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Pouco prevalente, melanoma ocular pode levar à remoção total do olho

Camila Zanco foi diagnosticada com melanoma ocular - Arquivo pessoal
Camila Zanco foi diagnosticada com melanoma ocular Imagem: Arquivo pessoal

Bárbara Therrie

Colaboração para VivaBem

20/09/2021 04h00

Sem apresentar nenhum sintoma, Camila Zanco, 27, médica gáucha, descobriu quase que por caso ter um câncer raro no olho, que atinge por ano aproximadamente 5 a cada 1 milhão de pessoas: o melanoma ocular.

Ao "estrear" o novo plano de saúde, Camila foi ao oftalmologista checar o grau da miopia. O profissional notou algo "estranho" no olho esquerdo, fotografou, filmou e uma semana depois chamou Camila de volta ao consultório para dizer que ela tinha uma pinta no olho (cujo termo técnico é nevo) e algumas características que apontavam algum tipo de malignidade.

"O médico disse que discutiu o meu caso com um oftalmo-oncologista, que indicou a necessidade de fazer alguns exames complementares para fechar o diagnóstico de melanoma ocular. Nesse momento, meu mundo caiu, minhas pernas afrouxaram e comecei a chorar. Dois dias antes, havia levado uma paciente com melanoma de pele para a UTI e ela não resistiu", lembra Camila, que recebeu a notícia sobre seu estado de saúde no final de 2020.

O que é o melanoma ocular?

O melanoma é um tumor maligno que surge das células produtoras de pigmento (melanócitos) localizadas em várias regiões do corpo e são responsáveis pela coloração da pele e dos olhos. Quando esse tipo de tumor afeta o olho, é chamado melanoma ocular e pode afetar tanto a parte externa (pálpebras, conjuntiva e órbita), como a parte interna do olho, denominado assim intraocular (trato uveal - íris, corpo ciliar e coroide).

"Os melanomas oculares correspondem a cerca de 5% de todos os melanomas que afetam o corpo e cerca de 85% destes ocorrem no trato uveal", explica Cecília Cavalcanti, oftalmologista do Hospital de Olhos de Pernambuco e da Fundação Altino Ventura, e especialista nas áreas de oncologia ocular, uveítes e ultrassonografia ocular.

Camila Zanco 4 - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Olho de Camila Zanco que tem o melanoma
Imagem: Arquivo pessoal

Ainda de acordo com Cavalcanti, os fatores de risco considerados para o desenvolvimento do melanoma ocular podem estar relacionados ao indivíduo: pessoas de olhos e pele claras, com dificuldade de se bronzear; como também ao ambiente, como a exposição intermitente a luz ultravioleta, entre outros.

Os sintomas variam de acordo com a localização da lesão. A maior parte dos casos de melanoma intraocular podem ser assintomáticos nos estágios iniciais da doença, como aconteceu com Camila. Os pacientes sintomáticos podem se queixar de embaçamento na visão, alteração no campo visual, visualização de flashes de luz e pontos pretos flutuando na visão.

O diagnóstico é feito por meio do exame oftalmológico completo com uma avaliação que observa desde o grau, pressão ocular, as pálpebras, conjuntiva, íris e a região interna do olho. É importante realizar a dilatação das pupilas para o mapeamento total da retina.

Além disso, outros exames complementares, como a ultrassonografia ocular, ajudam no diagnóstico e na definição de algumas características do tumor.

Diagnóstico precoce é sempre o desafio

Marli Motta - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Marli Motta tem um nevo no olho que tem que ser monitorado para não virar um melanoma
Imagem: Arquivo pessoal

Como em qualquer tipo de câncer, o diagnóstico precoce favorece um melhor prognóstico. "Nosso objetivo é fazer o diagnóstico da menor lesão possível e, com isso, diminuir o risco de o paciente apresentar a doença metastática que, infelizmente, ainda não tem um tratamento muito eficaz", alerta Rubens Belfort Neto, médico do departamento de oftalmologia da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo), e que tem doutorado e pós-doutorado em oftalmologia. O melanoma intraocular pode causar metástase no fígado.

Há 20 anos, Marli Motta, 42, corretora de seguros de Santo André (SP), descobriu que tem uma pinta (um nevo na coroide) no olho esquerdo, e desde então, faz acompanhamento. Em 2019, ela, que usa óculos desde os 12 anos, teve dois episódios em que ficou com a visão totalmente embaçada, distorcida, como se enxergasse através de uma gotícula de água.

Ela procurou a oftalmologista que a tratava, mas por uma questão de agenda, só conseguiu ser atendida meses depois quando já apresentava dificuldades para enxergar. Novos exames indicaram um crescimento no tamanho da pinta do olho e Marli recebeu o diagnóstico de lesão melanocítica indeterminada.

Neto, oftalmologista da Unifesp, explica que em quadros como esse é feito um protocolo de exames e acompanhamento da lesão melanocítica indeterminada, se for detectado crescimento, o diagnóstico de melanoma é confirmado e o tratamento deve ser realizado.

Apesar do susto e do medo, Marli comemora a descoberta da lesão no começo: "Diagnóstico precoce salva vidas".

Doença pouco prevalente = menos especialistas

Camila Zanco 3 - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Camila teve que se deslocar do RS para SP para realizar o tratamento
Imagem: Arquivo pessoal

Com a confirmação do diagnóstico do melanoma ocular, Camila teve que se deslocar do interior do Rio Grande do Sul a São Paulo para fazer o tratamento, uma vez que não há centro de referência na doença por lá. A residente de clínica médica passou por três hospitais até achar a equipe que a acolheu. Em fevereiro de 2021, ela fez a braquiterapia ocular.

Cavalcanti explica que o tratamento varia de acordo com a localização e extensão do tumor. Em tumores pequenos e médios, a braquiterapia é o tratamento padrão ouro. É feito um procedimento cirúrgico para colocação de uma placa com sementes radioativas em contato direto com o olho no local da lesão e que é removida após alguns dias.

O tratamento tem uma taxa de controle do melanoma de cerca de 95% e permite que o paciente preserve seu globo ocular e, em alguns casos, a acuidade visual.

"A cirurgia para retirada do tumor geralmente é indicada para os melanomas palpebrais e conjuntivais. Já nos melanomas uveais muito grandes, com quadro de dor intensa, acuidade visual ruim e desorganização das estruturas do olho, a melhor escolha é a realização da enucleação, que consiste na retirada completa do globo ocular, realizando a reconstrução da cavidade e colocando um implante que, posteriormente, permitirá a adaptação de uma prótese de aspecto similar ao olho", complementa a especialista.

"A cirurgia para retirada de tumor de pálpebra, de conjuntiva, e a enucleação, estão disponíveis pelo SUS (Sistema Único de Saúde). A braquiterapia costuma ter cobertura por alguns planos de saúde, mas é pouco disponível pelo SUS, pela alta complexidade do tratamento e relativa raridade do melanoma ocular", diz Rubens Belfort Neto, ex-presidente da Sociedade Panamericana de Oncologia Ocular.

"Infelizmente, parte da nossa população tem dificuldade de comprar um remédio que o médico receita. Imagina fazer um tratamento cirúrgico oncológico. Acho que isso não é só do câncer ocular, é de qualquer tipo de câncer. O tratamento particular para câncer de mama, próstata, pulmão e pele também é inacessível para boa parte da população, que na maioria das vezes depende do SUS", pondera Neto. O melanoma ocular tem cura, mas necessita do tratamento local e acompanhamento pelo resto da vida.

Todos os exames e consultas de Marli, até então, estão sendo feitos na rede particular com reembolso do convênio. "Por enquanto está funcionando bem, estou seguindo o protocolo médico e torcendo para que a lesão não vire um melanoma ocular."

Recuperada da cirurgia, mas ainda em tratamento, Camila criou o perfil @visaoporoutrosolhos em que mostra sua rotina para pessoas com o mesmo diagnóstico e troca experiências.

"Queria poder mostrar que é possível levar tudo com leveza e alegria, mesmo estando com medo. Depois de um diagnóstico como esse, a gente vê a vida com outros olhos, por isso escolhi o nome da conta como 'visão por outros olhos'. A vida é uma só, e quando nos damos conta disso, passamos a aproveitar de uma forma especial cada minuto do nosso dia, fazendo o que gostamos e com as pessoas que amamos ter por perto".

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