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Medo ou fobia: quais as diferenças entre eles e como tratá-los?

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Heloísa Noronha

Colaboração para o VivaBem

04/12/2021 04h00

Podemos dizer que o medo nos ajuda a sobreviver. Afinal de contas, ele é uma manifestação do ser humano frente a situações novas, inusitadas e de perigo. Em exagero, no entanto, pode se transformar em algo patológico, principalmente se o medo envolve situações, animais ou objetos específicos. Neste caso, trata-se da fobia, que exige uma conduta própria.

Para saber como lidar com um e outro, é importante primeiro entender as diferenças. "O medo, em geral, garante a antecipação do risco. A pessoa localiza com alguma distância o objeto ou a situação de vulnerabilidade e tem um tempo, ainda que mínimo, para pensar num reposicionamento diante do que a ameaça", comenta a psicóloga Patrícia Bader, coordenadora do serviço de psicologia da Rede D'Or São Luiz, em São Paulo.

Ele é o resultado de várias ativações cerebrais que se adaptaram para reagir ao perigo e promover mudanças comportamentais, cognitivas e fisiológicas, explica Osmar Henrique Della Torre, psiquiatra da Clínica Ollden e coordenador do Departamento Científico de Psiquiatria da SMCC (Sociedade de Medicina e Cirurgia de Campinas).

Entram em ação áreas cerebrais como a ínsula, relacionada à capacidade de prever o que poderá acontecer, que auxilia na antecipação às consequências que um evento poderá trazer; o córtex cingulado anterior dorsal, que foca a atenção ao perigo, auxilia no aprendizado do medo e em comportamentos para evitar o estímulo nocivo; e o córtex pré-frontal dorsolateral, responsável por regular a emoção e a expressão das respostas fisiológicas do organismo e pela análise do ponto de vista cognitivo para enfrentar a situação em si, como pedir ajuda, correr etc.

Já na fobia, a exacerbação do medo nem sempre atende a uma lógica racional. "Isso não quer dizer, no entanto, que não haja um enredo histórico, situacional e inconsciente que justifique o quadro fóbico. Temos como exemplo um sujeito que pode ter uma fobia de lugares fechados. Mesmo sabendo que não corre risco estando num elevador, a manifestação psíquica surpreende pela intensidade", observa Bader.

Criança surpresa, assustada, chocada - Getty Images/iStockphoto - Getty Images/iStockphoto
Experiências traumáticas e negativas na infância aumentam o risco de a pessoa desenvolver algum tipo de fobia
Imagem: Getty Images/iStockphoto

Sintomas são parecidos

De acordo com a psicóloga Giovana Rossi Lenzi, chefe da equipe de psicologia do Hospital Santa Catarina, em São Paulo (SP), ao falar de questões de saúde mental, muitos sintomas são semelhantes, mesmo em diferentes dinâmicas e/ou diagnósticos. Sendo assim, alguns sintomas da manifestação do medo são:

  • Sensação de frio na barriga;
  • Sensação de mal-estar;
  • Sensação de falta de ar/sufocamento;
  • Tensão muscular;
  • Suores/tremores;
  • Taquicardia/palpitações elevadas;
  • Aperto no peito;
  • Sensação de urgência;
  • Contato com a possibilidade de finitude de si ou do outro;
  • Sensação de que algo ruim possa acontecer;
  • Sintomas elevados de angústia e ansiedade;
  • Tontura;
  • Náuseas.

Se a pessoa tiver alguma fragilidade orgânica anterior (enxaqueca tensional, gastrite nervosa ou alguma dor no corpo recorrente, por exemplo), é possível que tenha uma crise.

Já as manifestações da fobia incluem:

  • Sensação de paralisar, de que não vai conseguir enfrentar aquilo ou determinada situação;
  • Sensação de pânico e de morte iminente;
  • Todos os sintomas físicos sentidos em uma situação de medo se acentuam, às vezes de forma incontrolável, de modo que a pessoa às vezes pode ficar em estado catatônico e até necessitar de auxílio médico emergencial;
  • O curso do pensamento também fica incontrolável, com conteúdos em sua maioria negativos e catastróficos, o que torna muito difícil a habilidade em avaliar os riscos e mensurar se o que a pessoa está sentindo faz parte da realidade;
  • Há um impacto importante das funções cognitivas.

Origem na infância

Segundo Dalila Sousa de Castro, psicóloga clínica com especialização em TCC (terapia cognitivo-comportamental), de Lauro de Freitas (BA), as fobias geralmente são originadas na primeira infância, devido à imaturidade do cérebro, que ainda está em estágio de desenvolvimento, e à influência de fatores ambientais e genéticos.

Passar por experiências traumáticas e negativas na infância e apresentar predisposição ao comportamento ansioso aumentam o risco de a pessoa desenvolver algum tipo de fobia. Ela ocorre quando a pessoa acredita que determinada situação é muito perigosa para ela, mesmo sem ter evidências. É um medo exagerado que faz ela querer fugir deste fator e que gera extrema angústia". Dalila Sousa de Castro, psicóloga clínica com especialização em TCC (terapia cognitivo-comportamental), de Lauro de Freitas (BA), que atua na plataforma online Psicologia Viva.

Ela cita como exemplo o fato de os bebês serem mais sensíveis ao barulho. Então, se um cão latir muito e o acordar, o bebê pode começar a associar o latido do cachorro como sendo algo que lhe traga alguma ameaça ou perigo. "Há o risco de o latido do cachorro se tornar fóbico para esse bebê, algo que poderá gerar gatilho até a fase adulta. Surge um trauma e nem sempre a pessoa consegue recordar a existência dele", diz.

Todavia, vale salientar que muitas pessoas passam por momentos desagradáveis, mas nem todas desenvolvem algum transtorno fóbico. Um medo pode passar a ser uma fobia quando ele ganha proporções maiores do que deveria, gerando não só bloqueios, mas também prejuízos na vida da pessoa.

medo; angustia; assustado - iStock - iStock
Na fobia, a exacerbação do medo nem sempre atende a uma lógica racional
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Possíveis tratamentos

Inicialmente, o medo não deve ser tomado como patológico. Ele compõe a constituição psíquica de todo ser humano; a advertência diante do mundo é um fator constituinte. A fobia, porém, requer buscar um psicólogo e/ou psiquiatra para iniciar um tratamento, pois o transtorno pode comprometer a qualidade de vida nas áreas profissionais, pessoais e sociais, devido ao constante movimento de evitação. "Os sintomas devem atrapalhar a vida em diversos momentos e por um período de pelo menos 1 a 6 meses", avisa Della Torre.

Vícios, transtorno de ansiedade, pânico e depressão são algumas das complicações que podem ocorrer pela falta de encaminhamento. "As fobias são consideradas transtornos de ansiedade mais frequentes na vida dos indivíduos. Como existem diferentes níveis de ansiedade e modos de reagir diante das situações fóbicas, é preciso uma avaliação por profissional qualificado, para que seja feito o encaminhamento para que a pessoa possa se tratar de modo adequado", destaca a psicóloga Flávia Teixeira, mestre em saúde coletiva pela UFRJ (Universidade Federal do Rio Janeiro) e professora de pós-graduação em psicologia hospitalar na mesma instituição.

Os principais tratamentos para a fobia ocorrem por via psicoterápica e/ou medicamentosa. Os casos mais brandos não demandam a adoção de medicamentos, mas a psicoterapia é crucial para que os sintomas não se agravem.

A TCC é a terapia que apresenta melhores resultados nas estratégias efetivas para o tratamento das fobias, pois promove a reestruturação cognitiva. As técnicas utilizadas para o tratamento das fobias na TCC giram em torno da psicoeducação, da dessensibilização sistemática e da exposição ao vivo. O objetivo final do tratamento é que através da reestruturação cognitiva, o paciente identifique as suas crenças e pensamentos distorcidos que provocaram a avaliação distorcida da situação, para que o mesmo possa substituí-las por pensamentos mais assertivos", fala Dalila.

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