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Caso raríssimo, homem no Ceará tem sangue U negativo e ajuda a salvar vidas

Carlos Madeiro

Colaboração para VivaBem, em Maceió

22/09/2021 04h00

O motorista Gildásio Costa, 41, mora em Fortaleza e sempre doou sangue. Há quatro anos, porém, sua rotina de doador mudou por completo: ele descobriu ser portador de um tipo de sangue raríssimo classificado como U negativo.

"Fui convidado para participar de um evento que ia homenagear doadores, em 2017. Nesse dia, a médica me contou que eu tinha esse sangue raro. Fiquei surpreso na hora", conta.

A médica que o procurou foi Denise Brunetta, diretora de hemoterapia do Hemoce (Hemocentro do Ceará). Hematologista e doutora em ciências médico-cirúrgicas, ela conta que desde que Gildásio descobriu ter esse tipo de sangue passou a integrar uma seleta lista de pessoas doadoras apenas para quem tem o mesmo tipo de sangue que ele.

"Esse tipo de sangue é raríssimo. Aqui fazemos, todos os dias, cerca de 50 avaliações desde 2013. São oito anos, e só achamos 12 pessoas com o mesmo tipo. É um sangue tão raro que de vez em quando nós temos demandas de pacientes com sangue igual ao dele de outros estados", afirma.

Desde que descobriu a raridade, foram cinco doações, sempre sob demanda. Duas vezes a doação ocorreu para um mesmo paciente, de Minas Gerais, que também tem sangue U negativo e recebeu a doação como parte do tratamento de leucemia.

Gildásio costumava doar com frequência até descobrir ter sangue U  - Elígia Cavalcante/Reprodução/Governo do Ceará - Elígia Cavalcante/Reprodução/Governo do Ceará
Gildásio costumava doar com frequência até descobrir ter sangue U
Imagem: Elígia Cavalcante/Reprodução/Governo do Ceará

Surgimento e riscos

Denise Brunetta explica que tipos de sangue raros, em regra, vêm de herança dos pais. "Normalmente nosso sangue é determinado por um processo hereditário. Um pai ou uma mãe podem portar um gene heterozigoto, que é o gene anormal. Quando os dois têm genes heterozigotos, há possibilidade de aproximadamente 25% de um filho ter o sangue raro", afirma.

Antes de ter o sangue raro identificado, Gildásio era classificado como O positivo. "Quando a gente olha o sistema ABO e o fator Rh, o sangue dele é normal, tipo O. Mas quando avaliamos mais a fundo, vemos que ele não tem dois antígenos; e não tem um terceiro, que vem vinculado a esses dois", explica.

Nós temos mais de 350 tipos diferentes de antígenos —que são pedacinhos do glóbulo vermelho. Na falta de um ou mais deles, ao receber uma transfusão de sangue com todos os antígenos, a pessoa pode sofrer uma reação, devido à criação de anticorpos.

"Há duas possibilidades de reação do anticorpo criado, que vai lá e destrói a hemácia: ela pode ser mais grave, ocorrendo nas primeiras 24 horas; ou gerar a hemólise tardia, quando há uma destruição depois das 24 horas, mais lenta. No segundo caso a pessoa pode ter sintomas, ficar ictérico, mas o problema tende a ser um pouco mais leve", diz.

Casos mais problemáticos

Segundo Denise Brunetta, o tipo de sangue de Gildásio não causa alteração hematológica e ele pode ter uma vida normal. "Se a gente não analisassese seu sangue, provavelmente ele nunca saberia da alteração", afirma.

Entretanto, existem alguns sangues raros que são associados a anemias mais crônicas. Há também casos raros como o sangue dourado (de Rh nulo) e o bombaim (falso O).

Nesses casos, há problema de receber sangue em uma emergência porque eles já têm anticorpo formado. No caso do Gildásio, a formação de anticorpo só ocorre em uma transfusão, ou —em caso de mulheres— em uma gestação. Formando o anticorpo, pode vir a ter uma reação grave.

Doação de sangue - jat306/iStock - jat306/iStock
Imagem: jat306/iStock

Vida normal e trabalho no Hemoce

Gildásio garante que não tem qualquer problema de saúde e leva uma vida normal. "Sou totalmente saudável", diz.

Ele lembra que a primeira vez que doou sangue tinha 19 anos. "Foi para a mãe de um amigo meu, e desde lá nunca mais parei", diz.

Fico feliz em ajudar. A gente se sente bem com a doação e, depois que descobri o meu caso, fiquei ainda mais contente porque posso ajudar de maneira ainda mais direta.

Há seis anos, de doador, ele passou a ser funcionário do Hemoce. "Hoje sou motorista. Dirijo carros, van e até o ônibus de coleta que temos, com muito orgulho", explica.

Gildásio hoje é motorista  do Hemoce - Helene Santos/Governo do Ceará - Helene Santos/Governo do Ceará
Gildásio hoje é motorista do Hemoce
Imagem: Helene Santos/Governo do Ceará

Saber é importante

A preocupação no Brasil com o tema é recente. O Cadastro Nacional de Sangue Raro, criado pelo Ministério da Saúde com informações de doadores cadastrados nos hemocentros públicos do país, não tem sequer uma década de vida.

"Essa busca é fundamental para o atendimento dos pacientes com sangue raro. Há tempos existe um registro internacional de sangues raros, com todos os tipos e nomenclaturas já encontrados. O Brasil começou só em 2013 esse registro nacional. Nem todos os hemocentros dos países fazem essa busca rotineira", afirma Denise.

Por conta do baixo número de pessoas cadastradas e raridade de casos, os portadores desse sangue não devem doar sangue sem uma demanda solicitada.

Essas pessoas são muito especiais. Mesmo que queiram doar sempre, é importante que se poupem, fiquem saudáveis para que, algum dia, em caso de necessidade, possam doar. Por exemplo: se ele tivesse doado há um mês e precisasse fazer hoje uma doação para um portador igual a ele, não poderia.

O intervalo mínimo para doações de sangue é de 90 dias.

Outro ponto que ela considera importante é que familiares de pessoas com sangue raro busquem os hemocentros para fazer testes. "Se seu irmão tem sangue raro, o seu sangue pode ser também. Essa busca familiar é muito importante", pontua.

O exame para saber se você tem um sangue raro pode ser feito no hemocentro do seu estado. Busque informações para saber se ele é feito na sua cidade.

Para doar sangue são necessários os seguintes requisitos:

  • Ter entre 16 e 69 anos (pessoas com mais de 60, porém, só poderão doar se já tiverem feito isso antes);
  • Pesar mais de 50 kg;
  • Apresentar documento oficial com foto --menores de 18 anos só podem doar com consentimento formal dos responsáveis;
  • Estar alimentado (evite comidas gordurosas nas três horas que antecedem a doação de sangue);
  • Ter dormido pelo menos 6 horas nas últimas 24 horas.

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