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Abre e fecha do comércio: medida não é eficiente para controle da pandemia

19 abr. 2021 - Movimentação do comércio na Região da Penha, Zona Leste de São Paulo - PAULO GUERETA/ESTADÃO CONTEÚDO
19 abr. 2021 - Movimentação do comércio na Região da Penha, Zona Leste de São Paulo Imagem: PAULO GUERETA/ESTADÃO CONTEÚDO

Luiza Vidal

Do VivaBem, em São Paulo

21/05/2021 13h45

Os números de mortos por covid-19 aumentam e as UTIs (Unidades de Terapia Intensiva) começam a dar sinais de lotação. Com isso, as autoridades resolvem criar medidas de restrição para conter o avanço da pandemia do coronavírus —como o fechamento de estabelecimentos comerciais ou com funcionamento em horários reduzidos. Mas basta uma leve melhora nos indicadores que as lojas reabrem e tudo vai voltando ao "normal".

A verdade é que esse constante abre e fecha do comércio não é suficiente tampouco eficiente para conter a pandemia no Brasil e pode, inclusive, ser prejudicial para a economia.

"Desde o começo da pandemia, venho dizendo que essa tragédia do abre e fecha vai destruir a saúde pública e a economia do Brasil, e é o que está acontecendo", explica Pedro Hallal, epidemiologista da UFPEL (Universidade Federal de Pelotas).

Segundo Hallal, o recomendado pela ciência, em situações na qual o vírus está descontrolado, como no Brasil, é um lockdown curto (três semanas) e rigoroso. "Mas o que o Brasil faz são medidas longas e flexíveis. Isso vai destruir a economia e a saúde pública".

E é exatamente por isso que ocorre esse "efeito sanfona", com os números de mortos/infectados pela covid-19 subindo e depois diminuindo novamente. "Isso explica o fato de as nossas ondas nunca se completarem. A segunda onda entrou por cima da primeira e essa terceira entrará por cima da segunda. O Brasil nunca leva os números para baixo como faria com um lockdown e aí ficamos neste abre e fecha totalmente improdutivo", conclui o especialista.

Para Denise Garrett, médica epidemiologista e vice-presidente do Instituto Sabin de Vacinas, o lockdown de três semanas, com auxílio emergencial, seria a medida ideal. "O problema é que esse lockdown no Brasil teria pouca adesão porque a população está cansada desse abre e fecha. É inefetivo e desgasta a população em vários sentidos", diz.

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Imagem: AFP

Garrett acredita que essa constante abertura e fechamento dos locais não é o problema em si, mas a forma como está sendo feita, utilizando como base indicadores inadequados para a situação. O governo de São Paulo, por exemplo, citou a "queda de internações" em abril como justificativa para reduzir as restrições e isso está errado.

"É um indicador tardio porque você só toma uma providência quando chega nesse ponto. Ele é reativo e não proativo. Você fecha tudo para controlar a transmissão já alta", explica. Para a epidemiologista, o certo seria seguir outros indicadores para a reabertura do comércio —principalmente o que mede o nível de transmissão dentro da comunidade. São eles:

  • Queda de duas semanas no número de casos --que indicam que a transmissão do vírus está realmente diminuindo;
  • Número de novos casos diários por 100 mil habitantes por dia --isso varia de acordo com o lugar e risco aceitável. O menor risco é abaixo de 20 casos novos/100 mil habitantes;
  • Taxa geral de testes positivos para covid-19, diariamente realizados, abaixo de 5%.

"O indicador de leito de UTI é secundário. O problema é que na maioria das localidades no Brasil não temos esses dados. Estamos às cegas e 'correndo atrás do prejuízo': reativos no lugar de proativos", afirma Garrett.

Outro ponto que a especialista ressalta é que as autoridades estão priorizando locais "errados" nas cidades. Ela cita os shoppings e academias abertas enquanto parques ficam fechados. "Há poucas chances de transmissão e a população pode usar para se exercitar, ter um espaço e manter a saúde."

Rastreamento e isolamento: a redução na cadeia de transmissão

É claro que fechar o comércio por um tempo ajuda na diminuição dos casos, como os próprios números mostram, mas é muito sutil e não é eficiente para trazer uma melhora efetiva no país, segundo os especialistas.

Isso sem contar na falta de políticas públicas e orientações claras à população sobre distanciamento e uso de máscara, além da diminuição no ritmo de vacinação.

Segundo André Ribas Freitas, consultor científico do HubCovid e médico epidemiologista da Faculdade São Leopoldo Mandic (SP), países que já apresentam um maior controle da pandemia podem ensinar muito ao Brasil, como Inglaterra, Portugal e, agora, os Estados Unidos, que adotaram o rastreamento de casos entre outras diversas medidas.

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Imagem: Getty Images/iStockphoto

"É rastrear no sentido de ir atrás da origem da doença e os caminhos dela. Significa ir atrás e deixar em quarentena as pessoas que tiveram contato —até dois dias antes, mais ou menos— com quem testou positivo para covid-19."

Segundo Freitas, isso evita que mais pessoas sejam infectadas pelo coronavírus e, desta forma, ajuda a quebrar a cadeia de transmissão. "Isso evita o abre e fecha", afirma. O rastreamento, de acordo com o médico, poderia ser feito com auxílio dos agentes comunitários de saúde do SUS (Sistema Único de Saúde), que já fazem um trabalho fundamental no combate à dengue, por exemplo.

Mas o epidemiologista vê dificuldade na adesão de uma medida como essa. "Não há clareza na comunicação por parte dos governos. Se até para o uso de máscara, algo que deveria ser óbvio, é difícil, imagina para coisas mais sofisticadas?"

Mesmo com vacina, aplicada a passos lentos no Brasil, seria necessária a adoção de medidas mais efetivas, como as já citadas anteriormente. "Infelizmente, o resultado dessa ausência de liderança e controle da pandemia é mais gente morrendo, sendo infectada e o surgimento de linhagens mais letais", diz o especialista.

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