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Por que fogos de artifício deixam as pessoas emocionadas?

Fernando Maia/Riotur
Imagem: Fernando Maia/Riotur

Marcelo Testoni

Colaboração para o VivaBem

31/12/2021 04h00

Barulhentos (apesar de hoje existirem os silenciosos), brilhantes, grandes e coloridos. Fogos de artifício costumam ser a primeira manchete do 1º de janeiro no mundo inteiro. Seja em Nova York, Rio de Janeiro, Londres, Dubai, Sydney, eles atraem multidões, que se maravilham com os espetáculos coordenados que essas "faíscas aladas" proporcionam nos céus e que, anualmente, movimentam verdadeiras fortunas —só nos Estados Unidos, cerca de US$ 1 bilhão.

Símbolos de comemoração, mas não só da chegada de um novo tempo, como de festividades diversas, desde ganhos de campeonatos ao tradicional São João, eles ativam os nossos sentidos e, com eles, emoções e sentimentos que se misturam. Alegria, euforia, medo, calma são alguns dos exemplos e tem gente que ainda sente que fogos de artifício mexem, de forma profunda, com o eu interior, causando reflexões e um tipo de conexão com a espiritualidade.

Estaria, talvez, relacionado a um resquício evolutivo no inconsciente coletivo do contato dos primeiros Homo sapiens com o fogo? Porque, no começo, nós o temíamos, venerávamos, antes de obter o controle sobre ele. E se hoje os fogos de artifício reproduzirem, de alguma forma, essa mesma sensação primitiva? São perguntas que, para serem respondidas, VivaBem contou com o apoio de especialistas em comportamento humano.

Destruição que nos fascina

A história dos fogos de artifício é uma combinação estranha entre destruição e beleza. Isso porque por volta de 200 a.C, alguém na China teve a ideia de atirar um bambu em uma fogueira e aconteceu uma explosão com som alto, que foi interpretada como mágica ou ritual para afugentar espíritos ruins e serviu de ponto de partida para a criação da pólvora. Se você não sabe, fogos são produzidos com pólvora adicionada com sais de diferentes elementos.

Com os morteiros e seu potencial destrutivo, surgiu então o entretenimento explosivo e a pirotecnia. "É uma forma de arte que ativa o emocional, assim como teatro, cinema, e que desperta curiosidade natural. E a fascinação por guerra, explosão, bem versus o mal é muito humana, sempre existiu", afirma Luiz Scocca, psiquiatra pelo HC-FMUSP (Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP) e membro da APA (Associação Americana de Psicologia).

Nesse sentido, assistir a uma queima de fogos poderia, inconscientemente, dar a sensação de uma "vitória", "missão cumprida", principalmente se o ano que passou foi muito doloroso ou desafiador. Nem é preciso que haja barulho junto, o que para muita gente também pode ser estressante e uma maldade para com os animais, que ficam apavorados. Mesmo que sejam silenciosos, pelo apelo visual já são suficientes para nos conceder alguma "sensação de poder".

Entregues a algo maior

Se quem produz fogos de artifício a partir de inúmeras misturas químicas pode se sentir um mago que faz da noite uma tela para suas criações, que lembram estrelas cadentes, palmeiras, buquês de crisântemos, quem faz parte da plateia, em geral, não sente menos do que privilégio de estar imerso em algo tão grandioso. A beleza da natureza recriada nas alturas nos coloca em estado de deslumbramento e pode, sim, contribuir para nosso despertar interior.

"Natal, Ano-Novo, datas comemorativas em geral, servem como um convite às verdadeiras reflexões", explica Lara Rocha, psicóloga da Clínica Amar Mente e Corpo, parceira da Central Nacional Unimed, em Salvador (BA), complementando: "Há ainda que se considerar que, nesse momento específico, muitos perderam pessoas queridas". Assim, estaríamos mais sensíveis e "abertos" para relação do eu com o outro, e inclui aceitação, respeito, compreensão, caridade.

Onde os fogos entram nisso? Em sua diversidade de imagens, coreografias e cores, acionam neurotransmissores, como endorfina, serotonina, oxitocinas, os quais fazem você ter uma sensação de bem-estar. E nos remetem ao universo com toda sua grandeza e mistério e ao nosso lugar nele. A quietude inata ao êxtase da apreciação do céu pode então nos lembrar de nossa pequenez e efemeridade, fazendo-nos mais humildes e empáticos uns com os outros.

Seriam bombas da paz?

Soa contraditório, mas, de fato, projéteis aéreos aproximam emocionalmente as pessoas, independentemente de suas inúmeras diferenças. Festas de Réveillon são o maior exemplo disso. Evidenciam união, confraternização entre vizinhanças, cidades, nações distantes por oceanos, hemisférios, fuso-horários e que, por alguns minutos, param todo o seu ritmo de vida para celebrarem juntas a chegada de um novo ano e compartilharem votos dos mais positivos.

"A festividade, que é sinônimo de coisas boas, virou parte de uma cultura global", afirma Yuri Busin, psicólogo e doutor em neurociência do comportamento e diretor do Casme (Centro de Atenção à Saúde Mental), em São Paulo (SP). Humanos, desde os primórdios, reúnem-se para aprender e quando aprendem suas experiências podem os aproximar ou dividir. Diante dos fogos voltamos no tempo e resgatamos nossa essência, senso de pertencimento como espécie.

Celebrar fogos é estar em família, com amigos, num momento de diversão, entretenimento e carinho envolvido. Com a pandemia do novo coronavírus perdemos muito disso. Sem ter como marcar a virada, um rito de passagem, a impressão que se tem é de que estamos "presos" em looping. Por isso, para que a vida retorne à normalidade e possamos nos comportar como seres gregários que somos é preciso que todos se vacinem e, por enquanto, mantenham o distanciamento social. Não adianta soltar rojão, se não há o que comemorar.

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