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Cuidar da mente para uma vida mais harmônica


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Saúde mental vale mais que ouro; por que decisão de Simone Biles é exemplo

Após desistência de Simone Biles na prova de equipes, a seleção americana conquistou a medalha de prata - Laurence Griffiths / Equipa
Após desistência de Simone Biles na prova de equipes, a seleção americana conquistou a medalha de prata Imagem: Laurence Griffiths / Equipa

Giulia Granchi

Do VivaBem, em São Paulo

28/07/2021 15h16

Simone Biles, a ginasta norte-americana de 24 anos, estava cotada para nada mais, nada menos do que seis medalhas de ouro nos Jogos de Tóquio. Tanta expectativa não era à toa: embora jovem, Simone já tem bastante experiência e soma resultados incríveis —são mais de 30 medalhas em Mundiais e Olimpíadas, incluindo quatro ouros na Rio 2016.

No Japão, não era esperado que ela errasse movimentos, nem que ela ocupasse outro lugar além do mais alto do pódio, muito menos que ela desistisse de provas. Mas na última terça-feira (27), a estrela da seleção americana pediu para sair da competição por equipes após encaixar um salto com erro na aterrissagem e tirar uma nota baixa para seus padrões. A princípio, a comissão técnica deu uma explicação abrangente —disseram que Biles estava na reserva por "questões de saúde".

Entretanto, logo a atleta abriu o jogo: não se tratava de uma lesão, mas de sua saúde mental. Nesta quarta-feira (28), Biles afirmou que também ficará fora das finais individuais da próxima quinta (29) e será avaliada para decidir sobre as provas da semana que vem.

Em coletiva de imprensa, ela afirmou que os Jogos têm sido estressantes e que sentiu que precisava focar em seu bem-estar. "Acho que a saúde mental é mais importante nos esportes nesse momento. Temos que proteger nossas mentes e nossos corpos, e não apenas sair e fazer o que o mundo quer que façamos", disse. Em seu Instagram, ela já havia dito que às vezes sente "o peso do mundo" em seus ombros.

Embora ainda possa ser um choque ver um atleta de alto rendimento desistir porque a mente não está 100%, a conversa sobre saúde mental já vem ganhando força há algum tempo na sociedade —e as comissões técnicas que amparam os atletas acompanham a boa tendência. Agora, o debate mostra os frutos.

Outro episódio recente, envolvendo a tenista japonesa Naomi Osaka, ressaltou que estar bem mentalmente —e não se colocar em situações psicológicas extremas, que podem inclusive acarretar em traumas — vale mais que ouro.

Em maio, Osaka decidiu abandonar a disputa de Roland Garros, importante campeonato de tênis, alegando que precisava priorizar sua saúde mental. Pelo mesmo motivo, ela se recusou a dar entrevistas e chegou a ser multada pela organização do torneio.

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Imagem de Naomi Osaka durante a Olimpíada de Tóquio
Imagem: David Ramos / Equipa

Resultado não deve vir a qualquer custo

"Pronunciamentos ainda são um pouco raros, mas já fazem parte da realidade", aponta Carla Di Pierro, psicóloga do COB (Comitê Olímpico Brasileiro) que está em Tóquio acompanhando atletas de diferentes modalidades. "Estamos em um ambiente no qual a saúde mental deve ser prioridade. Acompanhamos, além dos movimentos das atletas, documentários como 'Weight of Gold' e 'Atleta A', que mostram ao público como a pressão é grande."

A especialista, que acaba de fazer uma pós-graduação do COI (Comitê Olímpico Internacional) em saúde mental de atletas de elite, afirma que todos os profissionais que trabalham com atletas olímpicos deixam claro: em primeiro lugar vem a saúde mental, depois os resultados. "O objetivo é mudar a ideia de que preciso do resultado a qualquer custo. É uma cultura difícil de acabar, mas já iniciamos esse movimento", diz, ressaltando que a posição de Biles e Osaka abre espaço para que outros atletas se sintam confortáveis em falar.

Na avaliação de Sâmia Hallage, psicóloga clínica e esportiva, coordenadora da equipe de preparação mental do COB, as declarações, além de ajudar a quebrar o estigma de problemas psiquiátricos, coloca o atleta na posição de ser humano —e não de alguém imbatível, um super-herói que nunca sofre.

"Antes, a preparação mental do atleta era focada em melhorar performance. Nas últimas décadas, entendemos que o trabalho que só é voltado para isso não é completo e não ajuda o atleta". Segundo ela, hoje o que se faz é a psicologia clínica do esporte, um trabalho para o profissional como pessoa, não só alguém que quer resultados. "Se ele não estiver bem emocionalmente, dificilmente chegará longe", diz.

Forçar a participação pode trazer danos

Simone Biles em Tóquio - Tim Clayton - Corbis/Colaborador Getty Images - Tim Clayton - Corbis/Colaborador Getty Images
Simone Biles durante apresentação na Olimpíada de Tóquio
Imagem: Tim Clayton - Corbis/Colaborador Getty Images

"Se o atleta está irritado, ansioso e preocupado, esses sentimentos afetam a função fisiológica do corpo e tendem a prejudicar a performance. Não adianta insistir pela participação, que pode ainda agravar o quadro. Independentemente do ouro, as Olimpíadas passam, mas o problema, não necessariamente", afirma Nemis Sabeh, coordenador médico das seleções brasileiras de futebol.

Nas comissões técnicas, há psicólogos do esporte que devem dar o apoio ao atleta em momentos como o que Simone enfrentou, validando suas necessidades. Ainda que a vontade de algum membro do grupo seja insistir na competição, Carla Di Pierro aponta a voz da atleta, atualmente, é mais alta. "Se essa menina não é acolhida, ela já tem consciência do que é abuso e assédio e autonomia para apontar isso. Ainda existe a cultura das pessoas com medo de ser apontado como um abusador e isso é ponto positivo para a saúde mental."

Dados mostram malefícios causados aos atletas

A prevalência de depressão costuma ser maior em atletas que praticam esportes individuais (como a ginástica olímpica) do que para aqueles que fazem parte de uma equipe (como no futebol), mostra um estudo publicado no periódico Frontiers in Psychology. "Justamente por aguentar a barra sozinho e depender só de si mesmo para os resultados, a pressão costuma ser maior, e, consequentemente, a chance de quadros psiquiátricos também", analisa Di Pierro.

Ginástica - Jamie Squire/Equipa - Jamie Squire/Equipa
Imagem: Jamie Squire/Equipa

Há muitos dados que apoiam os danos à saúde mental de atletas de alto nível. Outra pesquisa, publicada em 2018, relatou que transtornos de saúde mental ocorrem em 5% a 35% dos atletas de elite durante um período de acompanhamento de um ano. Entre atletas de elite do sexo feminino, distúrbios de saúde mental, especialmente transtornos alimentares, também são prevalentes, mostra um estudo publicado no BMJ Sports.

Publicado em 2019, o documento "Saúde mental em atletas de elite: Jogos Olímpicos Internacionais - declaração de consenso do comitê (2019)", originalmente escrito em inglês, divulga diferentes dados, obtidos a partir de revisões sistemáticas (a análise de várias pesquisas). Com referências científicas, o material reitera a consciência dos efeitos sofridos pelos atletas de diferentes modalidades e assume o compromisso de cuidar melhor daqueles que, para trazer alegrias a diferentes países a cada quatro anos, dedicam boa parte de suas vidas.

"O COI se comprometeu a melhorar a saúde mental da elite atletas, reconhecendo que isso reduzirá o sofrimento e melhorar a qualidade de vida em atletas de elite e servir de modelo para sociedade em geral. Esperamos que todos os envolvidos no esporte reconheçam cada vez mais que os sintomas e distúrbios de saúde mental devem ser vistos sob uma luz semelhante a outras doenças médicas e lesões musculoesqueléticas; todos podem ser graves e incapacitantes (...). A saúde mental é uma dimensão integral do bem-estar e desempenho de atletas de elite e não pode ser separada da saúde física", declara o documento.

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