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Cuidar da mente para uma vida mais harmônica


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Internet não faz mal, mas, sim, o que se deixa de fazer para estar online

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Imagem: iStock

Bruna Alves

De VivaBem, em Porto Alegre*

07/10/2021 16h34

É fácil encontrar quem afirme que não conseguiria mais viver sem internet. Mas o que a torna tão irresistível, por que as pessoas deixam de viver a realidade para emergir num mundo virtual?

Especialmente os adolescentes usam as redes sociais para namorar, jogar, ler notícias, encontrar pessoas e fazer novos "amigos". O problema, porém, é que os especialistas dizem que isso não traz uma alegria genuína, apenas uma recompensa satisfatória imediata.

De acordo com Analice Gigliotti, psiquiatra e professora da PUC-Rio (Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro), a internet em si não faz mal, ao contrário —o aceso facilitou, e muito, a vida das pessoas, principalmente, das empresas. Mas as redes sociais em excesso são tóxicas e podem acarretar uma série de problemas na saúde mental.

"Antigamente, você assistia a uma novela, conversava, participava de um jogo, mas tudo acabava. Já as redes sociais, não", disse a especialista durante o 38º Congresso Brasileiro de Psiquiatria, em Porto Alegre (RS), nesta quinta-feira (7). O problema sempre é o excesso, as coisas que você deixa de fazer para ficar conectado.

    Por que não traz felicidade?

    "O medo de 'estar por fora' é o que faz a garotada viver conectada. Mas vale dizer que quanto maior é o uso de mídia social, maiores os problemas de depressão", afirma Gigliotti.

    Prova disso foi na semana passada quando houve "pane" e Facebook, Instagram e WhatsApp ficaram fora do ar por horas. O desespero tomou conta de alguns, sobretudo dos mais jovens.

    Um estudo realizado com 8,2 milhões de adolescentes americanos com idades entre 13 e 18 anos reforçou que com o passar dos anos, as redes ficam mais presentes na vida dessa população. A pesquisa foi feita entre 1976 e 2017.

    Os resultados sugerem que a interação social presencial diminuiu, enquanto o uso da mídia digital cresceu. Até aqui, nenhuma novidade. Mas além disso, os pesquisadores afirmaram que o sentimento de solidão dos participantes aumentou drasticamente após 2011.

    Além disso, há um desejo, uma busca por perfeição, em mostrar coisas que não remetem a realidade. A partir do momento que uma jovem manipula alguma parte de seu corpo numa rede social, é sinal de que ela está com problemas para lidar com a realidade, o que segundo as especialistas, é um problema psíquico.

    Se você tiver dificuldade para se afastar do celular, sentir a necessidade constante de usá-lo, fica irritado em locais sem acesso a internet: cuidado, são sinais de dependência.

    Qual é a diferença entre hábito e vício?

    O vício prejudica a saúde mental em vários aspectos - iStock - iStock
    O vício prejudica a saúde mental em vários aspectos
    Imagem: iStock

    Você costuma escovar os dentes todos os dias, certo? Mas e se um dia você demorar ou simplesmente não escovar? Nesse caso, estamos falando de um hábito, que você consegue mudar, se for da sua vontade.

    Já o vício foge do controle, mesmo que você não queira, acaba fazendo. O vício gera uma dependência e nos priva da própria liberdade de escolha.

    Essa dependência pode vir acompanhada do sentimento de tensão ou de prazer ao realizar o que queria, preocupação constante, perda de tempo significativa, ou seja, a pessoa deixa de fazer algo importante para permanecer em frente as telas e agitação, caso não faça sua vontade.

    Dependências químicas e comportamentais

    Júlia Machado Khoury, psiquiatra pela UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais), especialista em psicogeriatria, dependência química, dependências comportamentais, tecnológicas, dependência de smartphone e terapia cognitivo-comportamental diz que, embora não seja reconhecido no Brasil como doença, a dependência comportamental é uma patologia que, inclusive já foi reconhecida em países como Japão e China.

    Durante palestra no congresso, a especialista disse que colocou uma mensagem no WhatsApp: "Estou no congresso, por favor não envie mensagens, só se for em casos urgentes". O pedido, porém, não foi atendido, contou aos risos.

    "Quando deu pane no WhatsApp, fiquei aliviada porque poderia me dedicar a qualquer outra coisa a não ser responder pacientes", disse Khoury.

    As principais dependências comportamentais são por:

    • Jogos;
    • Sexo;
    • Trabalho;
    • Tecnologia (internet, celular, videogame);
    • Compras.

    Em relação à internet, de forma geral, as principais dependências são os jogos eletrônicos, busca por informações e redes sociais. De acordo com a psiquiatra, a maneira mais fácil de identificar um transtorno é quando há prejuízos e sofrimento.

    "Os comportamentos que causam dependência liberam uma maior quantidade de dopamina, e isso faz com que o cérebro fique ávido cada vez mais por essa grande quantidade", explicou Khoury em entrevista a VivaBem.

    Por isso, as coisas do dia a dia que davam prazer, passam a não dar mais, porque as drogas e esses comportamentos dependentes dão muito mais prazer e fazem com que o cérebro fique viciado na quantidade de dopamina.

    "Só que quando libera dopamina na área de prazer, também libera dopamina no córtex pré-frontal do cérebro, região usada para controlar os impulsos, adiar as recompensas, deixar de fazer uma coisa que dá prazer agora em prol de um benefício maior no futuro, por exemplo, eu trabalho agora para receber o dinheiro depois", exemplifica a psiquiatra da UFMG.

    E quando as drogas e os comportamentos liberam dopamina no córtex pré-frontal, o excesso desse hormônio faz com que essa região específica não atue tão bem. Em outras palavras: a pessoa não consegue controlar mais os impulsos da mesma forma que controlava antes.

    "Isso aumenta mais ainda o risco de dependência com internet, smartphone, jogos eletrônicos, um pouco menos intenso, mas da mesma forma que as drogas (substâncias químicas) também fazem. Estudos já comprovaram isso", diz Júlia Machado Khoury.

    "Pessoas mais ansiosas ou que não estão tendo recompensas no dia a dia são mais propensas a desenvolver dependência de tecnologia. A terapia cognitiva ajuda no controle desse tipo de dependência", indica Khoury.

    Entre os prejuízos acumulados gerados pelo uso excessivo de celulares ou similares estão: distúrbio do sono, sintomas ansiosos e depressivos, dificuldade de concentração, dificuldades acadêmicas, dores ao realizar atividades físicas, comportamentos agressivos, e por aí vai.

    Veja dicas para manter o controle do uso de celulares:

    • Use aplicativos que bloqueiem o uso excessivo;
    • Tire as notificações da tela;
    • Carregue o aparelho longe de você;
    • Deixa o celular em um ambiente diferente ao que você está.

    Já quanto às crianças e adolescentes, cabe aos pais impor limites. "É importante sempre controlar o conteúdo, mas estudos já mostraram que atividades acadêmicas, por mais que sejam 'recompensadas', a recompensa é menor", lembra a psiquiatra da UFMG.

    Carla Bicca, psiquiatra especialista em dependência química, reforça que a internet deve ser usada de maneira inteligente, e claro, sem prejudicar a saúde mental ou gerar dependência.

    "Cocaína, álcool e maconha nós conseguimos tirar da vida do sujeito e ele viver sem. Hoje, nós não podemos tirar 100% a internet", disse Bicca.

    Para ela, o problema é que as pessoas não estão preparadas para o uso da internet. "Ninguém se torna dependente por fazer pesquisas. A nova geração vê conteúdos substanciais", avalia. "Para o bom uso da internet, ele tem que ser preventivo", conclui.

    Fontes: Analice Gigliotti, psiquiatra, professora da PUC-Rio (Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro), mestre em medicina (área de concentração psiquiatria) pela USP (Universidade de São Paulo), especialista e pesquisadora em temáticas como dependência química, chefe do setor de Dependências Químicas e Comportamentais do Serviço de Psiquiatria da Santa Casa de Misericórdia do Rio de Janeiro, diretora da Associação Psiquiátrica da mesma cidade e vice-coordenadora do departamento de Dependência Química da ABP (Associação Brasileira de Psiquiatria). Internacionalmente, é membro do the Mental Illness Prevention Center, Substance Abuse Section da New York University; e do Public Relations Commitee da International Society for Addiction Medicine; Carla Bicca, psiquiatra, terapeuta cognitiva, especialista em dependência química e membro do Departamento de Dependência Química da APRS (Associação de Psiquiatria do Rio Grande do Sul); e Júlia Machado Khoury, psiquiatra, mestre em medicina molecular pela UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais), pós-doutoranda em medicina molecular na UFMG, perita, pesquisadora do Núcleo de Pesquisa em Vulnerabilidade e Saúde, coordenadora da residência em psiquiatria forense do HC-UFMG, membro titular da ABP, professora adjunta do curso de medicina da FASEH (Faculdade da Saúde e Ecologia Humana) e do curso de medicina da Faminas (Faculdade de Minas).

    *A repórter viajou a convite da ABP (Associação Brasileira de Psiquiatria).

    Vem aí a 2ª Semana da Saúde Mental VivaBem

      Na pandemia, a saúde mental do brasileiro piorou. Incertezas e mudanças na rotina geradas pelo coronavírus, o isolamento social, o sedentarismo, entre outras situações, resultaram no aumento do estresse, da ansiedade e de outros transtornos.

      O Brasil, que antes da pandemia já era o primeiro em casos de ansiedade do mundo, tornou-se o país com maior número de deprimidos na quarentena. Falar sobre o assunto é o primeiro passo para tratar esses problemas e encontrar equilíbrio mental.

      É o que vamos fazer na 2ª Semana VivaBem da Saúde Mental, que será iniciada com um evento ao vivo, exibido no dia 14/10, a partir das 14h, no Youtube e no Canal UOL. Com apresentação da jornalista Mariana Ferrão, o evento terá cinco painéis, em que psicólogos, psiquiatras e convidados especiais vão falar sobre saúde mental sem tabu.

      Confira aqui a programação completa do evento e fique de olho no Instagram do VivaBem para saber mais sobre a 2ª Semana VivaBem da Saúde Mental, que tem patrocínio de Libbs Farmacêutica.

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