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Por problemas dentais e agressões, ela teve vergonha de sorrir por 45 anos

Bárbara Therrie

Colaboração para VivaBem

06/06/2021 04h00

Durante 45 anos Joanildes Souza Neres, 72, carinhosamente conhecida como dona Jojô, sofreu com problemas nos dentes e tinha vergonha de sorrir. Sem autocuidado, sem acesso a tratamento dentário e com as agressões do ex-marido, Jojô perdeu quase todos os dentes, ficando com apenas um na parte da frente. Aos 65, ela conheceu uma ONG que atua com dentistas voluntários em todo o Brasil e teve o sorriso transformado.

"Até minha adolescência, tive um sorriso legal, nunca tinha ido ao dentista, mas meus dentes eram naturalmente bonitos. Comecei a ter problemas na dentição depois que casei e a partir da segunda gestação.

Nós tínhamos uma vida simples, éramos muito pobres, o dinheiro era contado para tudo, economizávamos até na pasta de dente. Escovava os dentes apenas uma vez por dia, sempre de manhã.

Quando engravidei do segundo filho, comecei a sentir fortes dores de dente, mas naquela época não pude fazer um tratamento dentário porque era muito caro, algo inacessível para mim.

Tinha algumas estratégias para diminuir a dor, uma delas era tomar um remédio baratinho e recorrer a medidas caseiras: fazia gargarejo com sal e folha de batata e amarrava uma faixinha com dente de alho amassado bem forte no pulso e deixava por um dia.

As dores de dente também comprometeram minha alimentação. Não conseguia comer alimentos duros como bife, amendoim, maçã, e muitas vezes não conseguia nem mastigar, engolia a comida para não ficar de estômago vazio.

Optava por uma alimentação mais pastosa, mas tinha dias que a dor era tão insuportável que nem comia. Emagreci muitos quilos por causa disso.

Com o passar dos anos, minha dentição ficou cada vez mais deteriorada por falta de cuidado meu —tendo que trabalhar fora, ser dona de casa e criar cinco filhos, descuidei dos dentes e de qualquer coisa relacionada a mim.

Cuidar da saúde bucal não era uma questão cultural naquela época, passei a ter consciência só quando meus filhos foram para escola e passaram a ouvir palestras sobre o assunto.

A falta de cálcio na alimentação e não ter acesso a um tratamento adequado também contribuíram para isso. Cheguei a ir duas vezes ao dentista pelo serviço público, a primeira foi no pronto-socorro de um hospital e a segunda foi no posto de saúde, onde fiquei anos na fila de espera aguardando por uma prótese, mas nunca me chamaram.

Não tinha condições financeiras de passar em um dentista particular, o pouco dinheiro que tinha preferia suprir as necessidades dos meus filhos.

Meus dentes apodreceram, começando pelos de trás. Eles ficaram moles, pretos, quebraram aos poucos até se desintegrarem por completo e caírem. Também tinha mau hálito e vivia mastigando folha de hortelã, de pitanga e cravo para amenizar o mau cheiro.

Toda essa situação me gerou uma baixa autoestima, criei vários complexos, traumas, me sentia feia. Não me olhava no espelho, pois tinha medo de mim mesma. Chorava muito por ter aquela aparência.

Morria de vergonha, ficava com a mão na boca e de cabeça baixa, não olhava nos olhos das pessoas e só conversava de longe.

Não tinha uma vida social com meus filhos, não ia nem nas reuniões da escola, sempre dava alguma desculpa. Me sentia constrangida de estar no mesmo ambiente com outras mães arrumadas e com sorriso bonito. Meu maior medo era alguém ver meus dentes e soltar alguma piadinha.

Já bastava o bullying que eu sofria dos meus familiares e de alguns conhecidos que falavam que eu tinha os dentes podres e que parecia uma bruxa. Ficava péssima com esses comentários.

Vítima de violência doméstica

Joanildes Souza Neres, 72, teve vergonha de sorrir por 45 anos - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Imagem: Arquivo pessoal

Além da situação envolvendo os dentes, um outro problema com o qual convivi por mais de 40 anos foram as agressões praticadas pelo meu ex-marido. Ele me batia por qualquer coisa, desde ciúmes até se eu pedisse para ele comprar alguma coisa para os nossos filhos.

Durante as agressões, sempre protegia a boca com medo que ele quebrasse os poucos dentes que ainda me restavam, mas mesmo assim, ele acabava atingindo um ou outro. Sofri calada por muito tempo, demorei anos até conhecer os meus direitos, foi quando passei a denunciá-lo e a registrar boletins de ocorrência. Estou divorciada há 10 anos.

Turma do Bem

Joanildes Souza Neres, 72, teve vergonha de sorrir por 45 anos - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Imagem: Arquivo pessoal

Em 2012, uma amiga que também era vítima violência doméstica, me chamou para ir a uma reunião no Centro de Defesa e de Convivência da Mulher. Comecei a participar das rodas de conversa, a compartilhar o meu sofrimento e a receber assistência psicológica. Fiquei amiga de uma assistente social que me encaminhou para a ONG Turma do Bem.

Após passar por uma triagem, fui selecionada para participar do projeto "Apolônias do Bem", que oferece tratamento odontológico integral e gratuito para mulheres que foram vítimas de violência e tiveram a dentição comprometida. Fui acolhida com muito amor e carinho pela equipe.

Cheguei na Turma do Bem, em 2013, com apenas um dente, todos os outros já tinham caído. Meu caso era grave e complexo, mas os dentistas que me atenderam foram anjos que cuidaram de mim, me senti a pessoa mais feliz do mundo.

Aproveitei a chance que me deram com toda força e gratidão, fui em todas as consultas, o tratamento foi longo, mas valeu a pena. Arrancaram o último dente e fizeram uma prótese linda e profissional.

Minha vida mudou bastante após ter colocado a prótese, trouxe benefícios em todas as áreas. Na questão estética, melhorou 90% minha autoestima, me olho no espelho, me acho bonita e me sinto realizada.

Agora só falta dar uma levantada na pele por causa das rugas e pelas marcas da idade, tenho 72 anos, mas sou uma senhora vaidosa. Na parte da saúde, não sinto mais dores de dente, posso comer o que quiser e tenho qualidade de vida.

Me tornei uma pessoa muito mais sociável, espontânea e extrovertida. Hoje converso com todo mundo sem me preocupar em esconder a boca, interajo, brinco, dou gargalhada. O sorriso me abriu portas e me deu voz para ajudar outras mulheres vítimas de violência doméstica em grupos de apoio.

Também fiz um curso de promotora legal e virei ativista de vários movimentos, entre eles racismo e feminicídio.

Ter o sorriso transformado me fez renascer, rejuvenescer e devolveu a minha dignidade. Sou grata a Deus pelas pessoas que ele colocou na minha vida para me ajudar e retribuo ajudando outras".

Tenha uma boca saudável

Essa reportagem faz parte da campanha de VivaBem Tenha Uma Boca Saudável, que tem como objetivo explicar como e por que é importante manter uma boa higiene oral. Também abordaremos erros comuns na escovação, câncer oral, como a saúde mental afeta os dentes, os limites dos procedimentos estéticos e corretivos, saúde bucal das crianças e de gestantes, entre outros assuntos. Confira todo o conteúdo da campanha aqui.

Essa é a segunda campanha de uma série de VivaBem que, ao longo do ano, trará conteúdos temáticos para auxiliar no combate a problemas que muitas pessoas enfrentam no dia a dia e contribuir para que você tenha mais saúde e bem-estar.

A primeira foi Supere a Depressão Pós-Parto, realizada em março. Confira tudo o que rolou nela.