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Estudo liga risco de covid grave e morte a obesos de todos os graus

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Imagem: iStock

Carlos Madeiro

Colaboração para VivaBem, em Maceió

30/08/2021 10h30

Pessoas com obesidade em qualquer grau, mesmo leve, têm pelo menos 32% mais chance de morrer com covid-19 que uma pessoa não obesa. O resultado consta em um estudo inédito publicado por pesquisadores brasileiros da Rede CoVida no periódico inglês BMJ (British Medical Journal), avaliando 21 mil internações de pessoas a partir de 20 anos no Brasil até o dia 9 de junho de 2020.

Para chegar aos números, a pesquisa avaliou os registros de 8.848 adultos e 12.945 idosos no Sivep-Gripe (Sistema de Informação de Vigilância de Gripe), do Ministério da Saúde, que notifica casos e óbitos de SRAG (Síndrome Respiratória Aguda Grave) e covid-19. Todos os pacientes selecionados internados tinham teste RT-PCR positivo.

"Nas análises por grau de obesidade não observamos muita diferença na prevalência de desfechos adversos, exceto para a prevalência de óbito que aumentou com a gravidade da obesidade", diz o artigo, o primeiro publicado descrevendo —em análise de grande escala— a relação entre obesidade e covid-19 no Brasil.

A OMS (Organização Mundial de Saúde) classifica a obesidade em três níveis, definidos pelo IMC (índice de massa corporal):

  • Não-obeso - < 30
  • Obesidade grau 1 - 30 a 34,9
  • Obesidade grau 2 - 35 a 39,9
  • Obesidade grau 3 (ou mórbida) - 40

Para saber o seu IMC, basta fazer uma conta simples: divida o peso (em kg) pela altura ao quadrado (em metros).

Em todos graus, segundo o estudo, houve mais mortes entre obesos adultos que no público geral, crescendo de acordo com a faixa de IMC:

  • Obesidade grau 1 - 32% (mais mortes que não obesos)
  • Obesidade grau 2 - 41%
  • Obesidade grau 3 - 77%

"Embora se saiba que o IMC não faz distinção entre massa gorda e magra e, portanto, pode levar a viés de classificação incorreta, o IMC tem se mostrado um forte preditor de excesso de gordura corporal e tem sido amplamente utilizado em estudos epidemiológicos", ressalta o artigo.

Para os pesquisadores, o resultado pode ajudar a orientar o PNI (Plano Nacional de Imunizações), que hoje prevê como grupo prioritário somente as pessoas com obesidade grau 3.

"Com estas evidências, é esperado que todas as pessoas com obesidade, independentemente do grau de severidade, idade e existência de outras comorbidades, sejam incluídas no grupo prioritário para vacina contra a covid-19", afirma Natanael de Jesus Silva, um dos autores do estudo.

Mais mortes entre idosos

Segundo o estudo, levando em conta a idade, a morte de adultos com obesidade foi 33% maior que os não obesos. Entre os idosos, essa prevalência é ainda maior e chega 67%.

"A obesidade por si só parecia oferecer maior risco de resultados graves, especialmente morte, em idosos", reforça o artigo.

Segundo Aline Rocha, doutoranda em nutrição e uma das pesquisadoras que assinam o artigo, o resultado do estudo já era esperado pelo que era visto na prática.

"A gente não sabia mensurar quanto, mas a gente sabia e esperava que a obesidade apresentasse um número maior de desfecho morte —e foi o que aconteceu. E quanto mais obeso, maior é essa prevalência, sozinha ou combinada com outras comorbidades", explica.

Se associada a outras comorbidades, os números ficam ainda piores. Por exemplo: no caso de adultos obesos com diabetes ou doença cardiovascular, a pesquisa encontrou uma prevalência de ventilação mecânica invasiva 3,76 vezes maior do que entre não obesos; e de morte, 1,79 vez maior.

Quando temos outro fator de risco associado à obesidade, esse paciente vira uma espécie de 'bomba' de risco. Por exemplo: a diabetes já é ruim; mas quando tem diabetes e obesidade é pior ainda.

De acordo com o último boletim do Ministério da saúde, publicado em 20 de agosto, a obesidade foi apontada como comorbidade associada a 41 mil óbitos de covid-19 desde março de 2020, com maior número absoluto entre adultos do que idosos.

Boletim de 20 de agosto, do Ministério da Saúde, mostra mais mortes de obesos adultos que idosos - Reprodução/Boletim do Ministério da Saúde - Reprodução/Boletim do Ministério da Saúde
Boletim de 20 de agosto, do Ministério da Saúde, mostra mais mortes de obesos adultos que idosos
Imagem: Reprodução/Boletim do Ministério da Saúde

Um dos fatores que ajuda a entender esse resultado é que há muito mais pessoas obesas jovens do que velhas, até por conta da menor expectativa de vida de quem tem obesidade. No estudo, por exemplo, entre os 21 mil casos analisados, a prevalência de obesos entre adultos internados foi de 9,7%; já entre idosos, esse percentual cai para 3,5%.

"Isso é da fisiologia do próprio idoso. Quanto mais idoso, maior a chance de ser desnutrido. Por isso o maior percentual de obesos adultos", explica Aline.

Problemas ligados à obesidade

Ainda no artigo, os pesquisadores tentam explicar a relação entre obesidade e agravamento da covid. Para eles, o maior peso pode causar descompensação glicêmica e pode reduzir a elasticidade do tórax —condições que dificultam a respiração.

Eles afirmam ainda que obesidade é associada à apneia do sono e à doença pulmonar obstrutiva —que impedem o bom funcionamento dos mecanismos de ventilação.

Outro ponto é o comprometimento da resposta imune, que torna o indivíduo mais vulnerável a infecções e com menos respostas a medicamentos antivirais.

Para Aline Rocha, o resultado da pesquisa deve servir de alerta sobre os riscos da obesidade.

"Ela reforça a importância da questão da prevenção da obesidade de uma forma geral, e não só para a covid. A gente sabe que ela está associada a outras doenças crônicas: quem é obeso tem maior chance de ter diabetes, hipertensão, doenças cardiovasculares. E a gente viu como essa combinação agravou muito os casos de covid. O Brasil vive uma epidemia de obesidade e isso é preocupante", finaliza.

Errata: o texto foi atualizado
A versão inicial desse texto dizia que para calcular o IMC era preciso dividir a altura pelo peso vezes dois. Na verdade, o cálculo é feito dividindo o peso (em kg) pela altura ao quadrado (em metros). A informação foi corrigida.

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