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Cuidar da mente para uma vida mais harmônica


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No exterior, brasileiros dizem que cenário do país tem afetado saúde mental

Arquivo pessoal
Imagem: Arquivo pessoal

Natália de Oliveira Ramos

Colaboração para o VivaBem, em Utrecht, na Holanda

09/06/2021 04h00

A falta de perspectiva para que a pandemia seja controlada no Brasil tem afetado a saúde mental de brasileiros que vivem no exterior. Mesmo aqueles que moram em países onde a situação sanitária começa a dar sinais de melhora relatam que o medo da morte de algum familiar e a sensação de impotência passaram a fazer parte da rotina e, em alguns casos, levaram a diagnósticos de transtornos mentais.

Além de pensamentos intrusivos sobre morte, o descontrole da pandemia no Brasil também tem resultado em agitação psicomotora, dificuldade de concentração, insônia e sensação de impotência. Como os cidadãos em território nacional, emigrantes notaram esses efeitos em níveis que atrapalham a funcionalidade no cotidiano e no bem-estar.

Foi em 11 de março do ano passado que Harlison Santos de Oliveira, 35, sentiu "uma angústia", como ele define, ao ver o noticiário. Naquele dia, a OMS (Organização Mundial da Saúde) elevava a pandemia o estado de contaminação da covid-19. Antes dos primeiros registros de infectados no Brasil, a doença havia deixado milhares de vítimas na Europa. Oliveira, desde Braga, em Portugal, testemunhou o aumento diário no número de óbitos e o anúncio de regras cada vez mais rigorosas de isolamento social. Mas foi ao fazer um paralelo com o Brasil que suas preocupações foram intensificadas.

Fiquei apavorado ao perceber que o Brasil não estava se organizando para evitar uma tragédia. Enquanto na Europa o número de mortes aumentava, o governo brasileiro tratava o vírus como uma 'gripezinha'".

A partir daí, sua rotina diária entrou em um círculo vicioso: pela noite, não conseguia dormir; os pensamentos eram tomados por uma série de preocupações e pelo medo da morte; pela manhã, sentia-se desmotivado, sem energia para realizar as tarefas básicas do dia a dia. "Só pensava nas pessoas que não poderiam deixar de sair para trabalhar; que muitas não teriam acesso nem a saneamento básico".

Segundo ele, a angústia que sentiu sinalizava o que viria a ser diagnosticado como depressão e, desde então, tem recebido atendimento psicológico para gerenciar suas emoções ao receber notícias do Brasil. Ele conta que se sentiu frustrado, especialmente, com o panorama político, por avaliar que, ao contrário do Brasil, a pandemia não tem sido um tema polarizado no país europeu.

Sensação é de incapacidade

Mesmo sem a pandemia, o desafio psicológico de estar entre duas culturas é considerado uma questão para especialistas em saúde mental de emigrantes. De acordo com Flávia Corrêa Perilo Camargo, psicóloga pela Univap (Universidade do Vale do Paraíba), é comum que pessoas que saíram de seus países de origem apresentem estresse psicológico e social, resultantes da ruptura e a reconstrução das identidades, desconhecimento do idioma, falta da rede de apoio, de confiança e informação, descontinuidade na carreira.

Leticia Mayumi Sakai, em Toyohashi, com a família  - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Leticia Mayumi Sakai, em Toyohashi, com a família
Imagem: Arquivo pessoal

Além da vulnerabilidade ligada a esses fatores, o descontrole da pandemia no Brasil tem sido um agravante. A psicóloga pontua que o sentimento de incapacidade é muito grande. "Sentem muita ansiedade, tristeza e angústia, pois estão percebendo que o resto do mundo está caminhando para algo próximo ao que já viveram."

Os relatos não diferem muito, mesmo em países diferentes. "Isso tem me afetado diariamente. É uma sucessão de negligências tão evitáveis que arrisco dizer que não imaginei algo parecido nem nos meus piores pesadelos", desabafa a arquiteta Cristina dos Santos, 34, que há três anos reside em Stuttgart, na Alemanha, e recebe atendimento psicológico.

Pelas redes sociais, acompanha as mensagens de pesar para as famílias das vítimas da doença. O momento mais desolador que recorda foi quando a mãe de um amigo teve de ser internada. "Me senti completamente impotente, ciente de que diante do caos e do abandono completo da população por parte dos representantes políticos, tudo o que ela tinha era a valentia dos agentes de saúde e nossas orações. Temi pela minha própria mãe."

A cuidadora de idosos Letícia Mayumi Sakai, 31, mora em Toyohashi, no Japão, desde 2010, e há alguns meses viveu uma experiência semelhante à de Cristina. A mãe de sua companheira foi hospitalizada em decorrência da covid-19, no interior de São Paulo, se recuperou, mas ainda enfrenta dificuldade para respirar. "Parece que mesmo respeitando o distanciamento social, ninguém estará a salvo da doença. Penso em meus familiares e no meu país, parece que nunca melhora", diz.

Já Orlando Junior, de 33 anos —seis deles em Londres, no Reino Unido —, diante das dubiedades para viajar, teme não conseguir embarcar para o Brasil em caso de emergência. A tia está hospitalizada com covid-19 e o pai, de 67 anos, embora vacinado, ainda lhe preocupa. Orlando recebeu a vacina da AstraZeneca com antecedência, mas diz que não consegue se sentir bem emocionalmente. "São muitas preocupações e poucas possibilidades para resolvê-las".

Orlando Junior vive em Londres há seis anos  - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Orlando Junior vive em Londres há seis anos
Imagem: Arquivo pessoal

Mesmo à distância, por que brasileiros sofrem impactos na saúde mental?

Que o cenário atual do Brasil tem refletido na saúde mental da população não é novidade, pois existe uma variedade de estudos que apontam para esse quadro. Uma pesquisa recentemente divulgada pela Fiocruz, por exemplo, mostra que 40% dos entrevistados declararam que se sentiram mais tristes ou depressivos. Quanto àqueles que estão no exterior, ainda não há resultados divulgados sobre como a situação nacional afetou essa parcela de brasileiros. Mas especialistas consultados pelo VivaBem dizem que os quilômetros de distância parecem não interferir no diagnóstico.

Segundo Mariana Marzoque, mestre em psicologia social e do trabalho pela USP (Universidade de São Paulo), isso ocorre devido ao 'senso de pertencimento', que acompanha quem sai do país e, embora vivendo em outra cultura, a sensação de proximidade com o grupo de origem em alguns casos permanece, gerando empatia de forma espontânea. "Esse é meu país, é meu povo; eu sinto e compartilho essa dor; entendo as consequências de cada movimento [político] no meu país", elucida a psicóloga.

A especialista vive na Holanda e, desde 2018, atende brasileiros que residem no hemisfério norte. Ela aponta que tem identificado um aumento no consumo de notícias entre seus pacientes, pois esse hábito produz uma falsa sensação de controle do que ocorre no Brasil. "[Costuma-se pensar que], se sei o que está acontecendo, vou saber como agir". Porém, alerta que esse comportamento pode potencializar sensações de frustração e impotência, já que as pessoas têm pouco controle sobre esse cenário, independentemente da localização geográfica.

Além do senso de pertencimento, a psicóloga Marina Nairismagi Alves, especializada em psicopatologia e saúde pública pela USP, considera a "culpa pelo privilégio de estarem distantes" um fator importante para o desenvolvimento de transtornos mentais. Ela baseia sua avaliação em uma comparação entre os imigrantes que ela atende em Guarulhos, na Grande São Paulo, e o contato com brasileiros no exterior. Ambos grupos buscam na migração a melhora na qualidade de vida. Porém, enquanto no Brasil seus pacientes geralmente estão expostos à vulnerabilidade social e estão indocumentados; no exterior, os brasileiros emigram em condições mais favoráveis para o desenvolvimento pessoal.

São pessoas que têm uma crítica política da situação que se vive aqui (no Brasil) e acabam tendo sensações de culpa por estarem vivendo uma outra realidade que só foi possível devido à saída do país".

Depois de mais de um ano da pandemia, a estimativa de especialistas é de aumento na procura por atendimento psicológico devido ao enfrentamento de luto e estresse pós-traumático. Apesar dos avanços contra os estigmas que rodeiam o tema, ainda há preocupação com fatores culturais que podem interferir na decisão de buscar ajuda profissional.

A psicofobia, como a ABP (Associação Brasileira de Psiquiatria) define os estigmas com os padecentes de transtornos mentais, e a percepção equivocada e ilusória de como é, de fato, a vida no exterior, são impasses que os brasileiros, de um modo geral, encontram na hora de falar abertamente sobre o tema. "Se for para sofrer, melhor sofrer na Europa" e "Você reclama de barriga cheia" são comentários recorrentes em suas tentativas de diálogo.

A busca por ajuda, entretanto, é fundamental. Além disso, é consenso entre especialistas e instituições que o contato, mesmo que virtual, com amigos e familiares durante a pandemia é uma das ferramentas mais eficazes para lidar com o estresse.

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