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Sonhar com cobra, onda gigante: a ciência explica o significado dos sonhos?

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Samantha Cerquetani

Colaboração para VivaBem

09/12/2021 04h00

Você pode não se lembrar, mas é provável que enquanto dormia tenha sonhado várias vezes. Essas histórias ou imagens que aparecem durante o sono são estudadas há séculos por cientistas de todo o mundo e recebem diferentes interpretações.

Mas o que diz a ciência? Apesar de sabermos a razão pela qual dormimos e a importância do sono para saúde física e mental, ainda não há um consenso entre os pesquisadores sobre o papel dos sonhos. Por isso, surgem diversas teorias e possíveis significados.

Há quem diga que o sonho seja uma simulação a uma ameaça. "Essa teoria diz que o sonho tem uma função adaptativa de simular possíveis futuros, baseados no nosso passado. Com isso, ensaiamos ações que favoreçam nossa sobrevivência", destaca Sérgio Arthuro, pesquisador do Instituto do Cérebro da UFRN (Universidade Federal do Rio Grande do Norte).

É comum que o conteúdo dessas histórias seja influenciado pelas experiências do dia anterior ou traz à tona aquilo que causa ansiedade ou queremos evitar. Os psicólogos cognitivos, por exemplo, acreditam que os sonhos apareçam como uma forma de processar pensamentos, sentimentos e interação com os outros. Os sonhos, portanto, ajudariam a lidar com os conflitos, dores emocionais e regulariam o humor.

Há ainda teorias sugerindo que os sonhos servem apenas para armazenar memórias ou para processar sinais aleatórios do cérebro. Sendo assim, o órgão coleta e limpa informações desnecessárias para armazenar novos conteúdos.

Sonhar - iStock - iStock
Sonhar que está caindo pode ter a ver com relaxamento da musculatura
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O que diz a psicanálise

O papel dos sonhos e sua importância para o comportamento humano ganhou destaque após Sigmund Freud publicar a obra "A Interpretação dos Sonhos", em 1899. O neurologista e psiquiatra é conhecido como o pai da psicanálise, abordagem que trabalha o inconsciente e conteúdos reprimidos.

Segundo ele, os sonhos representam uma realização inconsciente do desejo e do medo do indivíduo que surgem de forma disfarçada.

"Analisando o mecanismo dos sonhos, Freud identificou a via que dava acesso ao inconsciente. Na psicanálise, não há significado de antemão. É um trabalho singular, onde se avalia os elementos da vida, ambiente e cultura que o indivíduo vive", explica Luciana Lafraia, psicanalista e pesquisadora do Instituto de Psicologia da USP (Universidade de São Paulo).

Para os psicanalistas, por meio dos sonhos é possível ter contato com os reais sentimentos, medos e desejos. De acordo com Lorena Miranda, neurologista e psicanalista do Hospital Santa Helena, esses conteúdos representam as emoções. "Na psicanálise, os sonhos são analisados por meio da associação livre, ou seja, a pessoa conta o que sonhou de forma espontânea e associa com sentimentos que vem à tona no momento da fala. Isso ajuda a desatar os nós emocionais e diminui o sofrimento", diz.

Jung e o sonho como linguagem simbólica

Sonhar é uma experiência humana universal. No entanto, muitas vezes, são difíceis de se compreender, uma vez que eles se expressam por meio de símbolos. Mas, apesar de parecer sem sentido, os sonhos podem surgir como uma manifestação emocional do sonhador.

Para Carl Jung, psiquiatra suíço, fundador da psicologia analítica, o corpo e os sentimentos trabalhavam juntos para comunicar situações importantes para o indivíduo. E essas informações se manifestam por meio dos sonhos. Além disso, eles funcionam como uma parte importante do desenvolvimento da personalidade.

"De acordo com a terapia junguiana, o sonho carrega em si uma mensagem e esse conteúdo é acessado pelo próprio sonhador. É importante avaliar o contexto e os elementos que surgem nos sonhos para entender a narrativa onírica. Os sonhos são carregados de significados individuais", explica Lívia Okada, psicóloga junguiana, que atua no Hospital Alemão Oswaldo Cruz.

A especialista destaca que os sonhos trazem para a consciência alguns temas que ajudam a pessoa a ter um equilíbrio emocional. "O indivíduo reconhece seus sentimentos, as dificuldades e quais características precisa melhorar. Pode contribuir em um processo de autoconhecimento. A mente não se separa do corpo", completa.

Sonhos mais comuns

Apesar de os sonhos terem significados bastante individuais, é comum que alguns temas sejam mais frequentes. Quem nunca sonhou que estava caindo ou voando? Além desses, sonhar que está perdendo os dentes, morrendo (ou perdendo alguém querido), sendo traído, com algum animal ou aparecer grávida estão na lista de narrativas oníricas mais frequentes.

As interpretações são múltiplas e devem ser avaliadas por um psicólogo ou analista, caso a pessoa tenha esse sonho com frequência e esteja incomodada. "Fugir no sonho pode ser visto como um treinamento para escapar de alguma situação ameaçadora. Já sonhar que está caindo indica um resquício evolutivo da época em que dormíamos nos galhos das árvores e tínhamos que nos equilibrar", destaca Arthuro.

Ele também afirma que outra possível explicação para a sensação de queda é que, à medida que aprofundamos o sono, os músculos ficam cada vez mais relaxados. "Se estamos privados de sono, e esse relaxamento muscular ocorre muito rapidamente, o cérebro interpreta que estamos caindo", diz.

Já quem sonha que está voando costuma estar vivendo a realização de algum desejo e representa algo positivo. Porém, se perder o controle indica, na maioria das vezes, o medo de enfrentar alguma situação real.

Quem está vivendo momentos de muito estresse e ansiedade também pode ter sonhos mais perturbadores. É comum que relatem sonhar que esqueceram algo, estão passando vergonha (por perder os dentes ou estão nus), tentar correr e não conseguir escapar ou esquecer onde estacionou o carro.

E se eu não me lembrar dos sonhos?

Não há problema algum esquecer o conteúdo dos sonhos ou sequer saber se eles realmente aconteceram. Os especialistas consultados por VivaBem acreditam que esse esquecimento tem a ver com a má qualidade do sono.

Durante o sono REM, período de sono mais superficial, mas quando a atividade cerebral é intensa —o que ajuda em processos como o de consolidação da memória e estabilização do humor—, os níveis de noradrenalina (neurotransmissor ligado ao sistema de alerta do nosso corpo) são quase nulos.

Isso quer dizer que os sonhos acontecem, mas não "prestamos atenção neles". Por isso só nos lembramos dos sonhos quando acordamos no meio deles e, por exemplo, saímos da cama de repente. Isso faz com que haja mais noradrenalina presente no corpo, o suficiente para que a experiência seja lembrada. Ainda assim é comum que a gente esqueça rapidamente dos detalhes do sonho.

Além disso, as questões emocionais como traumas ou depressão são fatores que dificultam acordar e se lembrar das histórias noturnas. "Há uma falta de hábito e de autopercepção. Mas não há necessidade de ser uma experiência rica em detalhes. Identificar os sentimentos já é uma informação importante para o sonhador", diz Okada.

Geralmente, a psicoterapia ajuda no autoconhecimento e a realizar questionamentos sobre a vida e os comportamentos. Por isso, esses indivíduos têm mais facilidade para se recordar dos sonhos.

Uma forma de estimular a memória é deixar perto da cama um caderno e logo que acordar anotar as imagens e narrativas que surgiram durante à noite. Isso ajuda a reconhecer os desejos e vontades que estavam no inconsciente.

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