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Antidepressivo parece promissor contra a covid, mas estudo tem limitações

Anadolu Agency/Colaborador Getty Images
Imagem: Anadolu Agency/Colaborador Getty Images

Giulia Granchi

Do VivaBem, em São Paulo

01/09/2021 09h53

Mesmo com a chegada das vacinas contra a covid-19, continua a busca por um remédio capaz de tornar a infecção pelo coronavírus (Sars-CoV-2) mais branda. Uma de tantas substâncias estudadas para isso atualmente é a fluvoxamina. Indicada no tratamento da depressão, do TOC (transtorno obsessivo compulsivo) e de transtornos de ansiedade, a droga funciona como um inibidor seletivo de recaptação de serotonina (neurotransmissor conhecido como 'hormônio da felicidade'), ou seja, aumenta a quantidade da serotonina no cérebro e no corpo.

Pesquisas feitos em ratos já apontaram que isso seria capaz de reduzir a inflamação sistemática moderada no organismo, que ocorre em infecções leves (resfriados, por exemplo). Como a inflamação sistêmica é uma das condições responsáveis pelo agravamento da covid-19, pesquisadores decidiram testar o remédio contra a doença.

Um novo estudo, publicado como pré-print (ainda sem a chamada revisão de outros cientistas não envolvidos na pesquisa e publicação em revista científica, o que garante a qualidade das informações), avaliou o uso da substância poucos dias após pacientes testarem positivo para a covid-19. As pessoas foram divididas em dois grupos: 739 receberam a fluvoxamina e 733 tomaram um placebo.

Os resultados mostram que os pacientes que receberam o medicamento tiveram 31% menos probabilidade de acabar hospitalizados, além de ter menor risco de precisar de ventilação mecânica, em comparação ao grupo placebo. Os resultados são promissores, mas é preciso cautela, já que o estudo ainda não foi publicado e tem limitações, conforme explicaram especialistas ouvidos pelo VivaBem.

O método científico é bom, aponta a médica intensivista cardiologista Viviane Cordeiro Veiga, coordenadora de UTI da BP - A Beneficência Portuguesa de São Paulo, que analisou o pré-print em conjunto com Alexandre Biasi, diretor de pesquisa do HCOr. O estudo é randomizado (pacientes foram colocados aleatoriamente nos diferentes grupos) e duplo-cego (nem os pesquisadores, nem os pacientes sabiam quem usou o medicamento e quem usou placebo).

A principal limitação, diz Rachel Riera, professora adjunta da disciplina de medicina baseada em evidências da EPM-Unifesp (Escola Paulista de Medicina da Universidade Federal de São Paulo), é o efeito da intervenção —ou seja, o efeito real do medicamento. Como desfecho primário do estudo, os autores usaram um desfecho combinado: eles consideram como hospitalização tanto os pacientes que foram internados quanto os que passaram mais de seis horas em observação no hospital.

"O que acontecesse com essa pessoa já seria considerado nos resultados como um evento (hospitalização) e isso é preocupante, por serem casos que têm gravidades diferentes [observação e internação]. A avaliação é que são coisas diferentes que foram somadas como um desfecho único, provavelmente para aumentar o poder do estudo", analisa a professora adjunta da EPM-Unifesp.

"Avaliados separadamente, os desfechos combinados —ou seja, só a internação ou só a observação— aparentemente não resultaram em um benefício com a droga", complementa.

Como um remédio que age no cérebro protege o corpo todo?

Outra limitação apontada é que o pré-print não dá muitas respostas sobre como um medicamento que age no cérebro seria capaz de "combater" inflamações no corpo todo e reduzir sintomas provocados por um vírus, como acontece na covid-19.

"Falta um racional científico, ou seja, algo que justifique por que uma droga que é um inibidor da recaptação da serotonina está sendo usada. Precisamos saber onde exatamente ela agiria. Se não, a gente poderia começar a testar qualquer coisa contra a covid-19, de dipirona a alho", explica Riera.

Luiz Guilherme de Siqueira Branco, que é professor da Forp (Faculdade de Odontologia de Ribeirão Preto da USP) e atua na área de fisiologia com ênfase no controle da ventilação pulmonares e nas respostas fisiopatológicas frente à inflamação sistêmica, contou ao VivaBem que a mesma pergunta sobre como um remédio que age no cérebro combateria a inflamação no corpo todo foi feita pelos referees —os "juízes"— que avaliaram uma revisão de estudos feita por seu grupo no ano passado, que investigou o uso de medicamentos psiquiátricos para tratar a covid-19. Os resultados foram publicados no European Journal of Pharmacology.

Há 5 anos, conta o professor, outra pesquisa da Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo) avaliou se o processo de inflamação sistêmica poderia sofrer alguma alteração com menos ou mais quantidades de serotonina no organismo. "Naquela época, não tínhamos nem ideia do que acontece com a produção do neurotransmissor quando se tem doença inflamatória", diz.

Nessa pesquisa, fazendo uma inflamação induzida com parte de uma bactéria, a serotonina foi reduzida em ratos. Depois, os cientistas testaram o caminho contrário: será que a gente revertendo essa redução com serotonina exógena, ou seja, adicionada, seria possível aliviar o quadro inflamatório? "Em inflamações sistêmicas bem moderadas, como cistite e resfriado leve, vimos que sim", explica Branco.

Estudo foi interrompido antes da hora

A terceira limitação apontada por todos os médicos consultados é o fato de que o estudo foi interrompido antes da hora por superioridade. Em análises científicas, isso ocorre quando há certeza de que o desfecho da intervenção escolhido para a investigação funciona do ponto de vista prático.

O problema, no caso do pré-print, explica a professora da Unifesp, é que o desfecho não era tão relevante.

"Se o desfecho primário escolhido fosse observar mortalidade e houvesse detecção de uma taxa muito superior de mortalidade no grupo que não tomou o remédio, isso me dá a prerrogativa para interromper o estudo para poder oferecer o tratamento também pro grupo que recebeu o placebo [e assim salvar mais vidas]."

Na nova análise, aponta a especialista, o fato de ter reduzido a internação ou o tempo de observação no hospital não significa que os pacientes morrerão menos, terão menos intubações ou sequelas —ainda não há uma resposta definitiva.

Mas as limitações apontadas não significam que o estudo não é válido. A conclusão da análise de Veiga e Biasi, entrevistados por VivaBem, é que a pesquisa serve para orientar outros estudos com a droga.

"Neste momento ele não é realmente forte ao ponto de eu começar a prescrever o medicamento para pacientes com covid-19, mas é um estudo que inicia uma conversa para vermos o que vem daqui para frente e esperar a revisão por pares", diz Veiga.

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