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"Quem não chora não liga": mitos sobre luto que todo mundo deveria evitar

Getty Images
Imagem: Getty Images

Heloísa Noronha

Colaboração para o VivaBem

25/05/2021 04h00

Infelizmente, a morte ainda é um tema tabu na sociedade. Universalmente, de modo consciente ou não, a maioria de nós a vê como uma ideia difícil de suportar. Por essa razão, é comum que o luto seja evitado, subestimado e até encarado com preconceito ou superficialidade —e isso envolve não só quem perde alguém, mas aqueles que precisam lidar com uma pessoa enlutada.

É preciso vencer essa resistência e olhar o luto como um processo inerente à vida. O primeiro passo é se livrar de alguns mitos limitantes. A seguir, veja 12 deles e como lidar.

1. É preciso ser forte nesse momento, certo?

Errado. Primeiro, porque luto não tem nada a ver com fraqueza emocional. Em segundo lugar, pedir para alguém que perdeu um ente querido algo como "você precisa ser forte" passa uma mensagem totalmente equivocada. Afinal de contas, toda pessoa é forte dentro de seus próprios limites. E, por fim, sofrer e manifestar o sofrimento por uma perda não significa fraqueza. Ninguém tem o direito de impedir uma pessoa de fazer o processo de luto adequado e mascarar sua dor.

2. Tocar no assunto com a pessoa enlutada não é uma boa ideia

Pelo contrário. Evitar falar sobre a perda pode levar a pessoa a se sentir mais sozinha, pois não encontra espaço para expressar seus sentimentos e necessidades. Não é preciso forçar nada, mas é importante mostrar disposição para escutar. Oferecer escuta ativa e livre de julgamentos é uma forma muito potente de ajuda, considerando, obviamente, a possibilidade de a pessoa não desejar falar sobre a perda. Essa escuta também precisa ser capaz de acolher os silêncios.

3. Quem enfrenta o luto precisa de distração para atenuar o sofrimento

Muita gente acredita que é preciso distrair ou "ocupar" a pessoa enlutada. Na prática, porém, esse "incentivo" às vezes atrapalha e até soa desrespeitoso. Ninguém deve impor aquilo que acha que é o melhor para aquela pessoa. Somente ela poderá saber o que lhe trará conforto naquelas circunstâncias. O ideal é deixar que a pessoa enlutada sinalize se uma "distração" é o que ela precisa. Geralmente, em um primeiro momento, isso não é habitual. E, quando ocorre, pode até mesmo ser uma negação, o que não seria adequado ao processo.

4. Existem estágios no processo de luto que devem ser cumpridos à risca

Mito. As reações mais comuns do processo de luto foram estudadas e listadas pela psiquiatra suíça Elizabeth Küler-Ross (1926-2004) em cinco estágios: negação, raiva, negociação, depressão e aceitação. Porém, nem todo mundo vivencia essas etapas de maneira linear. Uma questão importante é que algumas pessoas se fixam em determinadas fases, como a negação ou a raiva, o que as impede de conseguir elaborar emocionalmente aquilo que estão passando no momento, o que faz, inclusive, que fiquem paralisadas e não busquem ajuda. Além disso, é necessário considerar o chamado processo dual elaborado pelos psicólogo holandeses Margaret Stroebe e Henk Schut entre 1999 e 2001, que descreve o luto como uma experiência oscilatória: ora o enlutado está orientado para a perda, ora está orientado para restauração da vida.

5. O luto deve durar, em média, um ano e meio

Na prática, não é bem assim. Não há como definir um período aproximado, pois cada pessoa vivencia o luto de uma maneira. Há estudiosos que consideram um ciclo de 13 meses, porque após completar o primeiro ano da morte é comum acontecer a "reação de aniversário": a pessoa revive a perda, mas pode evoluir em outros aspectos da sua vida. Quando a pessoa enlutada já vivenciou algumas datas comemorativas, percebe-se que a dor e o pesar tendem a ir diminuindo. Os especialistas em terapia do luto não o compreendem como um processo que termina, mas sim como uma experiência que se elabora e se integra à vida.

Luto coronavírus - iStock - iStock
Processo não tem um tempo específico de duração
Imagem: iStock

6. "O tempo cura tudo" é um consolo ao qual vale a pena se apegar

Esqueça esse conceito. O tempo não é o único parâmetro que caracteriza essa vivência. É um equívoco pensar no luto como algo que precisa ser curado, como se fosse uma doença. Vale ressaltar: o luto é um processo necessário para elaboração de uma perda. E, além do mais, não é o "tempo que cura", mas o fato de a pessoa conseguir elaborar o ocorrido, integrando a ausência no cotidiano e preenchendo o vazio com novas experiências.

7. O luto uma hora passa, não há risco de se tornar um problema de saúde mental

Apesar de o termo "luto patológico" ter sido substituído por "luto complicado" entre os profissionais que lidam o tema, o que eliminou o viés de doença, algumas atitudes do enlutado merecem atenção. Viver em função do sofrimento, relutância em mexer nos pertences de quem morreu —ou, ao contrário, desfazer-se muito rapidamente das coisas —, sintomas físicos e/ou somáticos associados à perda, mudanças radicais de comportamento, impulsos autodestrutivos e presença de sintomas depressivos prévios são ações que exigem uma consulta com um psicoterapeuta e/ou ou psiquiatra.

8. Conversar com quem também enfrentou uma perda sempre é positivo

Não é bem assim. Participar de livre e espontânea vontade de um grupo de enlutados ou ter contato com alguém que tenha enfrentado uma perda pode ser muito benéfico, pois assim a pessoa se sente mais encorajada a compartilhar sua dor. No entanto, deve-se tomar cuidado, pois não dá para saber como o outro vivenciou o luto dele. Comparações, nesses casos, são inúteis, já que se trata de uma experiência única e particular para cada um.

9. Seguir em frente --casando-se de novo, por exemplo -- é esquecer a perda

De forma nenhuma. Algumas pessoas precisam refazer sua vida para continuar a encontrar sentido nela, porém isso não reflete o apagamento da história compartilhada com quem morreu. Cada vínculo é único e singular e encontra o seu próprio lugar de realocação, podendo ser continuado e ressignificado sem, no entanto, impedir que novos laços se formem.

10. Quem não chora, não está triste; quem mais chora é quem mais sofre

Crença 100% errônea. Chorar pode ter diferentes significados, como remorso daquilo que não foi feito ou daquilo que se fez. Muita gente tem um padrão mais pragmático para lidar com a circunstância e se envolve com as questões práticas da perda. E, às vezes, pode bloquear a tristeza, o que não significa que ela não esteja ali. Não há uma métrica para o sentir, mas é fundamental que o enlutado encontre um espaço para sua expressão, seja com ou sem lágrimas.

11. Uma perda repentina dói mais do que uma perda já "anunciada"

Em muitos casos, mas não se trata de uma regra. O luto antecipatório —em que ao longo da enfermidade a família vai "trabalhando" a perda — ajuda, mas não isenta ninguém da dor. A realidade concreta pode trazer muito sofrimento, de qualquer forma, e o pesar depende muito de como cada um lida com a questão da morte.

12. Doar os pertences de quem faleceu é uma forma de não remoer dor e saudade

O fato de os pertences não estarem mais no armário, por exemplo, não significa que esses sentimentos serão evitados. Grandes mudanças como doações ou até trocar de casa logo após a perda podem vir a dificultar o luto, pois isso pode ser encarado como se quem morreu não tivesse nem existido, o que não é verdade. Para vivenciar o luto sem ser de forma complicada, é importante entrar em contato com o sofrimento para, assim, enfrentá-lo.

Fontes: Flávia Teixeira, psicóloga, mestre em saúde coletiva pela UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro) e docente na pós-graduação em psicologia hospitalar na mesma instituição; Marilia Zendron, psico-oncologista da Clinionco, mestre em ciências na área de oncologia pelo A.C. Camargo Cancer Center e especialista em teoria, pesquisa e intervenção em luto pelo Instituto 4 Estações, todos em São Paulo (SP); Nazaré Jacobucci, psicóloga especialista em psicologia hospitalar e teoria, pesquisa e intervenção em luto, membro da BPS (British Psychological Society), mestranda em cuidados paliativos na Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa, em Portugal, e coordenadora do site www.perdaseluto.com; Silvana Aquino, psico-oncologista, paliativista e membro do Comitê de Psicologia da ANCP (Academia Nacional de Cuidados Paliativos); Silvia Cury Ismael, gerente de psicologia do HCor, em São Paulo (SP).

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