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Meia-calça, papel, lixa: por que temos aflição ao sentir certas texturas?

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Imagem: iStock

Bárbara Therrie

Colaboração para o VivaBem

15/06/2021 04h00

Você já parou para pensar por que a maioria de nós sente aflição ao tocar na lixa de unha ou ouvir a unha arranhando a lousa? A ciência tem algumas hipóteses que tentam explicar por que determinados barulhos e texturas podem ser tão desagradáveis.

Uma delas seria a de que os sistemas visual, auditivo ou tátil, quando recebem um estímulo do ambiente, enviam sinais elétricos para diferentes regiões do cérebro que fazem conexões com outras áreas do órgão, como a amígdala. Ela é reconhecida por controlar respostas de medo ou memórias emocionais. "A aversão ou aflição que sentimos devido a estímulos sensoriais devem estar relacionados à ativação dessa região", diz Givago da Silva Souza, neurocientista e professor do Instituto de Ciências Biológicas e do Núcleo de Medicina Tropical da UFPA (Universidade Federal do Pará), e pesquisador de produtividade do CNPQ (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico).

Segundo ele, outra possibilidade seria a ativação de outra região do cérebro, chamada de sistema de recompensa, que pode estar inativada na presença desses estímulos.

Além disso, o fenômeno ASMR, sigla em inglês para Autonomous Sensory Meridian Response (Resposta Automática Máxima para Sensações), também pode estar por trás dessa aflição. ASMR é um conjunto de experiências subjetivas a estímulos sensoriais específicos que geram, além das sensações esperadas, como um ruído ou o tato de uma textura, uma resposta incontrolável semelhante a um formigamento, dormência e arrepios associadas a uma leve euforia, esclarece Marcelo Fernandes da Costa, mestre, doutor e pós-doutor em neurociências e comportamento, e professor associado na disciplina de psicologia sensorial e psicologia da percepção e cognição do Departamento de Psicologia Experimental da USP (Universidade de São Paulo).

Tocar em algumas texturas pode ser aversivo para muitas pessoas e pode estar relacionado a associação da textura do objeto com o som produzido pelo toque. Isso ocorre porque a nossa percepção é dita sinestésica, ou seja, junta todos os sentidos para criar um único significado, afirma o neurocientista e pesquisador Souza.

Peguemos como exemplo a textura da meia-calça: ela está no limite de nossa percepção tátil. "Ao passar os dedos sobre ela, temos uma inconstância de estimulação sensorial muito pouco comum. Como não estamos acostumados a esse tipo de estimulação, nosso cérebro não sabe como processar a informação e a percepção que temos é de arrepio ou aflição, uma resposta de incômodo, mas que não é ruim", diz Costa.

Uma outra situação seria tocar a lixa de unha. Ela gera aflição por sinalizar para o nosso cérebro que tudo o que é áspero é entendido como potencial perigo para o nosso corpo. "Uma sensação de desconforto é provocada para que nos afastemos 'daquele lugar'", diz o professor Costa.

Unhas arranhando lousa - Getty Images/iStockphoto - Getty Images/iStockphoto
Imagem: Getty Images/iStockphoto

Por que algumas pessoas ficam arrepiadas ao ouvir sons como o da unha raspando o isopor?

O ouvido é o órgão do corpo humano responsável por perceber o fenômeno físico do som, que detecta diferentes frequências entre 20 Hz a 20 kHz. Não se sabe exatamente por que alguns barulhos, como da unha raspando o isopor ou na lousa causam desconforto, mas um dos motivos seria o fato de eles estarem na frequência cuja média da população mundial tem maior sensibilidade, que é entre 1 kHz e 6 kHz. Além disso, a maior sensibilidade para essas frequências também está associada à anatomia das orelhas, diz Krisdany Cavalcante, presidente da Sociedade Brasileira de Acústica.

Ainda de acordo com Cavalcante, as razões pelas quais somos mais sensíveis a esses ruídos têm a ver com a proporção das dimensões da onda sonora em relação ao canal auditivo e também devido à maior quantidade de células ciliadas sensíveis a esses sons agudos. Essas células são responsáveis para que o som chegue até o cérebro.

Além disso, a amígdala também pode ter seu papel. Pesquisadores da Universidade de NewCastle, na Inglaterra, estudaram o cérebro de um grupo de voluntários com ressonância magnética funcional enquanto eles ouviam uma variedade de sons. Foi constatado que quando os participantes não gostavam de um som, era quando a amígdala estava em maior atividade —e que justamente essa atividade deveria ser a responsável pela rejeição ao barulho. Os sons mais rejeitados foram os da faca raspando em uma garrafa de vidro, do garfo em um vidro e do giz na lousa, já os aplausos e risadas de bebês foram os mais prazerosos.

Um outro estudo, realizado por pesquisadores da Universidade de Dartmouth, nos Estados Unidos, também usou a ressonância magnética funcional para medir a ativação de várias regiões do cérebro durante diferentes vídeos de ASMR. As áreas de maior ativação foram do córtex pré-frontal medial, responsável pela regulação de emoções e sentimentos sociais, como empatia e vergonha. Também foram disparadas respostas para aumento de frequência cardíaca.

Além disso, o estudo também mostrou altas ativações cerebrais para áreas do cérebro relacionadas a sensações na testa, topo da cabeça, pescoço, lábios e pés, exatamente os locais nos quais as sensações para esses estímulos aflitivos aparecem. Segundo Costa, essas ativações podem explicar parte das reações de arrepio, formigamento e sensação de bem-estar relatado pelas pessoas.

Tenha você agonia de tocar em alguma textura ou ouvir certo barulho, a dica dos especialistas é desviar a atenção voluntária para outro estímulo. Isso significa que quando você ficar agoniado e apertar os dentes ao ouvir alguém raspando o garfo no fundo da panela, por exemplo, tente ignorar, assistir a uma cena na TV ou prestar atenção na forma do seu sapato. Qualquer outra atividade voluntária diminuirá as aflições.

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