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Gastrite, taquicardia, ansiedade: café pode causar doenças?

Patrícia Beloni

Colaboração para o VivaBem

12/05/2021 04h00

Resumo da notícia

  • Café não é comprovado cientificamente como causador de doenças, mas em excesso está associado a efeitos desconfortáveis e algumas doenças
  • Algumas pessoas podem ter sensibilidade ou intolerância a alguma substância presente na bebida e apresentar sintomas isolados
  • A mesma quantidade de café coado tem mais cafeína que o café expresso, pois a substância é liberada a partir do tempo em contato com o calor
  • Não há consenso científico sobre o limite de café seguro por dia, mas o número mais indicado pelos profissionais vai de 1 a 4 xícaras de 150 ml

Não é raro alguém associar o consumo de café à taquicardia, ansiedade ou até mesmo gastrite. Mas será que a bebida tem relação com esses problemas? "Em poucas situações ele realmente pode fazer algum mal", aponta o médico nutrólogo Rafael Soares, da Abran (Associação Brasileira de Nutrologia).

Quem já tem alguma condição, sensibilidade à cafeína ou intolerância a alguma substância da bebida pode ter desconforto ao consumi-la, já que ela é ácida e possui efeitos estimulantes. Um estudo publicado em 1992 no Western Journal Medicine até aponta que a ingestão de café e cafeína tem sido associada a muitas doenças, entretanto as correlações definitivas têm sido difíceis de comprovar. "De uma maneira geral, só traz malefícios em excesso", diz Soares.

Efeitos podem depender dos seus genes

A bebida é composta por mais de mil ingredientes ativos, como a cafeína, minerais, vitaminas, compostos fenólicos, polissacarídeos, lipídeos e aminoácidos. Por isso, segundo o médico geneticista Marcelo Sady, diretor da Clínica Multigene e professor da Unesp (Universidade Estadual Paulista) de Botucatu, é natural que cada pessoa responda de um jeito diferente à sua ingestão, principalmente considerando os fatores genéticos.

"Aqueles indivíduos que metabolizam mais rápido, conseguem eliminar a cafeína e receber os benefícios dos outros componentes do café, que podem atuar como protetores e antioxidantes", explica Sady. Já quem tem alteração no gene CYP1A2, por exemplo, pode ter o metabolismo mais lento. Nesse caso, a cafeína permanece mais tempo no organismo e pode levar a um efeito vasoconstritor, que tem sido associado a um maior risco de desenvolver hipertensão e doenças cardiovasculares, como aponta um estudo publicado em 1999 no periódico científico European Journal of Clinical Nutrition.

Quantidade de café sendo pesada no Hario V60 - Getty Images/iStockphoto - Getty Images/iStockphoto
Café coado costuma ter mais cafeína
Imagem: Getty Images/iStockphoto

Essas pessoas ainda podem apresentar sintomas como taquicardia, sudorese excessiva, mãos frias, agitação, dor de cabeça após consumir uma simples xícara de café. Os metabolizadores mais rápidos apresentam pouco ou nenhum sinal, mas isso não significa que podem tomar várias doses de café por dia.

Além disso, como a cafeína age em centros estimuladores do sistema nervoso central, pessoas que têm sensibilidade à substância, quando tomam uma quantidade razoável, podem desenvolver sudorese excessiva, tremores, taquicardia, ruborização (vermelhidão), mãos frias, agitação, dor de cabeça. Podem ainda apresentar problemas de digestão e gástricos, ter diarreia, fazer mais xixi, alterações de ritmo cardíaco e pressão arterial, agitação emocional e distúrbios do sono. Em excesso, a cafeína também pode dificultar a absorção de algumas vitaminas e minerais, como cálcio, ferro, vitaminas B e D.

Essas situações também estão associadas a fatores como idade, sexo, treinamento, dieta etc., e também à quantidade de café ingerida. Os estudos científicos ainda divergem sobre isso, mas o que se tem de consenso até hoje é que o limite saudável é de 400 mg por dia por adulto (dependendo da concentração de cafeína do café que se toma, esse valor pode variar o número de xícaras —alguns estudos dizem 3,4, 5, outros até 20). "O importante é não exagerar. Quem toma suplementos, por exemplo, precisa ficar atento se a substância já não está presente. Nesses casos, o café deve ser deixado de lado para evitar o risco de efeitos colaterais", alerta a médica nutróloga Marcella Garcez, professora e diretora da Abran (Associação Brasileira de Nutrologia).

Doenças e sintomas associadas ao café

Não é comprovado que o café cause nenhuma doença, mas sabe-se que pode ser fator agravante das seguintes doenças ou sintomas:

Gastrite/úlcera gástrica

"A cafeína é considerada uma substância irritante da mucosa gástrica, porque além do efeito local, quando estimula o sistema nervoso acaba produzindo mais ácido no estômago, acentuando assim os sintomas do paciente, mesmo sem ser a causa direta da doença", explica Natália Chammas, nutricionista da Clínica Carvalho Concept.

Soares ainda explica que no café existe o chamado ácido cafeico, que é antioxidante e faz muito bem ao corpo. Mas ele pode aumentar o nível de gastrina, que deixa o estômago mais ácido. Então quem já tem gastrite ou outras condições, como azia, pode ter mais sensibilidade. Além disso, doenças inflamatórias intestinais também podem ser afetadas, já que com o pH mais ácido do café pode acelerar o trânsito do intestino e aumentar a diarreia.

Taquicardia/hipertensão

O consumo de café aumenta a frequência cardíaca por estímulo do sistema nervoso simpático, aumentando os níveis de adrenalina. Segundo especialistas, nesse caso, aumenta a capacidade de concentração, atenção, mas também pode aumentar levemente os níveis de pressão e provocar palpitações. Por isso, somado a outros fatores, também pode desencadear hipertensão em quem já tem predisposição.

Perda de densidade óssea

Apesar de não existirem estudos diretamente relacionando o café com a densidade óssea, sabe-se que a bebida pode atrapalhar a absorção de alguns nutrientes como ferro e cálcio. Portanto, junto a outros fatores, pode contribuir para a perda de densidade óssea e anemia.

Ansiedade/estresse

Quem já sofre de ansiedade pode ter os sintomas amplificados, já que o café é estimulante do sistema nervoso. Ele aumenta a produção de adrenalina e cortisol, conhecido popularmente como o "hormônio do estresse". "Seu excesso, então, pode causar impactos em mecanismos de resposta ao estresse, provocando também nervosismo, irritabilidade", explica Chammas.

Sono, insônia, preocupação, ansiedade - demaerre/iStock - demaerre/iStock
Bebida pode aumentar ainda mais sintomas em quem já tem ansiedade
Imagem: demaerre/iStock

Dores de cabeça

Pelo mesmo motivo anterior, o café pode ocasionar dores de cabeça e náusea. Mas de acordo com a nutróloga Garcez, as dores também podem estar relacionadas a alterações genéticas (gene ADORA2A) que afetam o metabolismo da substância pelo organismo e aumentam a prevalência de sintomas indesejáveis como a cefaleia.

Insônia

Segundo um estudo publicado em 1985 no International Journal of Epideomology, o consumo de café pode estar associado à insônia. Ao longo do dia, quando está acordado, o organismo produz a adenosina (uma substância que ajuda a dormir). "A cafeína faz com que os receptores da adenosina confundam as duas, deixando o indivíduo ativo por mais tempo", aponta a nutricionista Chammas.

Cansaço

Apesar de o café nos deixar em estado de alerta e com mais foco, o consumo excessivo promove uma redução na produção de Coenzima Q10, substância fundamental para a geração de energia e redução do estresse oxidativo. É também por afetar os receptores de adenosina que pode gerar fadiga muscular e vícios, como revela um estudo publicado em 2003 no periódico Brain and Cognition. "Ou seja, quanto mais café você bebe, mais cansado você ficará e mais café precisará beber", alerta Chammas.

Coado ou expresso?

De acordo com Soares, as pessoas tendem a achar que o café expresso tem mais cafeína que o coado, mas não é bem assim. Em geral, a quantidade de cafeína em uma xícara pode variar, dependendo do tipo de café, da composição etc. Mas em geral, uma dose de café coado tem mais cafeína que a mesma dose do café expresso. Pelo menos é o que apontam um estudo publicado em 1996 na Food Research International e uma pesquisa da Universidade de New Castle, na Austrália, publicada em 2018.

Isso porque à cafeína é adicionada uma substância da classe metixantina, que é liberada do pó no café apenas na presença de calor e dependendo do tempo de contato com ele. Portanto, "como o expresso é mais rápido, então tem pouco contato com o calor, a quantidade de cafeína tende a ser menor. Mas, em compensação, ele tem mais resíduos de cafeína no expresso. Para quem tem gastrite, por exemplo, o expresso é pior. Para quem tem intolerância, ele é melhor". Então, vale avaliar a situação de cada indivíduo.

Contraindicações

Pessoas nessas condições devem evitar a ingestão da bebida, pelo menos nos períodos de descontrole da patologia. "Quando consumirem, devem fazer com grande moderação", explica Garcez.

  • Crianças até os 12 anos (são mais sensíveis às propriedades estimulantes e diuréticas);
  • Gestantes (pode resultar em redução do crescimento fetal, prematuridade, baixo peso ao nascer e aborto espontâneo);
  • Lactantes (pode afetar o sono do bebê);
  • Quem tem doenças psiquiátricas como ansiedade, distúrbios do sono;
  • Quem tem problemas gastrointestinais como gastrite;
  • Quem tem doenças inflamatórias do intestino;
  • Quem tem doenças cardiovasculares como hipertensão e arritmia cardíaca.