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Vidas invalidadas: saúde mental de negros e LGBTQIA+ é pauta prioritária

Lia Rizzo

Colaboração para VivaBem

21/10/2021 04h00

Jovens negros têm 45% mais riscos de desenvolver depressão que brancos. Entre homossexuais, a probabilidade de cometer suicídio é cinco vezes maior comparado a alguém heterossexual. O preconceito afeta diretamente a autoestima dessa população por trazer sentimentos de inferioridade e inadequação.

Portanto, é urgente falar sobre a saúde mental de minorias, tanto entre pessoas negras, como também LGBTQIA+, refugiados e mulheres. E este foi o foco do painel "Como o preconceito afeta a saúde mental", durante a 2ª Semana de Saúde Mental realizada por VivaBem na última semana.

"Quão estressante é não poder viver com espontaneidade, não poder demonstrar afeto por quem você ama, não poder entrar nos estabelecimentos sem ter que imaginar o que a outra pessoa vai pensar e por isso você tem que agir antes?", questionou a psicóloga Roberta Federico, mestre pela UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro) e estudiosa do impacto do racismo na saúde mental da população negra, durante a conversa mediada por Samuel Gomes, escritor e consultor de diversidade, que teve participação também de Bruno Branquinho, psiquiatra e professor do curso de Saúde LGBT da Faculdade de Medicina do Hospital Albert Einstein (SP), e Marcela McGowan, ginecologista e autora do livro "Senta que nem moça".

Samuel Gomes - Mariana Pekin/UOL - Mariana Pekin/UOL
Samuel Gomes, consultor de diversidade, foi o mediador do painel
Imagem: Mariana Pekin/UOL

Existências invalidadas

Em complemento à reflexão de Roberta, Bruno atentou para as dificuldades que populações minorizadas já vivenciam cotidianamente, sem segurança de seus direitos básicos. "É um grupo sujeito a mais violências e restrições. E isso tem custo, impacta diretamente a saúde mental dessas pessoas que não tem ao menos suas existências validadas", disse o psiquiatra.

Considerando o contexto político e social atual, o psiquiatra ponderou que houve avanços nas discussões sobre racismo, identidade sexual e de gênero. "Por outro lado, temos enfrentado muito retrocesso e hoje o preconceito é bem menos velado em algumas áreas", pontuou.

Bissexual, Marcela McGowan lembrou a experiência —e o temor que sentiu— de falar sobre sua sexualidade em público, ao participar de um reality show, o BBB, em 2020. Porém, além de reconhecer seu espaço de privilégio como mulher branca, a médica contou com muito acolhimento —o que ajudou muito em seu processo de aceitação. Acolhimento este, que veio principalmente por parte de sua família.

Quando não há essa postura de quem deveria te acolher, que é a sua família, o processo de fato fica ainda mais difícil psicologicamente. Marcela McGowan

Dores emocionais, sintomas físicos

Em função de basicamente impor um estado de hipervigilância mesmo que inconsciente, o preconceito causa sintomas físicos ao corpo. E não somente estresse e ansiedade crônicos pela sensação de nunca relaxar, mas efeitos como taquicardia, sudorese e alteração da respiração. Quem explica é Roberta Federico, que em sua clínica atende majoritariamente a pacientes negros.

As dores emocionais causadas pelo racismo, que se manifesta das mais diversas formas, acompanham pessoas negras da infância até a vida adulta. E é esta a parcela da população que enfrenta mais obstáculos para acessar tratamentos adequados, tanto na esfera pública, onde faltam políticas focalizadas, quanto no atendimento particular, em que ainda são escassos os profissionais de psicologia e psiquiatria que se aprofundam no entendimento dos impactos do racismo na saúde mental. Portanto, essa precisa ser uma discussão prioritária entre profissionais de saúde e aliados na luta antirracista.

Saúde mental em foco

A 2ª Semana da Saúde Mental VivaBem tem como objetivo estimular que as pessoas falem abertamente sobre transtornos mentais, pois esse é o primeiro passo para tratar esses problemas e trilhar o caminho do equilíbrio. Ela começou no último dia 14 de outubro, com um evento ao vivo, que debateu em 5 painéis temas como o impacto da pandemia na saúde mental do brasileiro, luto, depressão, ansiedade, saúde mental dos jovens e como o preconceito aumenta o risco de transtornos.

O evento pode ser assistido na íntegra aqui. A 2ª Semana da Saúde Mental VivaBem tem o patrocínio de Libbs Farmacêutica.