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Sintomas, prevenção e tratamentos para uma vida melhor


Ele teve câncer e congelou o sêmen para gerar filhos após a quimioterapia

Denise Paro, 43, e Fausto Paro, 46; ele congelou sêmen antes de passar pela quimioterapia para garantir que poderia ter filhos biológicos - Arquivo pessoal
Denise Paro, 43, e Fausto Paro, 46; ele congelou sêmen antes de passar pela quimioterapia para garantir que poderia ter filhos biológicos Imagem: Arquivo pessoal

Danielle Sanches

Do VivaBem, em São Paulo

30/11/2021 04h00

Aos 26 anos, Fausto Paro recebeu a notícia que ninguém quer ouvir: ele havia sido diagnosticado com câncer em um dos testículos. Entre o diagnóstico positivo e a cirurgia, foram apenas 40 dias. "Foi tudo muito rápido, muito mesmo", relembra.

O ano era 2001 e, naquela época, pouco se falava sobre preservação de fertilidade —feminina e, principalmente, masculina. "Eu não sabia nada do assunto, nunca tinha nem feito um espermograma para contar meus espermatozoides, para saber se tinha algo errado", afirma.

Fausto não está sozinho. Dados do Ministério da Saúde indicam que quase um terço dos homens não procuram auxílio na prevenção de doenças —o que inclui aí cuidados médicos envolvendo a saúde reprodutiva. O principal fator é o sociocultural, que impede que muitos homens busquem acompanhamento profissional ou tenham medo de descobrir alguma doença e serem julgados como fracos.

Por sorte, ele caiu nas mãos de um médico consciente que recomendou a ele buscar um especialista em reprodução humana antes de iniciar a quimioterapia. "Ele me explicou que a quimioterapia poderia afetar permanentemente a minha produção de espermatozoides e, por isso, era recomendado congelar o material para que eu pudesse gerar filhos biológicos no futuro", diz ele que, na época, nem pensava em ter filhos. "Eu só pensava em ficar vivo, em me curar", diz.

Após o congelamento de sêmen, Fausto seguiu com o tratamento quimioterápico. Foram quatro ciclos de tratamento e, ao final, o câncer havia entrado em remissão. Sua fertilidade, no entanto, acabou afetada de forma permanente e, se ele não tivesse preservado uma amostra de sêmen, não conseguiria mais ter filhos biológicos.

A doença, no entanto, havia sido vencida.

Novo casamento

Em 2011, Fausto conheceu Denise, sua atual esposa. Após alguns meses de namoro, Fausto abriu o jogo e falou sobre sua infertilidade. "Eu fiquei surpresa, pois nunca havia conhecido ninguém com essa condição", lembra ela. "Mas eu não sabia absolutamente nada sobre reprodução assistida, então eu fiquei tranquila, não dei importância", diz.

Em 2012, eles decidiram começar o tratamento para engravidar. Na época, Denise acreditava que seria simples. "Eu achava que era só fazer o processo todo que iria engravidar", afirma. Mas a história não foi bem essa.

Durante os exames, Denise, que tinha 34 anos na época, descobriu que tinha baixa contagem de óvulos. "Aquilo foi um choque para mim, nunca se falou sobre isso, eu achei que era só querer ser mãe que iria acontecer", relembra. Após a primeira rodada de tratamento, com poucos óvulos viáveis, a gestação não veio. "Foi frustrante, eu fiquei deprimida e muito frustrada", conta.

Mal sabia ela que a tão sonhada gestação ainda demoraria para chegar: ao todo, Denise passou por cinco tentativas de (FIV) fertilização in vitro em quatro anos, sempre retirando poucos óvulos de cada vez. "Foi um processo muito desgastante, frustrante, eu me questionava o tempo todo", diz.

Após a quinta tentativa, no entanto, eles conseguiram engravidar. "Foi muita alegria, senti felicidade, medo, tudo junto", conta ela, muito emocionada. Bento nasceu em março de 2016 "realizando os nossos sonhos", diz Denise.

Mas a história da parentalidade do casal ainda não havia terminado.

Denise e Fausto e família - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Denise com Arthur, de dois anos, no colo; enquanto Fausto segura Bento, de seis anos
Imagem: Arquivo pessoal

"Temos um bebê para vocês"

Entre a quarta e quinta FIV, já desanimados com tantas tentativas frustradas, Denise e Fausto decidiram entrar na fila da adoção. "Eu resisti no começo, queria engravidar, amamentar, passar por todas essas experiências. Mas mudei de ideia e decidimos entrar no cadastro", conta Denise.

Para Fausto, a ideia de adoção foi digerida mais facilmente. "Eu já sabia que seria mais difícil para mim por causa do câncer, tive muitos anos para entender que tudo bem adotar, seria algo natural", afirma.

Em dezembro de 2019, quase quatro anos após o nascimento de Bento, o fórum ligou avisando que havia um bebê para eles. "O Arthur tinha seis meses e estava para adoção. E era nossa vez", relembra Denise.

E, mesmo com expectativas e receios de como o mais velho reagiria, Arthur veio para a casa deles e hoje é parte da família. "Já temos a guarda definitiva. Hoje a nossa casa e nossa cama é cheia, nossa vida é cheia com a presença dos dois", conta, emocionada.

O que diz o especialista

Responsável pelo acompanhamento do casal durante a reprodução assistida, o médico urologista Daniel Zylbersztejn, diretor médico da CryoForLife e PHD em Medicina Reprodutiva, conta que é muito comum os pacientes homens chegarem à etapa de congelamento de sêmen desconhecendo a técnica.

Para ele, ainda existe um machismo estrutural que deixa a questão da fertilidade apenas para a mulher. "É como se a fertilidade masculina fosse um detalhe, algo menos importante do que a questão feminina", diz.

No entanto, ele lembra que câncer e outras condições de saúde, como doenças autoimunes, podem prejudicar tanto a produção como a qualidade dos espermatozoides, que podem se tornar incapazes de fecundar o óvulo feminino. "Hoje se fala mais, mas ainda não é tão divulgado que a quimioterapia, por exemplo, pode prejudicar a mobilidade dessas células masculinas, uma condição que pode ser transitória ou permanente", afirma.

O congelamento, então, é uma opção para garantir que esse material saudável seja preservado e possa ser usado no futuro. O preço, conta, é mais acessível do que no caso do congelamento de óvulos. "E o material pode ficar guardado por muitos anos, tempo indeterminado", afirma o especialista.

Para Zylbersztejn, não falar sobre a parte reprodutiva para um paciente oncológico nos dias de hoje é um erro médico. "O sucesso do tratamento depende também da qualidade de vida desse paciente e isso certamente inclui sua capacidade de ter filhos", acredita.