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Hospital de Curitiba usa realidade virtual para tratar idosos internados

Reinaldo Bajerski pedala na bicicleta ergométrica enquanto observa paisagens de montanha - Fernanda Luvizotto/Feas
Reinaldo Bajerski pedala na bicicleta ergométrica enquanto observa paisagens de montanha Imagem: Fernanda Luvizotto/Feas

Amanda Andrade

Colaboração para VivaBem

21/01/2022 04h00

Em seu quarto de hospital, Reinaldo Bajerski, 56, pedala na bicicleta ergométrica enquanto observa paisagens de montanha. Recém-saído da UTI (Unidade de Terapia Intensiva), onde esteve internado por uma semana, no Hospital do Idoso Zilda Arns, em Curitiba, ele faz a terceira sessão de um tratamento com óculos de realidade virtual.

"Consigo me transportar para fora do hospital", diz Reinaldo, que se recupera de complicações causadas pela covid-19. Enquanto pedala e executa os exercícios propostos pela equipe de fisioterapia, ele se vê, por meio dos óculos, pedalando em paisagens paradisíacas —além das montanhas, ele pode escolher observar cenários virtuais de praia, um oceano repleto de golfinhos ou uma fazenda, por exemplo. "Sinto uma sensação de liberdade, de ver a vida novamente", relata.

O hospital, que começou a utilizar a tecnologia em 2018, interrompeu seu uso durante a pandemia. Em outubro, a equipe retomou as atividades. Agora, o tratamento é focado no alívio da dor de pacientes que precisam realizar os exercícios de fisioterapia.

"Tivemos um paciente que só conseguia passar 3 minutos pedalando. Depois que começou a usar os óculos, passou para 8 minutos", conta Regiane Borsato, fisioterapeuta e coordenadora da Equipe Multiprofissional do Hospital do Idoso.

Borsato relata que costuma conduzir o tratamento diariamente com os pacientes que são capazes de participar (atualmente, são três), tanto da UTI quanto da enfermaria, até o dia da alta. Além da redução da dor, por meio da distração causada pelos cenários virtuais, os óculos também promovem a prevenção de quadros de delirium, que podem ser comuns em idosos hospitalizados.

Isso acontece porque, a partir das imagens, os pacientes são estimulados a ativar a memória e associar os elementos visuais a momentos da própria vida, como a infância no sítio ou uma viagem à praia com a família.

As sessões, portanto, costumam ser acompanhadas de bate-papos nostálgicos. "Sempre tem gargalhadas", diz Borsato. "Eles relatam que esquecem que estão em um ambiente hospitalar. Quando eles se projetam para fora do hospital, ficam bem mais calmos", acrescenta.

Pesquisa e mercado de tecnologia voltada à saúde

"A realidade virtual, na saúde do idoso, tem uma abrangência para diversas áreas, como fisioterapia, psicologia, terapia ocupacional, educação física e mesmo medicina", diz Jéssica Bacha, doutora em gerontotecnologia e pesquisadora do Sírio-Libanês Ensino e Pesquisa.

"Um indivíduo idoso, no próprio envelhecimento fisiológico, tem uma alteração de equilíbrio, postura e cognição. Então, há intervenções que podem ser feitas por meio de jogos de realidade virtual, que podem ser até os comerciais, desenvolvidos para entretenimento."

Desde 2015, Bacha conduz intervenções de realidade virtual com os pacientes, incluindo games imersivos (em que o usuário tem a percepção de estar presente fisicamente no mundo virtual), não imersivos (como jogos de videogame que propõem a movimentação corporal) e de realidade aumentada, quando há uma integração de elementos dos mundos real e virtual.

A pesquisadora atende tanto idosos na senescência, que passam pelo processo natural de envelhecimento, quanto aqueles em senilidade, como os que têm a doença de Parkinson, demência ou pós-acidente vascular cerebral.

"Os resultados mais mensuráveis que eu tenho são da melhora do equilíbrio postural, da marcha, da cognição global, da capacidade cardiorrespiratória, do humor e da qualidade de vida em geral", relata.

Alexandre Leopold Busse, geriatra do Núcleo Avançado de Geriatria do Hospital Sírio-Libanês, em São Paulo, conta que o uso desse tipo de tecnologia já vem sendo estudado em pesquisas e aplicado na prática clínica, incluindo no Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP (Universidade de São Paulo) e em sua clínica, Vigilantes da Memória.

Realidade virtual é tratamento - Vigilantes da Memória/Divulgação - Vigilantes da Memória/Divulgação
Imagem: Vigilantes da Memória/Divulgação

"Hoje, costuma-se escolher entre os jogos existentes aqueles que podem ser usados com o idoso. A programação de jogos desenvolvidos especificamente para esse fim ainda é algo caro", afirma Busse. "Mas acredito que esta é uma ferramenta do futuro, então, existe a oportunidade de surgirem desenvolvedores da área da saúde criando esses jogos."

O geriatra encontra nas tarefas lúdicas do videogame aliadas à prática clínica múltiplos benefícios para os idosos, incluindo os cognitivos (ajudando na memória), os neuromotores (para o equilíbrio) e mesmo os psicológicos —quando, por exemplo, um psicólogo utiliza o jogo para dessensibilizar o paciente em relação a alguma fobia.

"Também é um artifício que faz com que o paciente se interesse mais pelo tratamento, o que pode acarretar em uma melhora mais rápida", comenta.

No Hospital Universitário da UFMA (Universidade Federal do Maranhão), os médicos também fazem uso da chamada gameterapia para diferentes finalidades, como melhora do equilíbrio e da postura, redução das dores e da incontinência urinária, além de estímulo cognitivo e da memória emocional associado ao exercício físico.

No primeiro mês de realização do tratamento no hospital, a equipe de fisioterapia já selecionou jogos e conduziu trabalhos com alguns grupos de idosos. "Começamos há pouco tempo, mas abraçamos a ideia na hora. Era o que estávamos esperando", diz Maria Zali San Lucas, geriatra do hospital.

Prontuário afetivo

No Hospital do Idoso, antes de iniciar o tratamento com os óculos, a equipe costuma fazer entrevistas informais com os pacientes, para descobrir quais imagens podem ser as mais adequadas para eles. O atendimento humanizado, com prontuário afetivo (que reúne informações pessoais do paciente, como time de futebol, gosto musical ou memórias com a família), tem um importante papel na seleção dos cenários.

Maria faz fisioterapia e vê cachoeiras no óculos de realidade virtual - Fernanda Luvizotto/Feas - Fernanda Luvizotto/Feas
Maria faz fisioterapia enquanto vê cachoeiras no óculos de realidade virtual
Imagem: Fernanda Luvizotto/Feas

Foi assim que descobriram que Reinaldo gosta do mar e que Maria Helena Alves Pereira, 74, prefere as cachoeiras. "A gente morava numa fazenda que tinha cachoeira. Lembrei de quando a gente tomava banho nela. É como se estivesse lá, vendo a vida que a gente tinha", recorda a paciente, internada há 10 dias para tratar de infecções.

Esta foi a segunda vez que fez o tratamento, enquanto executava exercícios para os braços. "São coisas que a gente tem vontade de ver de verdade, mas não pode."

Profissionais do Hospital do Idoso que atuam em outras áreas da saúde estudam, atualmente, novas funcionalidades para os óculos. A equipe de psicologia, por exemplo, pretende observar como a realidade virtual pode auxiliar na redução da ansiedade durante o período de internamento.

Já a equipe de terapia ocupacional planeja associar outros elementos (como cheiros) ao tratamento com os óculos, para aprimorar a sensação de estar fora do ambiente hospitalar.

Darlan Nitz, fisioterapeuta que fornece treinamento para que hospitais apliquem esse método de trabalho, conta que começou há quase 5 anos as atividades com realidade virtual em UTIs. "Eu via essa grande dor do paciente, que é a experiência no hospital, sem contato com o mundo externo. Pensei que precisava levá-los a outro mundo, nem que fosse virtual", afirma.

Em um dos testes iniciais que mais o animou, Nitz pediu que um paciente pedalasse na bicicleta ergométrica e avisasse quando desejasse parar —seja por dor, cansaço ou por não querer continuar na atividade. No primeiro teste, o idoso completou 11 minutos.

Depois, com os óculos, "pedalando em Londres", ele chegou a cerca de meia hora. "Foi muito recompensador", diz Nitz. Atualmente, ele desenvolve o método também com crianças e adolescentes hospitalizados no Hospital Pequeno Príncipe, em Curitiba.

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