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Com hérnia de disco e muitas dores, ele usou eletroestimulação como aliada

Bárbara Therrie

Colaboração para VivaBem

29/08/2021 04h00

Com uma hérnia de disco, Alexandre Lamas, 46, gerente de logística, acumulou durante anos muitas dores e uma complicação que o fez perder o movimento do pé esquerdo. Após fazer três cirurgias e terapias convencionais, ele utilizou a eletroestimulação como recurso para sua reabilitação. Conheça a história dele e mais sobre o método.

"Em fevereiro de 2017, fui diagnosticado com hérnia de disco. Segundo o médico, meu caso era cirúrgico, mas havia a opção de fazer o tratamento com fisioterapia, RPG, hidroginástica e pilates. Durante seis meses fiz essas terapias, mas fui piorando com o tempo. Não conseguia ficar em pé e nem sentado por muito tempo, tinha dificuldades para andar, não tinha uma posição confortável.

A pior parte eram as dores, cada dia era num lugar: quadril, coxa, perna, costas. Essas limitações impactavam diretamente minha vida.

No trabalho, era gerente de logística, mas como a mobilidade ficou comprometida, tive que me adaptar e fazer serviços administrativos. Na vida social, evitava ir a shoppings e restaurantes. Vivia irritado, estressado e ansioso por causa da dor.

Chegou um ponto em que ela se tornou tão insuportável e incapacitante que recorri à cirurgia e fiz a primeira em agosto de 2017 para a retirada da hérnia. Fiquei 45 dias bem, mas após esse período a hérnia voltou e, com ela, as dores.

Alexandre Lamas usou eletroestimulação como reabilitação de hérnia de disco - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Imagem: Arquivo pessoal

No início de 2018, minha vida deu uma virada. Após voltar da licença médica, fui demitido da empresa, me casei, mudei para o interior de São Paulo e abri uma franquia do segmento de logística em parceria com o meu marido.

Ainda sentia dores, mas nessa época deixei meu problema de saúde de lado e foquei no tratamento de câncer do meu companheiro. Quatro meses após nos casarmos, ele faleceu. Voltei a morar na casa dos meus pais em São Bernardo do Campo (SP).

Em maio de 2019, tive uma das piores crises, fui pegar alguma coisa no chão e travei a coluna, não conseguia me mexer. Meu irmão e meu sobrinho me levaram ao hospital, tomei medicação e recebi alta. No dia seguinte, acordei sem movimento e controle do pé esquerdo, o que causou uma falta de equilíbrio e firmeza da perna.

Tomei um susto, mas imaginei que alguma coisa tivesse saído do lugar e que seria ajustado quando fosse ao osteopata. Fiquei quase uma semana sem movimentar o pé e usando muleta para me locomover até chegar o dia da sessão.

Ao me examinar, o osteopata disse que não era uma questão física ou muscular, ele suspeitava que fosse algo neurológico e me indicou procurar um neurocirurgião. Um tempo depois, a suspeita dele se confirmou. Fui ao pronto-socorro e o médico que me atendeu disse que a hérnia afetou o nervo tibial frontal, responsável pelo movimento da dorsiflexão.

Fiquei com a sequela da síndrome conhecida como pé caído, não consigo levantar a ponta do pé. Essa sequela dificultava a marcha, não conseguia caminhar, meu pé virava, eu caía, tropeçava.

Segundo o médico, tinha que ter sido operado em até 72 horas após o episódio em que não senti o pé pela primeira vez. Uma nova cirurgia até poderia devolver parcialmente os movimentos, mas não seria 100%. Isso me deixava muito angustiado, pensava no preconceito das pessoas e na dificuldade em achar emprego naquela condição.

A partir daí começou a minha saga para conseguir passar com um especialista. Como estava desempregado e sem convênio médico, tive que recorrer ao SUS e briguei com a prefeitura e com a secretaria de saúde da minha cidade em busca de atendimento com um neurocirurgião.

Passava meus dias na cama com dor e a base de morfina, não tinha qualquer perspectiva de melhora e não sabia se recuperaria o movimento do pé. Após meses, consegui uma vaga para fazer tratamento em um hospital estadual. Fiz uma segunda cirurgia, mais complexa, para a retirada da hérnia e colocação de uma prótese.

Na mesma semana tive problema com o dreno e fiz mais um procedimento cirúrgico. Recuperei 10% da mobilidade, mas queria mais.

Alexandre Lamas usou eletroestimulação como reabilitação de hérnia de disco - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Imagem: Arquivo pessoal

Fiquei de repouso por 90 dias e comecei a fazer a fisioterapia quando veio a pandemia e o atendimento no hospital que oferecia esse serviço foi suspenso por meses. Fazia em casa os exercícios que tinha aprendido, mas era algo paliativo. Minha reabilitação ficou prejudicada. Meus amigos fizeram uma vaquinha e fiz 10 sessões de fisioterapia numa clínica particular.

As coisas começaram a mudar e a melhorar quando uma mulher ouviu uma conversa minha com uma amiga em um ambulatório e disse que havia tido o mesmo problema que eu: perdido o movimento de um dos pés. Ela disse que recuperou o movimento com a eletroestimulação e perguntou se eu conhecia esse tipo de método em que a pessoa treina com um colete e eletrodos espalhados pelo corpo. Disse que não, mas fiquei empolgado com essa nova possibilidade.

Pesquisei sobre a eletroestimulação e seus benefícios, estava disposto a tentar, mas o empecilho era o preço, não tinha condições de pagar, era muito caro. Entrei em contato com uma das academias que oferecia esse tipo de treino, contei a minha história, desde o diagnóstico, complicações, morte do meu marido, desemprego.

Pedi uma vaga a eles e, em troca, me coloquei à disposição para ser um estudo de caso. Passei por algumas avaliações, eles se solidarizaram e me deram o apoio que pedi. Fui liberado pelo meu ortopedista para fazer o treino.

Alexandre Lamas usou eletroestimulação como reabilitação de hérnia de disco - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Imagem: Arquivo pessoal

Hoje em dia, faço 20 minutos de eletroestimulação duas vezes por semana. Na primeira etapa do treinamento focamos na recuperação, força muscular e equilíbrio. Hoje em dia ele é voltado para o fortalecimento da lombar e dos movimentos dos membros inferiores. Já executo exercícios como agachamentos e abdominais e treino no mesmo nível dos outros alunos.

Em três meses de tratamento, alcancei 98% de sucesso: não sinto mais dores, recuperei o controle e a firmeza do movimento da perna esquerda, caminho sem o auxílio da muleta e da órtese. O próximo passo é tentar recuperar o movimento da dorsiflexão do pé esquerdo.

A eletroestimulação foi um diferencial na minha reabilitação. Estou a cada dia construindo uma evolução, não sei se vou atingir 100%, mas já estou feliz de ter minha saúde, qualidade de vida, confiança e autoestima de volta. Sou grato ao meu cirurgião, ao fisioterapeuta e ao instrutor que me ajudaram, me acolheram e me fizeram acreditar que o limite é somente uma barreira que somos capazes de vencer."

1) O que é e para que serve a eletroestimulação?

A eletroestimulação de corpo inteiro ou EMS (do inglês, Electro Muscle Stimulation) é uma metodologia que utiliza correntes elétricas para causar contrações involuntárias diretamente sob a musculatura. A tecnologia envolve o uso de colete com eletrodos, localizados nos principais grupos musculares, e um terminal onde é feito o controle da intensidade. O manuseio desse terminal é feito por um profissional de saúde, que pode ser um fisioterapeuta ou um profissional de educação física.

As correntes elétricas que estimulam os músculos no processo de contração simulam o que seriam contrações voluntárias em outros exercícios físicos, como por exemplo, a musculação que utiliza cargas externas para atingir esse mesmo objetivo. O profissional aplica no terminal a intensidade de carga do paciente/aluno de acordo com uma escala de percepção de esforço, conhecida como escala de Borg. O treino de EMS tem duração de 20 minutos e não utiliza peso.

2) Quais os benefícios da eletroestimulação?

Ela auxilia no ganho de força muscular, aumento da massa magra, capacidade física de forma geral, tonificação muscular, redução de dores musculares e emagrecimento. A eletroestimulação também pode ser usada como opção de tratamento de algumas doenças, como condromalácia patelar, artrite, artrose, protusão discal, hérnias, entre outras. No entanto, é importante ressaltar que a liberação deve ser feita pelo médico ou equipe que acompanha o paciente.

3) Para quem a eletroestimulação é indicada?

A eletroestimulação é indicada para a maioria das pessoas, principalmente para aquelas que precisam ou desejam fortalecer os músculos. As fibras musculares ativadas durante o treino são mais difíceis de serem recrutadas e são responsáveis pela resposta muscular de força, como levantar, agachar, se equilibrar, o que torna o método interessante aos idosos, por exemplo, que sofrem de uma condição chamada de sarcopenia (perda da massa muscular).

Importante ressaltar que o método é contraindicado para pessoas com hérnias umbilicais, doenças cardiovasculares, epilepsia, gestantes, lactantes, indivíduos com distúrbios hormonais, esquizofrenia ou pessoas com doenças de pele.

4) Quais os cuidados e os riscos a se ter com a eletroestimulação?

A eletroestimulação é um método de alta intensidade e, como qualquer treino desse tipo, causa impactos fisiológicos que necessitam de descanso e alimentação adequada para recuperação correta. Qualquer sobrecarga maior que o corpo aguente pode gerar impactos negativos no organismo, como o aumento da CPK (enzima presente na musculatura esquelética, no cérebro e coração) na corrente sanguínea. Como a CPK é filtrada nos rins, seu excesso causa uma sobrecarga renal. Por isso, o intervalo entre os treinos da eletroestimulação deve ser maior para que ela seja removida da corrente sanguínea.

Fonte: Rodolfo de Oliveira, profissional de educação física e instrutor de eletroestimulação na Tecfit, unidade de Santo André (SP).

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