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Ama novidade e perde logo interesse pelas coisas? Talvez seja um neofílico

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Imagem: wayhomestudio/ Frepik

Isabella Abreu

Colaboração para o VivaBem

26/11/2021 04h00

Sabe aquele grupo de pessoas que não pode ver um lançamento de smartphone que já quer comprar? Se você faz parte dele, não está sozinho. Segundo a escritora americana Winifred Gallagher, grande parte das pessoas tem neofilia, um tipo de personalidade caracterizado por uma forte afinidade pelo novo.

Em seu livro New: Understanding Our Need for Novelty and Change (Novo: Entendendo Nossa Necessidade de Novidade e Mudança, sem edição em português), a autora conta que a neofilia se baseia nas "emoções do conhecimento": a surpresa, a curiosidade e o interesse pelas coisas do mundo.

Ela classifica nossa atração por novidades em três graus:

  • Neófobos: avessos às novidades e mudanças; fazem tudo da forma que já conhecem;
  • Neófilos: gostam de novidades, mas não são aficionados por elas;
  • Neofílicos: viciados em novidades, mas perdem rapidamente o interesse pelas coisas.

Neofílicos indisciplinados geralmente são pessoas inquietas, pulando entre projetos, saindo de empregos e mudando-se com frequência, além de serem obcecados por ter sempre os mais recentes dispositivos eletrônicos, por viver novas experiências ou por conhecer todas as informações possíveis sobre um assunto. Alguns de seus comportamentos mais característicos são: a capacidade de adaptação, a rejeição pela rotina e tradição, a tendência ao tédio e o inconformismo.

Mas isso não é de todo ruim. Do ponto de vista evolutivo, buscar novidades faz parte da estratégia de sobrevivência do ser humano, desde nossos ancestrais. "A capacidade de buscar novos alimentos, novos locais para moradia nos manteve vivos e, para além da sobrevivência, nos permitiu inovar e dominar o ambiente ao nosso redor", afirma Virgínia Chaves, neurocientista e membro da Sociedade Brasileira de Neurociências e Comportamento.

Para Milena Fernandes Mata, psicóloga da Vibe Saúde e pós-graduada em neuropsicologia pelo IPq-HCFMUSP (Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo), a vontade de conhecer o desconhecido é o que nos ajuda a nos desenvolver como pessoa e nos coloca em movimento. "Diante do novo, nosso sistema de recompensas é ativado e a substância dopamina é liberada, fatores que geram sensação de prazer e bem-estar e são reforçadores positivos para que procuremos novas situações que possam gerar tais sensações desencadeadas", diz.

Além disso, a mudança e a transformação são processos espontâneos da vida. "Mesmo quando não percebemos, estamos mudando. O novo em nossa vida é inevitável. Uma pessoa que busca de maneira mais consciente novas experiências sabe de antemão que a vida é impermanente. Aí, quando uma mudança significativa vier, é mais provável que ela saiba lidar melhor. É uma espécie de treino", diz Andreína Moura, psicóloga clínica e conselheira do Conselho Regional de Psicologia do Rio Grande do Norte.

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Neofílicos indisciplinados geralmente são pessoas inquietas, pulando entre projetos, saindo de empregos e mudando-se com frequência
Imagem: iStock

O problema é quando o interesse se esvai rápido demais

Uma das questões da neofilia é transformar muito rapidamente o novo em algo comum, tornando-o desestimulante e criando a necessidade da busca de um próximo alvo. "Se pensarmos que estamos vivendo uma era de alto e rápido acesso à informação, é necessário ter cautela com esse funcionamento para que a busca por novidade não passe a nos controlar", ressalta Milena.

Segundo ela, na necessidade da busca pelo novo, perdemos o que é importante pelo caminho. "O que antes era um prazer, passa então a ser um anseio, uma obsessão, podendo desencadear quadros psicopatológicos", diz.

A especialista também afirma que as pessoas que têm uma afinidade por novidades tendem a ser mais flexíveis, algo importante para diversas áreas da vida. Contudo, se o contato com o novo passa a ser algo excessivamente necessário, a flexibilidade poderá dar lugar à dificuldade em lidar com coisas rotineiras e repetitivas, o que também é fundamental em nossa vida.

"A rotina nos organiza e a repetição nos auxilia na aprendizagem. Não ter espaço interno para lidar com isso pode trazer prejuízos", diz. Por isso, vale refletir sobre qual é a sua relação com a novidade e pensar em sinais de alerta:

  • Você sente que está sempre perdendo algo e, por isso, não pode deixar de estar "conectado"?
  • Tem se sentido facilmente entediado? Se sim, isso tem angustiado você?
  • Está mais ansioso?
  • Tem se colocado em situações extremas e perigosas?

Se você respondeu sim a algumas dessas perguntas, pense sobre como percebe isso em sua vida, considerando sua frequência, intensidade e o impacto causado. Se trouxer muito sofrimento, é hora de procurar ajuda de algum psicoterapeuta.

Mulher indo às compras - iStock - iStock
Se a busca pelo novo está atrapalhando sua vida, é hora de procurar ajuda
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Como equilibrar vontade pelo novo com a rotina necessária

"Enquanto a exacerbação desse comportamento de ânsia por novidades pode gerar tendência à formação de vícios, o oposto pode gerar ansiedade extrema em situações novas", ressalta a neurocientista Virgínia Chaves. Ou seja, para obter o máximo benefício da busca por novidades, é importante manter o equilíbrio entre a mesmice e a mudança.

Como encontrar um grau saudável de neofilia? O primeiro passo, de acordo com a psicóloga Milena Fernandes Mata, é estar presente e verdadeiramente curioso sobre aquilo de novo que está diante de você. "Precisamos aprender a não só buscar a novidade, mas desprendermos tempo no prazer de conhecê-la".

Se está viajando e conhecendo um lugar diferente, explore o que está na sua frente e as minúcias que o traz, não veja novas experiências como um "check-list", se dê tempo para aproveitar. Ao aprender algo novo, se aprofunde, estude, faça novas pontes de aprendizagens que naturalmente trarão novos conteúdos. "Ser flexível é importante, contudo, a rotina também é fundamental, reserve um espaço para momentos de lazer e que podem estar atrelados a novas experiências, mas também aprenda a apreciar a beleza diária", sugere Mata.

Como disse a autora Winifred Gallagher, é importante se reconectar com o grande propósito evolucionário da neofilia: ajudar a aprender, criar e se adaptar a novas coisas que têm valor real, e descartar o resto como distrações.

E, se achar que a falta de novidade tem gerado sentimentos importantes de tédio, angústia e ansiedade e não tem conseguido lidar sozinho com isso, procure um profissional para conversar. Afinal, o novo pode até ser melhor do que o velho, mas não à custa de sua saúde mental.

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