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Cuidar da mente para uma vida mais harmônica


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Existe alguma receita para encontrar a felicidade?

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Imagem: iStock

Janaína Silva

Colaboração para VivaBem

15/01/2022 04h00

A humanidade sempre buscou compreender a felicidade e, ao longo dos anos, ela tem sido tema de estudos, pesquisas e publicações pelo mundo e pelas diversas áreas do conhecimento. Em meio a eles, acompanha-se, também, a divulgação de atitudes e práticas para uma vida mais feliz, com o sucesso de muitos gurus que imprimem respostas prontas para quase todos os dilemas humanos.

A grande procura pelo tema faz sentido. Os números relativos à ansiedade e depressão pelo mundo só crescem, incluindo o Brasil, listado pela OMS (Organização Mundial da Saúde) como o país com maior prevalência de ansiedade no mundo e com 5,8% de pessoas deprimidas.

Mas qual a receita para ser feliz, se é que ela existe? No início dos anos 2000, um estudo feito por pesquisadores norte-americanos apontava que 50% da felicidade estava relacionada a fatores genéticos, 10% às circunstâncias da vida e 40% disponível para ser alterado por meio de atividades voluntárias de cada um, como ser mais positivo. Questionamentos recentes colocaram em xeque a composição da fórmula, principalmente o impacto de cada fator na sensação de ser feliz.

"Os fatores —genéticos, sociais e psicológicos— são difíceis de serem dissociados. Além disso, sentir melancolia, tristeza e angustia, por exemplo, é normal", enfatiza Débora Ferraz, psicóloga com doutorado em antropologia e professora do Unisba (Centro Universitário Social da Bahia). A felicidade é um estado passageiro momentâneo e as emoções devem ser vivenciadas em sua totalidade.

Genes da felicidade são questionáveis

Muitas pesquisas usaram gêmeos para comprovar a relação com o código genético. Porém, mesmo irmãos criados pelos pais em um mesmo ambiente físico podem perceber as situações de forma diferente, gerando interpretações diferentes sobre os fenômenos.

"Há controvérsias sobre o que determinaria a felicidade e o quão felizes poderíamos ser com base em nossos genes", afirma Amanda Barroso de Lima, neuropsicóloga, professora em neuropsicologia na Unichristus (Centro Universitário Christus) e coordenadora da pós-graduação em neuropsicologia clínica comportamental no IBAC (Instituto Brasiliense de Análise do Comportamento).

Quem é feliz? Ilustração de casal rindo - CSA-Printstock/Getty Images - CSA-Printstock/Getty Images
É válido se questionar por que é preciso ser feliz o tempo todo
Imagem: CSA-Printstock/Getty Images

"Diferentemente das características físicas, os genes relativos à personalidade e temperamento que influenciam a nossa felicidade não são possíveis de se identificar como ocorre com a cor dos olhos. Daí, a busca por meio de pesquisas com gêmeos e a deficiência de um consenso", fala Clarissa de Freitas, pesquisadora e professora do curso de pós-graduação em psicologia da PUC-RIO (Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro).

"Não diria que seja possível mensurar de uma forma objetiva a influência genética na nossa capacidade de vivenciarmos a felicidade. Mas ela pode influenciar", comenta Ana Cláudia Alexandre, psicóloga e coordenadora do Curso de Psicologia da Uninassau (Centro Universitário Maurício de Nassau) de Olinda, Pernambuco.

De acordo com Lima, a influência da genética na felicidade é menor do que se costuma esperar. Estudos de meta-análise concluíram que a genética teria uma influência média de apenas 35% para explicar variações entre satisfação e bem-estar das pessoas. "Utilizando como base a epigenética (estudo da expressão gênica), particularmente, acredito que seja mais o oposto: as nossas atividades que geram sensação de prazer afetam a nossa genética."

Ainda segundo ela, as interações com o meio em que se vive são mais responsáveis pelas mudanças que podem promover a sensação de felicidade do que os genes.

Para tanto, na visão de Alexandre, há correspondência com os estímulos recebidos. "Desde que o ambiente seja propício a isso. Algumas pessoas mais sensíveis às influências do meio e, em um ambiente desestimulante e rígido, podem apresentar baixa autoestima, impedindo seu pleno desenvolvimento, por exemplo. Em contrapartida, se houver estímulos para a felicidade, como expressar sorrisos e brincadeiras, certamente existirá mais propensão a vivenciar a felicidade em vários momentos da vida."

Fábio Martins Fonseca, psiquiatra e terapeuta cognitivo-comportamental, afirma que um dos componentes para a felicidade são relações positivas e construtivas em que as pessoas se apoiem mutuamente. "Porém, muitas vezes, para pertencer a um grupo, o pertencimento é condicionado ao medo e à coerção, obrigando os indivíduos a se anularem, gerando traumas e transtornos mentais, muito por conta do ambiente."

Jovem com fone de ouvido headphone feliz dançando alegre - Andrea Piacquadio/ Pexels - Andrea Piacquadio/ Pexels
Talvez as interações com o meio em que se vive são mais responsáveis pelas mudanças que podem promover a sensação de felicidade do que os genes
Imagem: Andrea Piacquadio/ Pexels

Atitude positiva funciona?

O terceiro fator —ter uma atitude positiva em relação à vida—, que correspondente a 40% do bolo da felicidade, refere-se ao sentido que cada um atribui aos acontecimentos, podendo, sim, funcionar para muitas pessoas, mas não é consenso.

"O fato de pensar positivo ajuda a ter uma visão otimista, interpretando os acontecimentos com confiança e esperança. Há uma parcela da população em que isso não funciona tão bem, seja porque já seguiram esse tipo de instrução sem sucesso, seja porque são mais atentas ao que acontece de fato na vida, sem precisar seguir orientações para enfrentar as situações", esclarece Lima.

A obrigação de ver a metade do copo sempre cheia pode levar ao estresse e a doenças. "A questão é verificar o quanto faz sentido e confere benefícios às próprias emoções", opina Freitas.

Apoio e descobertas

As emoções descontextualizadas como ficar triste sem motivo ou caso o luto dure muito tempo são situações em que o atendimento psicológico e psiquiátrico é indicado. O predomínio dos sentimentos de infelicidade e tristeza é sinal que necessita ser considerado.

"Quando esses sentimentos fazem parte do cotidiano de maneira intensa e afetam as relações sociais, estudos, trabalho, por exemplo, a recomendação é o auxílio de profissionais especializados. Não, necessariamente, para se livrar desses sentimentos, mas para entender o que está produzindo essas sensações e pensar estratégias para mudanças", relata Lima.

Contudo, quando a tristeza não está relacionada a doenças, a questão principal ainda é entender a razão da dificuldade que inúmeros indivíduos têm de se sentir feliz. "Vivemos numa sociedade ocidental em que parece só ser permitido ficar feliz e que a tristeza é sinal de fraqueza e fracasso", alerta Alexandre. As pessoas precisam entender que se sentir triste e infeliz às vezes faz parte da vida.

Fontes: Amanda Barroso de Lima, neuropsicóloga, professora em neuropsicologia na Unichristus (Centro Universitário Christus) e coordenadora da pós-graduação em neuropsicologia clínica comportamental no IBAC (Instituto Brasiliense de Análise do Comportamento); Ana Cláudia Alexandre, psicóloga e coordenadora do curso de psicologia da Uninassau (Centro Universitário Maurício de Nassau) de Olinda, Pernambuco; Clarissa P. P. de Freitas, pesquisadora e professora da pós-graduação de psicologia da PUC-RIO (Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro); Débora Ferraz, psicóloga com doutorado em antropologia e professora do Unisba (Centro Universitário Social da Bahia); Fábio Martins Fonseca, psiquiatra e terapeuta cognitivo-comportamental.

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