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Práticas e atitudes para uma vida longa e saudável


Envelhecer é doença? Entenda diferença entre senescência e senilidade

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Colaboração para VivaBem

26/11/2021 04h00

O desejo de viver uma vida longeva é bastante comum. No entanto, muita gente teme adentrar a velhice por associar essa fase da vida a uma etapa de doença.

De fato, algumas pessoas vão chegar ao final da vida debilitadas e portadoras de doenças; o tema, aliás, já foi até analisado por um estudo famoso da revista científica The Lancet. O "Global Burden of Diseases" (Carga Global de Doenças, em tradução livre) faz um cálculo para chegar ao número de anos vividos por indivíduos com alguma deficiência. A última versão, de 2019, mostra que tem aumentado o período vivido doenças não-transmissíveis como diabetes, hipertensão e infarto, entre outras.

Mas é importante dizer que não, a velhice não é uma doença. Tanto que a SBGG (Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia) tem lutado para uma alteração no CID 11, que entrará em vigor em 2022 e inclui a classificação "MG2A - Velhice". Para Ivete Berkenbrock, geriatra e presidente da SBGG, isso não só colabora com o preconceito como prejudica a captação de dados epidemiológicos sobre o envelhecimento.

"Pessoas serão extremamente prejudicadas em contratação de planos de saúde, seguros e financiamentos pois podem ser consideradas portadoras de uma doença baseada exclusivamente em idade", lamenta.

No entanto, é importante dizer que a mudança pela qual o corpo passa durante esse processo pode, sim, tornar algumas patologias mais frequentes. Ao processo de envelhecimento associado a doenças damos o nome de senilidade. Já as mudanças naturais adquiridas com o avançar dos anos são chamadas de senescência. "São alterações próprias do envelhecimento como rugas, branqueamento dos cabelos, diminuição de estatura, entre outras", diz o geriatra Omar Jaluul, médico-assistente do Serviço de Geriatria do HC-FMUSP (Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo).

A questão é que muitas vezes esses processos se confundem. A memória, por exemplo, acaba sendo um pouco reduzida com a idade, mas esquecer-se ou atrapalhar-se com algo que já se sabia pode ser um sinal de problemas mais sérios. "Todas as vezes que houver comprometimento das atividades de vida diária, da autonomia e da independência, estaremos em face da senilidade", afirma a geriatra Maria Zali San Lucas, médica do HU-UFMA (Hospital Universitário da Universidade Federal do Maranhão) da Rede Ebserh (Empresa Brasileira de Serviços Hospitalares).

Para ajudar a entender melhor esses processos, os especialistas apontam as principais diferenças entre os dois processos. Confira:

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1. Cognição e memória

Quem nunca ouviu um idoso dizendo que a cabeça não é mais a mesma? Isso ocorre porque as alterações cognitivas são normais, já que há uma redução do número de neurônios e das sinapses do hipocampo. "É comum que se detecte uma menor prontidão da memória, lentidão em executar tarefas e nas reações, esquecimento de nomes com posterior lembrança, rememoração de fatos remotos com maior apelo emocional e até a repetição da mesma história para a mesma pessoa em diferentes ocasiões", lista Berkenbrock.

Ela reforça que isso só começa a ser preocupante quando as atividades básicas e instrumentais de vida diária começam a declinar ao ponto comprometer a logística da vida do indivíduo. "Muitas vezes não é tão fácil identificar uma perda de memória patológica, por isso é importante procurar um médico em caso de dúvida", diz Jaluul.

2. Sentidos

Começando pela visão, San Lucas reforça que é comum e esperado que com o tempo ocorra uma redução na acuidade visual, como redução da flexibilidade do cristalino (o que leva à presbiopia, conhecida também como "vista cansada") e diminuição da capacidade de contração muscular (prejudicando a visão periférica e a capacidade de reação da pupila para o controle da luz), entre outros.

Nos ouvidos, o tímpano também perde sua elasticidade, além da perda de flexibilidade dos ossículos do ouvido médio, o que compromete a audição. Já no nariz, há uma degeneração das células olfatórias, então perde-se também a capacidade de percepção do cheiro, o que também afeta o paladar.

Mais uma vez, essas alterações pedem acompanhamento médico adequado, e começam a se tornar patológicas quando prejudicam o dia a dia do idoso.

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3. Sistema cardiovascular

"Existem diversas mudanças nessa idade como endurecimento das artérias, calcificação das válvulas e alterações de frequência cardíaca, mas alterações como pressão alta, níveis de colesterol acima dos preconizados ou situações sintomáticas como dor e cansaço não fazem parte do envelhecimento normal", ressalta Jaluul.

Vale lembrar que os fatores de risco para o aumento das doenças cardiovasculares (alterações do colesterol e triglicerídeos, diabetes, vida sedentária e predisposição genética) são os grandes causadores de doenças do coração com a chegada da idade. "Mesmo assintomáticas, as pessoas devem fazer periodicamente avaliação de sua saúde como um todo", reforça Berkenbrock.

4. Sistema respiratório

A respiração também não é mais a mesma conforme envelhecemos. "O pulmão vai perdendo elasticidade e, portanto, diminui a capacidade de expiração e troca de oxigênio e gás carbônico. Consequentemente, a capacidade vital diminui, comprometendo o condicionamento físico e levando a um cansaço aos médios esforços", diz San Lucas. No entanto, isso não deve trazer problemas a situações de mínimo esforço, como pequenas caminhadas e ações do dia a dia.

Quando isso ocorre, é preciso investigar comprometimentos patológicos, tais como doenças pulmonares infecciosas e obstrutivas crônicas, que costumam estar ligados a maus hábitos de vida (tabagismo, sedentarismo e obesidade).

5. Mobilidade

Também é normal que o envelhecimento provoque uma perda de massa muscular geral e progressiva. "No entanto, dificuldade de andar, quedas ou dificuldade maior de se locomover podem representar alguma alteração patológica", alerta Jaluul. O normal é que a pessoa de idade, apesar de mais lenta, consiga ainda ter independência para se locomover e executar suas atividades diárias.

6. Aparência

A perda gradual de colágeno e o aparecimento de manchas e lesões verrucosas são alterações comuns na pele envelhecida. "Ela se torna mais rígida e frágil, com dificuldade de penetração de raios solares para a modulação de vitamina D e possíveis neoplasias", afirma San Lucas. As unhas, diz a especialista, também acabam mais enrijecidas, dificultando os cuidados e facilitando a contaminação por fungos.

Outra característica importante da aparência são as orelhas e nariz, que seguem em crescimento na idade adulta enquanto a estatura diminui —dando a impressão de serem maiores. Mas nada que cause dor, cansaço ou prejuízos para a qualidade de vida é normal. "Muitas alterações não fazem parte do envelhecimento e precisam ser investigadas", diz Berkenbrock.

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Pilares da velhice saudável

Mais importante que a idade no RG é a combinação de genética e estilo de vida, que deve ser levada em conta a vida toda. Alguns estudos mostram que a carga hereditária pesa entre 35 a 45% na nossa saúde. Se ela for desfavorável, o estilo de vida será o principal determinante para modificar o estado de saúde durante a velhice.

Ou seja, as estratégias de prevenção de doenças devem ser pensadas desde a infância, promovendo bons hábitos de vida, e continuadas e reforçadas durante toda a vida.

Por isso, de acordo com San Lucas, são quatro os fatores para prestar atenção:

  • Boa alimentação: com nutrientes que construam uma massa muscular eficiente e tragam vitalidade para o corpo como proteínas, vitaminas e fibras, além de uma boa hidratação;
  • Exercício físico: que movimente essa nutrição e deixem o corpo bem equilibrado, trazendo o condicionamento necessário para as atividades de vida diária;
  • Exercício cognitivo e lúdico: porque a saúde mental e cognitiva precisa estar preservada para comandar com autonomia o gerenciamento do envelhecimento natural;
  • Interação social: as trocas de experiências e o calor do afeto são cruciais para o sentir-se acolhido e integrante no contexto.

Parece simples, né? E é, mas exige preocupação e disciplina. "A adoção de estilo de vida saudável deve estar presente em todos os ciclos da vida, é uma poupança que o indivíduo faz, uma reserva de capital que será utilizada durante toda a vida", finaliza Berkenbrock.