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Práticas e atitudes para uma vida longa e saudável


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Relacionamentos após os 60 anos trazem sentido à vida e benefícios à saúde

Antonia, 66, e Gonçalo, 81: após três meses de convivência, o casamento aconteceu - Arquivo pessoal
Antonia, 66, e Gonçalo, 81: após três meses de convivência, o casamento aconteceu Imagem: Arquivo pessoal

Carol Firmino

Colaboração para VivaBem

28/05/2021 04h00

Muita gente ainda enxerga o momento após os 60 anos como uma rotina de reclusão e dedicação exclusiva aos netos. No entanto, homens e mulheres estão superando preconceitos e se redescobrindo em novas relações.

Isso porque estar apaixonado não é —nem deve ser— um privilégio apenas dos jovens casais. A experiência proporciona muitos benefícios, desde a melhora da autoestima e da depressão ao surgimento de perspectivas futuras até então desconhecidas.

O namoro na terceira idade dá sentido diferente à vida com a qual essas pessoas estavam acostumadas —seja após a separação ou perda do parceiro. É uma chance de ressignificar o amor.

"A vivência ao longo dos anos, as mudanças no contexto social e o aprendizado junto às novas gerações abre um leque de possibilidades de o idoso reinventar seu conceito de afetividade. Poder escolher o que deseja enquanto qualidade de um novo relacionamento talvez seja o maior e melhor presente que a maturidade traz", afirma Danielle da Silva Freire, psicóloga especialista em processos de envelhecimento e demência.

Segundo a OMS (Organização Mundial da Saúde), toda pessoa com idade acima dos 60 anos é considerada idosa. No Brasil, são mais de 30,3 milhões de indivíduos, de acordo com os dados da Pnad (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio) de 2017.

A previsão é que, em 2030, o país tenha a quinta maior população de idosos no mundo. Por esse e outros tantos motivos precisamos considerar que trata-se de uma parcela representativa da sociedade e que merece atenção em suas diversas questões.

"Um idoso começa sua jornada rumo à longevidade feliz a partir dos 60 e, se vai viver mais 10, 20 ou 30 anos, terá que se programar para usufruir desta longevidade feliz, ativo e pleno", diz Lígia Posser, gerontóloga.

"Ele morava com a filha, mas se sentia sozinho. Eu também, então decidimos nos casar"

Maria e João - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Maria e João
Imagem: Arquivo pessoal

Os filhos constituem suas próprias famílias, o trabalho diminui de intensidade e a solidão pode tomar conta. Não à toa, os idosos lideram o ranking dos mais afetados pela depressão, que envolve motivos desde o abandono familiar à sensação de inutilidade perante as atividades que costumava desenvolver e não consegue mais.

Em busca de uma vida longe desse sentimento, Maria de Jesus Xavier, 73, e João Benedito Caetano, 82, decidiram se casar no final de 2019.

Os dois se conheceram em 2016, na Igreja Congregação Cristã no Brasil de São Paulo, onde eram porteiros, responsáveis por receberem outros fiéis e conduzi-los aos assentos. Por mais que desempenhassem a mesma função, não conseguiam conversar tanto, então decidiram trocar telefones.

Durante quatro anos, Maria e João mantiveram contato nas ligações, nas quais falavam sobre fé, rotina e histórias de vida. Ela casou-se aos 22 anos e permaneceu assim até os 54, quando ficou viúva. Tem quatro filhas, mas naquele momento morava sozinha.

Ele tem dois filhos e esteve casado até os 50, quando se separou. Passou 30 anos sem namorar ninguém e morou sozinho a maior parte do tempo, mas na época estava vivendo com a filha e o genro.

"Ele morava com a filha, mas se sentia sozinho. Eu também me sentia sozinha aqui, então decidimos nos casar", conta Maria. O problema é que João não tinha contado à família que vivia um relacionamento, o que fez com que ela se sentisse insegura sobre a recepção ao casamento.

Para surpresa de Maria, a filha não só apoiou a união como registrou em fotos a felicidade do casal. O casamento está dando certo e ambos estão felizes de poderem enfrentar juntos o período de isolamento social.

De acordo com a psicóloga, o zelo e a aceitação são o caminho mais viável que a família deve trilhar junto ao idoso. É preciso trabalhar a ideia de que estar junto nesse processo de nova experiência afetiva jamais significará fazer a escolha por ele, nem o limitar ou impedir de vivenciar essas experiências.

"Esse tipo de comportamento apenas reforça o sentimento de menos valia e finitude tão comuns na velhice", alerta.

Vida sexual

Por mais que o mundo se diga cada vez mais moderno, ainda é tabu a sexualidade dos mais velhos —e quando se trata de casais homoafetivos as barreiras são ainda maiores.

Segundo Fernanda Zacharewicz, doutora em psicologia social, "a sexualidade dos pais sempre foi tabu no contexto familiar. Não somente não falamos da vida sexual, como a escondemos. Além disso, a imagem do sexo e do desejo ainda está muito ligada à ideia de pecado ou relacionada aos instintos mais primitivos".

No entanto, é preciso desconstruir a ideia de que a maturidade ou o envelhecimento acaba com o desejo. O geriatra Vinicius Lisboa explica que manter a atividade sexual e um nível de interesse e interação com o parceiro após os 60 anos traz benefícios endógenos, com a liberação de hormônios —como a ocitocina— que diminuem o estresse e melhoram o humor.

"A sexualidade na terceira idade pode ser absolutamente ativa, prazerosa e persistente", completa.

"Conheci o João dançando no Clube da Maturidade. Me encantei à primeira vista"

Benevenuta e João - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Benevenuta e João
Imagem: Arquivo pessoal

Gisele Dornelas, psicóloga, explica que receber um elogio da pessoa amada já é o suficiente para liberar o hormônio do prazer, a dopamina.

"Ela ativa o mecanismo de recompensa do cérebro, trazendo a sensação de felicidade e bem-estar". Já caminhar ou praticar qualquer atividade física proporciona a liberação de serotonina, outro hormônio que também é responsável pela melhora do humor, além ajudar na prevenção de doenças.

Para Dornelas, as atividades realizadas a dois promovem ainda mais motivação e qualidade de vida. Benevenuta Xavier da Silva e João Hilario Valgas, ambos com 75 anos, sabem disso muito bem.

Ela é professora aposentada, tem três filhos, seis netos e foi casada durante 42 anos. Já ele é engenheiro civil, tem dois filhos e também viveu um casamento. Para os dois, a alegria de dividir a companhia um do outro para dançar, viajar e conversar é o que mantém a união que começou há três anos.

"Conheci o João dançando no Clube da Maturidade. Foi uma coisa mágica, me encantei à primeira vista. Dançamos muito e quando ele disse que gostava de viajar, falei: 'Ainda vou viajar com você, me aguarde!'. Ele riu da minha ousadia", conta Benevenuta.

Inclusive, a iniciativa de aproximação partiu dela. Dançarina de dança do ventre e cigana, a professora costuma participar de alguns concursos de cosplay e, numa dessas ocasiões, convidou João para assistir. Ela não só venceu em primeiro lugar como ganhou vários brindes e um jantar com direito a acompanhante. Adivinha quem foi? "Ele aceitou e nunca mais nos separamos", conta.

"É diferente do relacionamento antigo. O que acho bonito é que a gente sempre pede desculpas"

Antônia e Gonçalo - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Antônia e Gonçalo
Imagem: Arquivo pessoal

Para a depiladora Antonia Barba Gimenez, 66, o encontro com o aposentado Gonçalo de Andrade, 81, foi um presente enviado por Deus. Eles se conheceram em uma festa de aniversário no interior de São Paulo, na qual Antônia foi apenas acompanhar uma amiga, mas o interesse não aconteceu de imediato.

Após alguns dias e telefones trocados, as conversas engataram. "A gente ficava até tarde no WhatsApp, chegava a dormir com o telefone na mão", relembra ela.

Segundo Freire, na possibilidade de viver um novo amor nessa fase da vida, a prioridade é se relacionar com pessoas que proporcionem leveza e suavidade. "Faça uma autoanálise daquilo que foi bom ou não tão bom na primeira experiência e permita-se escolher alguém que ofereça mais sentimentos do que cobranças", sugere.

Entre Antonia e Gonçalo, as emoções foram prioridade desde o início: "É diferente do relacionamento antigo. O que acho bonito é que a gente sempre pede desculpas", conta a depiladora.

Depois de um pedido de namoro feito ao filho dela e três meses de convivência, o casamento aconteceu. "Meu filho teve um pouco de ciúme e muito zelo no início, por tudo que já passei em outras relações, mas depois deu certo. A família dele, no entanto, sempre apoiou, e a gente tinha certeza do que queria", lembra Antonia.

Posser, gerontóloga, afirma que o simples fato de uma pessoa idosa querer recomeçar a vida dentro de um relacionamento já é um indicador positivo. "Ambos estão se programando para terem juntos uma existência longeva, feliz e ativa, com muita parceria", descreve.

O casal mora junto desde o começo de 2020, quando a pandemia da covid-19 se agravou. Apesar de a decisão ter gerado surpresa em alguns, para eles nunca houve dúvidas.

"Ele me completa em tudo, é meu amigo, meu amante, meu esposo", comemora Antonia. O aposentado também se diz muito contente: "Ela me entende e eu a entendo", conclui Gonçalo.

Fontes: Danielle da Silva Freire, psicóloga da plataforma Zenklub, especialista em processos de envelhecimento e demências, desde 2014 coordena o Centro de Atendimento para Pessoa Idosa com Alzheimer e Familiares de Volta Redonda (RJ); Fernanda Zacharewicz, psicanalista, mestre em gerontologia e doutora em psicologia social pela PUC-SP (Pontifícia Universidade Católica de São Paulo) e editora na Aller; Gisele Dornelas, psicóloga do Hospital Paulo de Tarso, em Belo Horizonte; Lígia Posser, psicóloga, gerontóloga pela PUC-RS (Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul), escritora e professora universitária; Vinicius Lisboa, geriatra e diretor clínico do Hospital Paulo de Tarso.

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