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Ela engravidou aos 41, e filho nasceu com cardiopatia congênita rara

Bárbara Therrie

Colaboração para VivaBem

08/08/2021 04h00

Fernanda Pereira da Silva Cruz, 42, analista de sinistros, recebeu com surpresa e alegria a notícia de que estava grávida do primeiro filho aos 41 anos de idade. Ao longo da gestação, ela teve que lidar com algumas notícias inesperadas: havia suspeita de que Guilherme tivesse síndrome de Down, e foi confirmado que ele tinha uma cardiopatia congênita grave e rara que poderia levar ao hipodesenvolvimento do pulmão devido ao aumento do coração.

"Minha gravidez não foi planejada, como já tinha 41 anos imaginei que se um dia quisesse engravidar precisaria fazer algum tratamento, mas não precisei, ela veio de forma espontânea.

A gestação foi tranquila até a 12ª segunda semana, quando fiz o primeiro ultrassom morfológico e foi constatada uma alteração na transluscência nucal. Por conta dessa alteração e também pela minha idade, a médica disse que o risco do meu filho nascer com síndrome de Down era alta.

Ela orientou a fazer a amniocentese para confirmar qual síndrome era, mas como o procedimento era invasivo, existia o risco de aborto e isso não mudaria o possível diagnóstico, eu e meu marido optamos por não realizar e aguardar o nascimento do bebê.

Nossa primeira reação foi de susto, mas como seria nosso primeiro filho, tivesse ele a síndrome ou não, seria um desafio de qualquer jeito.

Na 16ª semana, fizemos um ultrassom para saber o sexo do bebê e recebemos mais uma notícia ruim. Havia a suspeita de que o Guilherme tivesse uma cardiopatia congênita, uma anormalidade na estrutura ou na função do coração.

Fiquei um pouco preocupada, mas achei que seria algo simples, uma arritmia, que precisaria ser monitorada e nada mais. Como já tinha lido que muitas crianças com síndrome de Down têm alguma cardiopatia, cheguei a ter certeza que o Guilherme tinha mesmo a síndrome.

Fernanda Pereira da Silva Cruz teve filho com cardiopatia congênita - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Imagem: Arquivo pessoal

Algumas semanas depois fiz o ecocardiograma fetal, que confirmou que o Guilherme tinha uma cardiopatia grave incompatível com a vida. O médico suspeitava que fosse anomalia de Ebstein. Ele não tinha certeza se seria possível ou não fazer cirurgia, mas nos aconselhou a procurar um especialista em medicina fetal.

Ficamos tristes, mas nem tivemos muito tempo de sofrer porque iniciamos uma corrida contra o tempo para tentar achar uma equipe que pudesse tirar todas as nossas dúvidas.

Na semana seguinte, descobrimos que meu bebê tinha uma atresia pulmonar associada, a válvula que ligava o coração ao pulmão não existia e, por esse motivo, o sangue teria dificuldade de ser oxigenado.

A pressão para encontrar uma equipe só aumentou. Durante quase três meses fomos em vários hospitais e passamos em diversos médicos, cardiologista, cirurgião, obstetra, mas nenhum deles tinha o conhecimento necessário para nos ajudar.

Eles viam os exames, diziam que era muito grave, que eles não tratavam esse tipo de caso, que eu precisava achar um hospital com suporte para o parto e não sabiam responder se era possível ou não fazer a cirurgia.

Com 30 semanas de gestação, finalmente encontramos uma equipe especializada em medicina fetal que pegou o nosso caso. Eles não descartaram a anomalia de Ebstein, mas trabalharam com a hipótese de ser outra cardiopatia, só teriam certeza quando abrissem o coração.

O médico nos deu uma injeção de ânimo e esperança ao falar que não só era possível fazer a cirurgia, como o Guilherme faria duas, inicialmente.

Primeiro, ele explicou que, por conta da atresia pulmonar, assim que nascesse meu filho já tomaria medicação para o sangue ser oxigenado. A previsão era de que uma semana após o parto ele faria o primeiro procedimento, que seria a colocação de um tubo para melhorar a oxigenação do sangue e reduzir o átrio direito, que era gigante.

Com cinco meses de vida, ele faria a segunda cirurgia. Ficamos felizes com a possibilidade de salvar a vida do Guilherme, ele tinha sido desenganado pelos outros médicos.

Fernanda Pereira da Silva Cruz teve filho com cardiopatia congênita - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Imagem: Arquivo pessoal

No final da gestação precisei ser internada por causa de pressão alta e por um quadro de anemia. No dia 18 de outubro de 2020, o Guilherme nasceu com 2 kg e 43 cm. Foi especialmente emocionante ouvi-lo chorar e poder vê-lo após o parto, foi um milagre para mim. Após ser examinado e fazer o cariótipo, foi constatado que meu filho não tinha nenhuma síndrome.

Nove dias depois do parto ele fez a primeira cirurgia, deu tudo certo. Descobriram que a cardiopatia congênita que ele tem é a displasia tricúspide, tão grave quanto a que eles suspeitavam. Ele ficou 55 dias internado, teve algumas intercorrências dentro do esperado, mas a recuperação foi boa e ele recebeu alta no dia 12 de dezembro.

Fernanda Pereira da Silva Cruz teve filho com cardiopatia congênita - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Imagem: Arquivo pessoal

A rotina em casa com ele foi tranquila, a única coisa é que ele tomava medicação e ficava um pouquinho roxo quando tomava banho ou quando ficava mais agitado.

Com cinco meses e meio ele voltou para o hospital para fazer o segundo procedimento cirúrgico, a plastia da válvula tricúspide. A cirurgia foi um sucesso e a recuperação mais rápida, ele ficou 12 dias internado.

É provável que o Guilherme precise fazer um terceiro procedimento até os 5 anos de idade, mas até agora ele tem se desenvolvido muito bem. Passado a fase turbulenta da gestação e das cirurgias, agora estamos curtindo cada etapa da vida no nosso filho".

Saiba mais sobre cardiopatia congênita

Cardiopatia congênita é uma anomalia na estrutura do coração ou do aparelho cardiocirculatório que ocorre nas primeiras oito semanas de gestação, quando se forma o coração do bebê.

As causas que levam ao desenvolvimento da cardiopatia congênita podem ser multifatoriais, como doenças maternas, hipertensão arterial sistêmica, diabetes mellitus, doenças infecciosas (rubéola, sífilis), uso de medicamentos, de drogas, alterações cromossômicas, como síndrome de Down e síndrome de Edwards, além de antecedente familiar de cardiopatia, isto é, pais cardiopatas têm risco duas vezes maior de gerar um feto cardiopata.

Os sintomas podem variar, desde casos assintomáticos, que muitas vezes podem ser diagnosticados apenas na idade adulta, até cardiopatias críticas, que descompensam nas primeiras horas de vida. Pode ocorrer desconforto respiratório de vários graus (leve, moderado ou grave) até a franca insuficiência respiratória, aumento da frequência cardíaca, pressão arterial baixa, aumento da área cardíaca e oxigenação sanguínea abaixo do normal.

O diagnóstico é feito através do ecocardiograma fetal, que é realizado entre a 24ª a 28ª semana de gestação. Por meio dele é possível diagnosticar cardiopatias graves que necessitam de intervenção precoce ao nascimento.

Para os bebês portadores de cardiopatias graves, é indicado que o parto seja realizado em um centro especializado para que possam ter acesso ao tratamento adequado desde o primeiro momento de vida.

Também é possível ter indício do diagnóstico de uma cardiopatia congênita por meio do ultrassom obstétrico. Após o nascimento é obrigatório o teste do coraçãozinho —que também é oferecido na rede pública, onde é medido o nível de oxigenação e frequência cardíaca do bebê.

De acordo com o Ministério da Saúde, a incidência de cardiopatia congênita é de dez casos a cada mil nascidos vivos. A estimativa é 29 mil crianças nascidas com cardiopatia congênita por ano. E cerca de 6% delas morrem antes de completar um ano de vida.

Fonte: Monica Shimoda, coordenadora do Serviço de Cardiologia Pediátrica do Hospital e Maternidade Santa Joana (SP).

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