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Ela teve câncer, engravidou no tratamento e hoje luta por inclusão do filho

Renata Turbiani

Colaboração para VivaBem

25/07/2021 04h00

Para grande parte das mulheres, saber que está grávida é motivo de comemoração. Mas com Sol Meneghini, 32, ex-atleta de fisiculturismo, não foi bem assim. Em 2014, recém-casada e no auge da carreira, ela recebeu o diagnóstico de câncer de fígado. Logo na sequência, quando já havia iniciado a quimioterapia e a maternidade estava fora de cogitação, descobriu que seria mãe, e de gêmeos.

A notícia ainda veio junto com outro duro golpe: um dos bebês estava morto. Focada no filho a caminho, Sol interrompeu imediatamente o tratamento contra o tumor e seguiu com a gestação. O pequeno Eduardo, hoje com seis anos, nasceu prematuro, precisou ficar na UTI (Unidade de Terapia e Intensiva) e, aos dois anos, foi constatado que ele está dentro do espectro autista.

No depoimento a seguir, a influenciadora digital, personal trainer e consultora na área de alimentação saudável, que nasceu na Bahia, mas mora em Sergipe, conta como foi enfrentar todos esses desafios e a sua luta pela inclusão.

"Durante muitos anos fui atleta de fisiculturismo. Ganhei vários títulos nacionais e internacionais. Em 2014, um pouco antes de uma competição nos Estados Unidos, fiz alguns exames obrigatórios, de sangue e imagem, para poder participar. Isso é comum para comprovar que não utilizamos drogas hormonais.

Quando os resultados saíram, o médico me chamou no consultório e disse que tinha dado uma alteração no meu fígado e seria preciso investigar. Me indicou que procurasse um oncologista. Fiquei desesperada, só conseguia chorar.

Naquela época estava super bem, no auge da carreira, com o físico ótimo, nunca ficava doente, nem mesmo gripada, então, como poderia estar com câncer?

Também tinha acabado de me casar, estava super feliz e curtindo a nova vida com o meu marido. Aquilo não fazia o menor sentido.

Sol Meneghini teve câncer, engravidou no tratamento e hoje luta por inclusão do filho autista - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Imagem: Arquivo pessoal

Mesmo assim fui me consultar com um especialista. Ele pediu mais alguns exames de imagens e aí veio o diagnóstico: tumor no fígado. O médico disse que eu deveria começar a quimioterapia o quanto antes. Foi muito assustador receber essa notícia. Não dava para acreditar, ainda mais eu, que sempre me cuidei tanto e me achava a mulher mais saudável do mundo.

Iniciei o tratamento já na semana seguinte. No dia da sessão e, mais ou menos, nos dois seguintes, eu ficava bem mal, bastante enjoada e com dor de cabeça. Depois de algumas semanas, comecei a estranhar porque eu estava tendo esses sintomas quase o tempo todo. Questionei o médico e ele disse que era normal.

Um dia, fiquei tão ruim que desmaiei. Meu marido correu comigo para o pronto-socorro e o doutor que me atendeu pediu um exame de gravidez.

Disse que era impossível estar grávida, inclusive, nem podia por conta do tratamento contra o câncer. Fiz o teste e deu positivo.

Foi mais um momento de desespero. Ainda não queria filhos e, somado ao meu estado de saúde, aquilo era inviável. Nunca me vi numa situação tão grave. Não é fácil saber que está grávida no meio de um tratamento de quimioterapia, correndo o risco de morrer.

Fiquei preocupada comigo, com o bebê... Ainda assim, em nenhum momento pensei em interromper a gestação. O que tive de fazer foi parar a quimioterapia e começar rapidamente o pré-natal.

Sol Meneghini teve câncer, engravidou no tratamento e hoje luta por inclusão do filho autista - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Imagem: Arquivo pessoal

Descobrimos que eu estava grávida de quase 4 meses e de gêmeos, mas um deles já estava morto —eles estavam em placentas diferentes. Essa notícia foi outro baque, um sofrimento horrível, e não poder fazer nenhum procedimento, tive de esperar meu corpo expelir naturalmente, o que levou mais de 30 dias para acontecer.

Nos meses seguintes, vivi como se estivesse em uma montanha-russa. Alguns dias acordava bem, achando que ia dar tudo certo, e em outros tinha certeza que ia morrer ou que meu bebê nasceria com algum problema.

O parto do Dudu aconteceu no dia 29 de janeiro de 2015. Foi prematuro e nada fácil. Tive algumas complicações, precisaram usar o fórceps para retirá-lo e, quando saiu, estava roxo.

Achamos que também estava morto. Ele foi direto para a UTI neonatal, ficou uma semana. Acho que nunca senti tanto alívio e alegria quanto no dia em que finalmente pude ir com ele para casa.

Só amamentei meu filho durante cinco meses, precisava retomar a quimioterapia. Não lembro exatamente quantas sessões fiz, mas, ao final, o tumor diminuiu e nem tive de passar por cirurgia. Hoje, sou considerada curada do câncer, mas sigo fazendo acompanhamento a cada seis meses.

Lidando com o autismo

Quando o Dudu estava com dois anos, mais ou menos, me chamaram na escola. Os professores disseram que ele tinha um comportamento diferente das demais crianças, ficava sempre no canto, não queria brincar, não interagia. Me alertaram sobre a possibilidade de ele ser autista.

Em casa, notava algumas coisas, mas achava que era o jeito dele. Conversamos muito, eu e meu marido, e resolvemos procurar um médico.

Sol Meneghini teve câncer, engravidou no tratamento e hoje luta por inclusão do filho autista - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Imagem: Arquivo pessoal

Foram vários exames e avaliações até termos a confirmação. Naquela época não sabia nada sobre o transtorno do espectro autista, mas fui estudar, queria entender melhor o que era para poder ajudar o meu filho.

De lá para cá, tem sido uma batalha atrás da outra. Tem horas que penso: 'O que foi que fiz para ter de passar por tanta coisa?' Não tive praticamente nenhum dia de sossego desde que descobri o câncer.

Lidar com essa condição não é nada é fácil, ainda mais porque existe muito preconceito. As pessoas não aceitam as peculiaridades do autista e não educam seus filhos para receberem as crianças especiais, para terem empatia.

O mesmo acontece nas escolas. A maioria delas diz que sim, mas, no fundo, não está preparada.

Apesar de tudo, é gratificante ver o desenvolvimento do Dudu. Ele é um menino incrível e, mesmo as poucas coisas que consegue conquistar, são uma vitória.

Hoje, a minha luta é pela inclusão, para que ela aconteça de verdade. Me dedico a essa causa, para que mais gente se conscientize e passe a entender e aceitar o autismo. Quero que não apenas o meu filho, mas todas as crianças e todos os adultos autistas sejam respeitados e valorizados.

Depois de tudo o que passei e tenho passado, abandonei a carreira de fisiculturista. Sou muito grata pelo que conquistei, pelo reconhecimento, mas era muito sofrido, por conta das dietas e do treinamento, e precisava cuidar mais de mim e, especialmente, do meu filho."

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