hormônios, e não apenas esse, sejam produzidos corretamente."

Baixa testosterona pode ser prejudicial à saúde

A testosterona é o principal hormônio andrógeno masculino —apesar de também ser encontrada mulheres, só que em menores quantidades. Produzida nos testículos (95%) e nas glândulas adrenais (5%), tem como função desenvolver e manter as características sexuais secundárias no homem: crescimento de pelos, aumento de massa muscular, desenvolvimento de genitais e atividade sexual.

Com o avanço da idade, é natural que ocorra uma queda no nível. A estimativa é que a partir dos 40 anos haja declínio de 1% ao ano. Contudo, Torres expõe que isso não é uma regra. "Diferentemente da mulher, que para totalmente de liberar estrogênio quando chega na menopausa, o homem não deixa nunca de fabricar a testosterona. O que pode acontecer é a diminuição em uma porcentagem dos indivíduos."

Além do envelhecimento —e da obesidade, do consumo abusivo de álcool e do estresse, como relatamos anteriormente—, outras possíveis causas são o uso de determinados medicamentos, como os para tratamento do câncer de próstata, cirurgia ou radioterapia de testículos e alguns tumores de hipófise.

Quando a queda se dá de forma muito acentuada, ou seja, as taxas do hormônio ficam abaixo dos 300 nanogramas por decilitro de sangue e há o surgimento de sintomas (perda de massa muscular, falta de energia, diminuição da libido, disfunção sexual, cansaço, sonolência, irritabilidade e aumento da gordura visceral), é considerado que o homem tem hipogonadismo ou DAEM (distúrbio androgênico do envelhecimento masculino).

José Hipólito Dantas Junior, professor do HUOL (Hospital Universitário Onofre Lopes), da UFRN (Universidade Federal do Rio Grande do Norte), comenta que há tratamento para essa situação. A primeira opção, segundo ele, é promover uma mudança de estilo de vida: perder peso, praticar atividade física regularmente e eliminar hábitos nocivos (tabagismo ou etilismo).

Caso não funcione, pode-se recorrer à reposição de testosterona. "Mas isso exige uma avaliação minuciosa, caso a caso, e só deve ser feita com a indicação e o acompanhamento de médicos capacitados. Nunca de forma aleatória, pois há riscos", observa o especialista.

No Brasil, os tipos de medicação disponíveis são injetáveis (de curta e longa ação, com aplicações a cada 2-4 semanas ou a cada 3 meses, respectivamente) e gel transdérmico (é passado todos os dias na pele, normalmente em regiões sem pelo). Dentre os possíveis efeitos da terapia de reposição hormonal (TRT) estão infertilidade, trombose, surgimento de tumores e aumento do risco para doenças cardiovasculares.