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Idosas sambadeiras de Salvador ficaram desamparadas sem a dança na pandemia

Maria Clara Andrade

Colaboração para VivaBem, em Salvador

22/10/2021 04h00

Enquanto aguardam o ensaio começar, uma cutuca a outra. É fofoca de um lado, picuinha do outro, mas todas garantem que por ali não há confusão, são como uma família. A descrição pode até lembrar um encontro de adolescentes, mas nesse sofá todas as mulheres estão acima dos 60 anos. São as Sambadeiras de Cajazeiras, grupo de dança formado na periferia de Salvador, apenas com mulheres idosas.

Os encontros voltaram há pouco tempo, somente após a segunda dose da vacina contra a covid-19. Todas estão de máscara, exceto Valquíria, que sempre dava um jeitinho para deixá-la de lado. Com 89 anos recém completados, Valquíria é a mais velha do grupo e a que menos se abalou pela pandemia.

Para ela, a vida estava normal. Ia ao mercado do bairro quando o funcionário gritava da porta: "Dona Valquíria, cadê a máscara?" Esqueceu. A filha até tentava convencê-la a ficar em casa, mas Valquíria tem um gênio difícil. Conta que, depois que enviuvou, não dá mais satisfação a ninguém.

Para as outras sambadeiras, a história com a pandemia foi bem diferente. Sem poder sair de casa, mulheres que eram tão ativas sofreram com as restrições e com o medo. Ataque de pânico, depressão e ansiedade foram alguns dos sintomas citados. Uso de ansiolíticos, terapia online e até mesmo distração através do TikTok foram algumas das alternativas encontradas para combater a sensação de desamparo que a pandemia trouxe.

Sambadeiras cajazeiras de Salvador - Divulgação - Divulgação
Sambadeiras cajazeiras de Salvador
Imagem: Divulgação

Idosos e saúde mental

A Pesquisa Nacional de Saúde, levantamento feito em 2019 pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), mostrou que os idosos já eram os mais afetados pela depressão, com uma incidência de cerca de 13% na faixa de 60 a 64 anos. Com a pandemia, a situação se agravou.

Rita Cecília Reis, psiquiatra do Programa Terceira Idade do Instituto de Psiquiatria da USP (Universidade de São Paulo), notou uma maior frequência de sintomas relacionados à ansiedade, medo da morte, além dos sintomas depressivos, como desânimo, falta de motivação, tristeza e angústia.

"Alguns pacientes que estavam bem reapresentaram ou recaíram nesses sintomas e as pessoas que não tinham a doença começaram a ter sintomas ansiosos significativos, pânico, crise de ansiedade e também sintomas depressivos", afirma a psiquiatra.

Outras queixas comuns foram pacientes que chegaram relatando problemas de memória que, na verdade, estavam relacionados à desatenção causada pela ansiedade ou depressão.

Foi preciso parar

De volta à Bahia, no grupo das Sambadeiras de Cajazeiras está Sílvia de Assis. Aos 77 anos, Sílvia precisou fazer algo que nunca antes tinha feito: parar. Mesmo aposentada já há 15 anos, a rotina dela sempre foi agitada.

Ao se aposentar, começou a fazer caminhadas com as amigas, depois passou para a ginástica e então conheceu a dança. Com a chegada da pandemia e os insistentes avisos de 'fique em casa', Sílvia se viu em um momento de desamparo e profunda tristeza.

Sambadeiras cajazeiras de Salvador - Divulgação - Divulgação
Imagem: Divulgação

Sílvia chegou ainda a ter sensação de febre, mesmo com o termômetro dentro da normalidade. Foi parar na emergência duas vezes, tendo recebido crise de ansiedade como diagnóstico. Ela sentia muita vontade de chorar e, às vezes, a vontade era de abrir a porta de casa e sair correndo. Pensava o tempo todo na família e nos vizinhos. Tinha muito medo. Quando conta hoje o que sentiu para as colegas, quase sempre recebe como resposta um: "Ah, eu tive isso também."

A busca por ajuda médica é fundamental para que o quadro não se agrave. André Gordilho, psiquiatra especialista em psicogeriatria, afirma que o ideal é ficar atento às mudanças no padrão de comportamento da pessoa. Se houver algo de diferente, então é melhor procurar ajuda.

"Como é a linha basal daquele idoso? Ele sempre funcionou daquela maneira? Ou sempre foi de uma maneira e de repente ele começa a mudar?", explica, e ainda dá mais um alerta para que essas mudanças de comportamento não sejam vistas como normais simplesmente "porque a pessoa é idosa."

TikTok como distração

Enquanto Sílvia passava os dias em casa se ocupando dos afazeres domésticos e assistindo à televisão, Nely Ribeiro, 67, também integrante das Sambadeiras de Cajazeiras, encontrou na internet uma forma de se distrair. Em sua conta no TikTok posta vídeos dançando, brincando com filtros e fazendo algumas das famosas "trends". Faz tudo sozinha, mas confessa que já está na hora de voltar às aulas do curso de informática para o qual havia se inscrito antes da pandemia.

Nely já era adepta da terapia. Quando as restrições de isolamento chegaram, se viu sem a dança, sem o pilates e sem os encontros com a psicóloga, ou seja, tudo o que a mantinha nos eixos. Mas, graças à internet, Nely descobriu a terapia online em uma rede social. Ela considera não ter se deprimido. Os momentos de tristeza são comuns, é claro, mas tendo se "reinventado", como ela mesma diz, ficou mais fácil passar por eles.

O reencontro das Sambadeiras

Maria do Carmo de Jesus, 67, estava esperando pelo ensaio quando perguntamos se ela gostaria de ser entrevistada para essa reportagem. De imediato, disse que não. Mas foi só ouvir as outras falarem que se levantou e mostrou exatamente sobre o que o grupo se tratava. Começou a sambar.

Junto com outras duas integrantes, Maria do Carmo é uma das pioneiras no grupo. Dança há mais de 30 anos quando fazia parte de uma turma de dança do ventre. Quando a professora precisou parar de dar aulas, Maria do Carmo ficou órfã da dança, mas não por muito tempo. Conheceu as Sambadeiras de Cajazeiras e por lá mesmo ficou.

Sambadeiras cajazeiras de Salvador - Divulgação - Divulgação
Imagem: Divulgação

O grupo foi criado em 2004 por Edson Souto, idealizador de diversas atividades culturais no subúrbio de Salvador. As Sambadeiras de Cajazeiras surgiu com o nome de Balé da Melhor Idade. A mudança de nome veio recentemente, quando o grupo estava fazendo diversas apresentações e precisava de um título que chamasse mais atenção.

Já a ideia de criação do grupo veio depois que a avó de um dos integrantes do "Balé da Comunidade", projeto social também liderado por Edson Souto, questionou a falta de uma atividade voltada para os idosos.

Com cerca de 20 integrantes fazem parte das Sambadeiras, mulheres de 60 a 89 anos. Uns problemas de joelho aqui, outros ali, mas todas carregam a mesma vitalidade. Os ensaios das Sambadeiras de Cajazeiras acontecem duas vezes na semana, nesses encontros a turma espanta os males da velhice com o samba de roda da Bahia.

Clarcson Plácido, coordenador do curso de educação física da Escola Bahiana de Medicina e Saúde Pública, recomenda a dança como um dos melhores tipos de atividade física para idosos, pois além dos benefícios à saúde, há ainda o estímulo à sociabilidade.

Ainda não sabemos se há uma chave para manter-se eternamente jovem, mas buscar atividades que estimulem a sensação de prazer é um bom começo. "O envelhecimento traz consigo alterações nas funções fisiológicas do organismo humano, contudo envelhecer fisicamente ativo preserva várias dessas funções", afirma Plácido.

Além disso, segundo o mestre em educação física, a atividade física reduz a velocidade dos efeitos degenerativos provocados pelo envelhecimento quando comparado a quem se mantém inativo fisicamente.

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