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Homem é chamado para transplante de rim dois dias após morrer por covid-19

Mesmo com doença renal, diagnosticada em 2008, Ronaldo continuava ativo; sintomas atípicos apareceram em abril deste ano - Reprodução/Arquivo Pessoal
Mesmo com doença renal, diagnosticada em 2008, Ronaldo continuava ativo; sintomas atípicos apareceram em abril deste ano Imagem: Reprodução/Arquivo Pessoal

Pietra Carvalho

Do VivaBem, em São Paulo

18/06/2021 22h08Atualizada em 18/06/2021 22h24

A família de Ronaldo Cavalcante, de 49 anos, foi surpreendida por uma mensagem inesperada apenas dois dias após sua morte por complicações da covid-19, na última segunda-feira (14).

Na quarta (16), Elen Miranda, mulher do operário portuário aposentado, recebeu em seu celular um chamado do Hospital do Rim, convocando o homem para um possível transplante, após 10 meses na fila.

Ela compartilhou a história nas redes sociais, contando um pouco mais sobre a jornada do marido, que foi diagnosticado com uma doença crônica nos rins em 2008.

Em entrevista ao VivaBem, Elen conta que ela e Ronaldo já estavam juntos há quase 30 anos. O casal teve três filhos, dois adolescentes, de 17 e 14 anos, e o primogênito, de 22.

A mulher faz questão de destacar que, mesmo com o diagnóstico do problema renal, o marido sempre foi muito ativo, e participava ativamente das atividades dos filhos, que praticam canoagem e já foram campeões na modalidade, um deles em nível nacional.

Mas apesar de ter adotado um estilo de vida mais saudável após o diagnóstico da insuficiência, em 2008, o problema nos rins avançou há pouco mais de um ano, obrigando Ronaldo a fazer hemodiálise. De início, ele resistiu à ideia, mas depois, apoiado pela esposa, ia religiosamente às sessões.

Médicos apontaram tuberculose

Em abril deste ano, Ronaldo começou a sentir sintomas diferentes, incluindo uma tosse seca persistente. Elen conta que os médicos inicialmente consideraram a tuberculose o diagnóstico mais compatível.

"Ele era portador de rins policísticos, né? E em abril um dos cistos tinha inflamado, e quando inflama, ele rompe. Aí começou com febre, cólica renal e de repente veio uma tosse estranha", detalha.

Ronaldo começou a tomar antibióticos no dia 21 do mesmo mês, combinados com a hemodiálise, para controlar a situação dos rins. No dia 28, ele foi internado, e ficou no hospital até o dia 5 de maio. Elen conta que ele passou por duas tomografias durante esse período e que, apesar da tosse, elas não indicaram manchas no pulmão.

Pouco depois, no dia 10, começou a vacinação contra covid-19 para grupos com comorbidades, e o operário aposentado tomou a primeira dose da vacina Astrazeneca, com os sintomas da doença ainda não diagnosticada persistindo.

"Ele tinha febre, tosse seca e, no final de semana anterior a ele internar, ele começou a ter secreção e a febre ficou mais persistente. Na terça, 25 de maio, ele já não estava bem e eu fui com ele até a Santa Casa. A moça da triagem achou que era covid e enviou ele para uma médica, mas ela descartou porque a saturação dele estava boa e deu o encaminhamento pra um pneumatologista", descreveu Elen.

Os dois então começaram uma saga entre o apartamento da família e a os médicos. A mulher de Ronaldo conta que o marido começou a piorar rapidamente, perdendo até mesmo a capacidade de andar curtas distâncias, sendo que mesmo durante as hemodiálises ele percorria os 6 km entre sua casa e o centro das sessões de bicicleta.

Na sexta-feira, 28 de maio, ele cedeu aos pedidos da esposa e decidiu voltar ao hospital, enfrentando a síndrome do pânico que desenvolveu durante a pandemia e que, segundo sua companheira, fez com que Ronaldo começasse um tratamento psiquiátrico.

No hospital, o médico desconfiou imediatamente que o santista estivesse com covid-19. Quando o teste positivo saiu, o homem já estava internado na UTI para a doença.

Cinco dias depois, já sem o vírus, ele foi para uma Unidade de Terapia Intensiva normal, chegando a apresentar melhora, mas acabou falecendo ainda no hospital.

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Elen e o marido Ronaldo; ela conta que, em um primeiro momento, médicos desconfiavam de tuberculose
Imagem: Reprodução/Arquivo Pessoal

A segunda oferta de um rim para Ronaldo veio dois dias depois. Em fevereiro de 2021, ele já havia sido chamado como possível receptor de um órgão, mas acabou não sendo o candidato prioritário. Elen destaca que, além da ligação, o possível transplantado tem que estar em condições adequadas de saúde.

Em todos os meses com o marido na fila, a mulher manteve o celular em alerta 24 horas, a espera de uma nova ligação. Mas o novo chamado veio depois, quando ela já havia colocado o telefone no mudo.

"Eu não abaixava o volume do meu telefone para nada. Eu atendia qualquer número, porque a qualquer hora eles podiam ligar. Na madrugada, tomei um remédio pra dormir e deixei o telefone no silencioso, acordei de manhã e fiquei bem impactada mesmo, dei um berro, meu filho levantou, minha mãe veio correndo, meu irmão veio perguntando 'o que foi', e além das ligações tinha uma mensagem chamando ele pro transplante", detalhou.

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Mensagem que Elen recebeu dois dias depois da morte de Ronaldo
Imagem: Reprodução/Arquivo Pessoal

Na família de Ronaldo, nenhum parente apto a doação tinha o tipo sanguíneo dele. Os dois filhos mais novos do casal já apresentaram alguns sintomas leves da doença do pai, que é genética, mas a mãe dos jovens espera que um novo remédio estrangeiro previna problemas mais graves.

Ao comentar a importância do transplante, Elen destaca a necessidade de possíveis doadores conversarem com suas famílias, já que a autorização de parentes é necessária mesmo para aqueles que manifestam sua vontade em documentos oficiais.

"Em relação a doação, não basta a pessoa falar: 'eu vou ser doador, eu quero ser doador', porque a família tem que autorizar. A família tem que ter esse entendimento, da importância e de quantas vidas podem ser salvas".

Ao lembrar do marido, ela destaca o papel de Ronaldo como pai, e espera que outras pessoas infectadas com a covid-19 se recuperem bem.

"Ele foi para muita gente um grande amigo, um bom aconselhador, o melhor parceiro, melhor pai que eu já vi na minha vida. É uma praga que veio, mas era pra gente estar com todo mundo vacinado agora, meu marido era pra ter tomado a vacina pelo menos em janeiro, e não em maio. E esses 500 mil mortos, eles não são números, eles são pessoas, vidas, cheios de sonhos, cheios de história. Então, assim, eu rezo todos os dias pra que isso acabe, e desejo muita saúde pra todo mundo", conclui.

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