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Escoliose idiopática severa faz coluna parecer letra S, mas tem tratamento

À esq.: raio-X da coluna em S de Bruna Faro, diagnosticada com escoliose idiopática severa; à dir.: vê-se pinos e hastes de titânio na coluna - Arquivo pessoal
À esq.: raio-X da coluna em S de Bruna Faro, diagnosticada com escoliose idiopática severa; à dir.: vê-se pinos e hastes de titânio na coluna Imagem: Arquivo pessoal

Thaís Lyra

Colaboração para VivaBem

26/07/2021 04h00

Durante três anos, Clara Ferrero Carvalho, 18, estudante de arquitetura, moradora de Campinas (SP), passava 23, das 24 horas do dia, usando um colete ortopédico para estabilizar a coluna. O motivo? Uma escoliose idiopática severa, descoberta ao acaso, aos 13 anos, em uma consulta.

Mesmo sem sentir dores, a coluna da jovem vista no exame de raio-X mais se parecia com uma letra S, com uma curvatura de 41 graus nas regiões torácica e lombar.

Sem o uso do acessório e sessões diárias de fisioterapia, havia o perigo até mesmo da perda da mobilidade. "Agora, uso o colete apenas para dormir", diz.

Crônica e progressiva, a escoliose idiopática é uma condição (e não uma doença) que causa uma inclinação lateral da coluna levando a uma rotação das vértebras e afeta de 2 a 3% da população mundial, segundo estimativas.

Muitas vezes subestimada e tratada de maneira incorreta, é mais recorrente antes da puberdade em 85% dos casos e é dez vezes mais frequente em meninas.

"Ainda não se sabe a razão dessa prevalência, mas há fatores hormonais e do cromossomo X [no gênero feminino são dois cromossomos X] envolvidos", comenta Cristiano Magalhães Menezes, presidente do comitê de Coluna Vertebral da SBOT (Sociedade Brasileira de Ortopedia), PhD em cirurgia minimamente invasiva da coluna pela Texas Back Institute, em Dallas, Estados Unidos.

Teste simples

Identificar a presença deste tipo de escoliose não é algo tão difícil. Segundo o especialista, existe um rastreador, chamado teste de Adams, que nada mais é do que pedir para o paciente inclinar o tronco em 90 graus.

Teste de Adams - escoliose - Reprodução/Research Gate - Reprodução/Research Gate
Teste de Adams: à esquerda, coluna normal; à direita, coluna com escoliose
Imagem: Reprodução/Research Gate

"Se tiver uma assimetria, como aquela protuberância do boi, a giba, é indicativo de escoliose. E isso qualquer pessoa pode fazer: o professor de educação física, de dança e até os pais", destaca Menezes.

Outra maneira é observar o tronco e verificar o desnivelamento dos ombros ou dos quadris, além de história familiar positiva com pais e irmãos portadores de escoliose. Em qualquer um dos casos, é imprescindível levar rapidamente para uma avaliação médica.

"Um adolescente negligenciado vai ser um adulto com dor", alerta Menezes.

O que determina a gravidade da escoliose idiopática e o tratamento é justamente o grau desta irregularidade e a fase de crescimento do paciente. De maneira geral, o protocolo é o seguinte:

  • De 25 a 30 graus: uso do colete.
  • Entre 35 e 40: utilização do equipamento e fisioterapia.
  • Acima dos 45: cirurgia.

"É algo bem individualizado. Vou dar um exemplo, em uma menina de 8 anos com coluna em 20 graus, a gente só observa porque não entrou no estirão ainda. Já em uma jovem de 20 anos com a mesma curvatura, não vai ter regressão. Ao mesmo tempo, mais de 100 graus, há deformações intratáveis nos pulmões, coração, órgãos abdominais, podendo encurtar a sobrevida do paciente e ser esteticamente estigmatizante", explica Menezes.

Via sacra em médicos

Escoliose idiopática 3 - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Luísa foi diagnosticada aos 9 anos com escoliose
Imagem: Arquivo pessoal

Nem sempre é fácil ter acesso ao tratamento ideal. Aos 9 anos, a estudante Luísa Tunala Mendonça, de Aracaju, recebeu o diagnóstico de escoliose.

A mãe, a psicóloga Letícia Gaspar Tunala Mendonça, 50, conta que nem mesmo mediram a curvatura da coluna da filha e a solução para o problema seria simples, com sessões de pilates e RPG.

"Disseram que era um caso leve. Como leiga, fiz o que me indicaram. Depois de 3 anos, tomei um susto, ela estava cada vez mais tortinha", conta.

Começou uma peregrinação por médicos e todos diziam que o quadro da jovem, com 51 graus de curvatura na lombar e 37 na torácica, era caso de cirurgia. Mas a mãe preferiu ouvir outros médicos e especialistas.

Agora, aos 12, Luísa iniciou um tratamento em um instituto em Campinas. A cada dois meses, a família sai de Aracaju para que a jovem siga a terapia.

Com uso do colete e da fisioterapia, teve uma melhora da condição. Atualmente com 15 anos, e 42 e 33 graus de curvatura nas duas regiões, teve melhora na postura e alinhamento da coluna.

Escoliose idiopática 6 - Luisa - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Raio-X da coluna de Luísa mostra curvatura da coluna
Imagem: Arquivo pessoal

Adesão ao tratamento é fundamental

Disciplina e constância não podem faltar para os pacientes. Rodrigo Andrade, fisioterapeuta que cuida dos casos de Luísa Mendonça e Clara Carvalho, personagens desta reportagem, fala que a adesão aos exercícios e ao uso do colete é determinante e evita a progressão da escoliose em mais de 70% dos casos.

A estudante de arquitetura sabe bem disso. Ela conta que conseguiu passar por toda a fase de crescimento e hoje tem as duas curvas (lombar e torácica) estabilizadas.

Praticamente no final do tratamento, não corre mais risco de cirurgia, algo que temia. "Era um desafio, mas sabia que iria me fazer bem. Vejo os resultados do meu esforço e fico feliz de ter passado pelo processo bem e ter achado todo o suporte necessário para tratar minha coluna".

Individualizado, o tratamento leva em conta avaliações clínica e radiográfica para saber as dificuldades e as limitações dos pacientes. Conforme o profissional, a prática regular de atividade física é recomendada para a vida toda.

Tecnologia ajuda os pacientes

O diretor da SBOT lembra que a tecnologia, mais uma vez, é uma grande aliada e está presente nos coletes manufaturados de maneira personalizada e desenvolvidos conforme a anatomia do paciente. Estão bem longe dos modelos do passado, que utilizavam extensões na coluna cervical e geralmente deixavam os usuários constrangidos.

A cirurgia da coluna também evoluiu e os instrumentais permitem um grau de correção e restauração do tronco cada vez melhores. O profissional explica que o acesso é feito pelas costas com uma incisão única, com pouquíssima perda sanguínea e o neurofisiologista é importante parceiro para o monitoramento das funções dos nervos e medula durante o procedimento.

22 pinos e duas hastes

Escoliose idiopática 4 - Bruna Faro - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Bruna passou por uma cirurgia para tratar a escoliose e "cresceu" 4 centímetros
Imagem: Arquivo pessoal

Bruna Faro, 26, influencer digital na área da cultura e jornalista, de Santos, litoral de São Paulo, vive com 22 pinos e duas hastes de titânio para segurar a coluna. Há dez anos, passou por uma demorada cirurgia depois do diagnóstico de escoliose idiopática com 63 graus (lombar) e 41 (torácica).

"Fui em seis especialistas e todos falaram a mesma coisa. Descobri com 15 anos e o colete não resolveria meu desvio", explica.

Em março de 2011, passou pelo procedimento e saiu da sala de cirurgia quatro centímetros mais alta, pulando de 1,56 m para 1,60 m. Apesar da recuperação ter sido difícil e demorada, ela diz que ama a sua coluna.

"Tenho algumas limitações, perdi o movimento rotacional e por isso minha carteira de habilitação é especial, além de precisar fazer exercícios físicos para sempre. Mas sou muito grata. Vejo minha cicatriz como um sinal de força e superação".

Outros tipos de escoliose

Um ponto importante é que existem outros tipos de escoliose estruturais como a idiopática, dentre elas a neuromuscular e a congênita.

E ainda a escoliose postural, que pode surgir em qualquer idade.

"Nesses casos, está relacionada a maus hábitos de postura ou mesmo à utilização de bolsas e mochilas pesadas, sendo tratada com fisioterapia e equilíbrio muscular", finaliza Menezes.

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