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Crescimento pós-traumático: pandemia pode trazer mudança positiva à mente

Getty Images
Imagem: Getty Images

Marcia Di Domenico

Colaboração para o VivaBem

08/05/2021 04h00

Resumo da notícia

  • É possível sair mais forte de um período de crise; é o chamado crescimento pós-traumático
  • Depois de uma perda inesperada ou situação que ameaça a integridade física, é comum por a vida em perspectiva
  • Vulnerabilidade, curiosidade, extroversão e flexibilidade cognitiva (ter uma mente aberta para novidade) são traços de personalidade favoráveis

Mais de 80% das pessoas passam por pelo menos uma experiência traumática ao longo da vida, de acordo com estudos sobre o assunto. É uma doença grave, um episódio de violência, a morte de alguém próximo, um acidente sério. A pandemia também é um exemplo: o medo de ficar doente, a morte de parentes e amigos, a perda de emprego, renda, contato humano e da rotina como era antes vêm causando danos emocionais de alguma magnitude em praticamente todo mundo, criando assim condições para o trauma.

Enquanto o trauma deixa sequelas psíquicas duradouras em alguns indivíduos, às vezes impedindo que sigam com a vida e precisando de tratamento, outros conseguem transcender as dificuldades, mudar a percepção em relação à vida e se desenvolver como pessoa, apesar das marcas deixadas.

O conceito de crescimento pós-traumático (mudança psicológica positiva que pode ocorrer após um período de adversidade) foi proposto na metade dos anos 1990 pelos pesquisadores Richard Tedeschi e Lawrence Calhoun e incorporado aos estudos da psicologia positiva. Desde então, o fenômeno foi estudado entre militares ex-combatentes de guerra, sobreviventes de desastres naturais (como o furacão Katrina, em 2005, nos Estados Unidos) e testemunhas de ataques terroristas (como o às Torres Gêmeas, em 2001, e ao metrô de Madri, em 2004). Também foi investigado em pacientes que sofreram AVC e pessoas que passaram por vários tipos de câncer.

Não se trata apenas de superar a situação difícil e voltar ao estado de antes —o que tem mais a ver com resiliência, qualidade que, aliás, pode ajudar bastante no crescimento. Mas realmente se transformar a partir da dor, mudando o modo de se colocar no mundo e revendo a maneira de lidar com relacionamentos, saúde, dinheiro e trabalho, por exemplo. "Depois de uma perda inesperada ou situação que ameaça a integridade física, é comum por a vida em perspectiva, reavaliar escolhas e caminhos e pensar em como passar a viver uma existência com mais sentido", fala Wagner Machado, professor da pós-graduação nos cursos de psicologia e administração da Escola de Ciências da Saúde e da Vida da PUCRS (Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul).

A percepção de crescimento é subjetiva, e a fim de mensurar se houve mudança positiva após um trauma, Tedeschi e Calhoun elaboraram uma espécie de escala de autoavaliação que leva em consideração cinco aspectos a serem analisados depois do evento:

  • Relacionamentos sociais e afetivos: quanto mais sólidos e acolhedores, melhor;
  • Novas possibilidades: pode ocorrer a descoberta de um propósito ou novo rumo para a vida;
  • Força pessoal: percepção da própria capacidade para enfrentar desafios, descoberta e valorização de novas habilidades;
  • Apreciação da vida: reavaliação de prioridades, valorização das coisas simples e momentos comuns da rotina;
  • Mudança espiritual: não tem a ver com religião, mas com uma busca existencial, um despertar do interesse pelo sentido da existência e maior conexão com o que transcende a vida.

Jornada individual

Não é porque se trata de uma mudança positiva que o crescimento pós-traumático é um processo fácil, livre de dor ou que acontece por acaso. Muito menos é algo que se deve esperar perceber de um dia para outro, pelo contrário. "Normalmente é resultado de muita reflexão, reavaliação de crenças e prioridades e aceitação de que o sofrimento faz parte da vida", diz Guilherme Spadini, psiquiatra da FMUSP (Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo) e professor da The School of Life Brasil.

Nesse sentido, pessoas autoconscientes têm mais chance de crescer pós-crise. "Vulnerabilidade, curiosidade, extroversão e flexibilidade cognitiva (ter uma mente aberta para novidade) também são traços de personalidade favoráveis", aponta o psiquiatra e psicoterapeuta Leonardo Machado, professor da UFPE (Universidade Federal de Pernambuco). Isso porque, ele explica, pessoas assim tendem a ter mais facilidade para mudar hábitos e opiniões, lidar com a incerteza e desapegar de crenças e pensamentos que podem não servir mais.

Poder contar com suporte social e emocional no processo de elaboração cognitiva do trauma é outro ponto chave para conseguir sair mais forte dele, e isso pode vir de conversas com pessoas de confiança, terapia, grupo de apoio ou mentoria com alguém que tenha passado por experiência semelhante. Falar sobre as dores, aliás, é uma ferramenta poderosa para lidar com elas e ressignificá-las, assim como escrever, seja um diário, histórias, pensamentos ou o mais que vier na cabeça —é uma forma de ver acontecimentos e emoções de outro ponto de vista e lidar melhor com eles.

Por último, mas não menos importante, em tempos de positividade tóxica é bom entender que, embora dependa de intenção e esforço pessoal, o crescimento pós-trauma não é uma garantia nem deve ser algo que se cobra de si mesmo ou do outro. "Pode ser que a pessoa não conte com as ferramentas emocionais e cognitivas para superar a adversidade ou não esteja pronto naquele momento. É preciso entender e respeitar o ritmo e os recursos de cada um", diz Machado.

Com informações da American Psychological Association (apa.org).

Tradutor: Por que nem todo mundo vai se tornar uma pessoa melhor depois da pandemia

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