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Vírus do Nilo Ocidental é detectado pela primeira vez em MG

Doença é transmitida a aves silvestres através da picada de mosquitos infectados, principalmente os do gênero Culex, popularmente conhecidos como pernilongos ou muriçocas - Reprodução
Doença é transmitida a aves silvestres através da picada de mosquitos infectados, principalmente os do gênero Culex, popularmente conhecidos como pernilongos ou muriçocas Imagem: Reprodução

Colaboração para o Viva Bem

04/05/2021 08h52Atualizada em 04/05/2021 09h14

Pesquisadores do IOC/Fiocruz (Instituto Oswaldo Cruz da Fundação Oswaldo Cruz) detectaram pela primeira vez o vírus do Nilo Ocidental em Minas Gerais. As mostras analisadas, coletadas de cavalos que adoeceram entre 2018 e 2020, também confirmaram a presença do vírus no estado e a circulação viral no Piauí e em São Paulo.

Assim como o conhecido vírus da febre amarela, o vírus do Nilo Ocidental é transmitido a aves silvestres através da picada de mosquitos infectados, principalmente os do gênero Culex, popularmente conhecidos como pernilongos ou muriçocas. Acidentalmente, outros animais e seres humanos podem contrair a doença, chegando a desenvolver quadros graves, com risco de morte.

Além de se infectar ao picar aves infectadas, os insetos transmitem o microrganismo para as próximas gerações de mosquitos. Os cavalos, assim como as pessoas, podem ser infectados, mas não transmitem a doença.

"O cavalo é a principal epizootia e atua como sentinela para a doença. Esclarecer os casos suspeitos é importante para detectar a presença do vírus na região e prevenir a transmissão para os rebanhos equinos e as pessoas", afirma o coordenador do estudo, o pesquisador do Laboratório de Flavivírus do IOC, Luiz Alcantara.

Os cientistas também fizeram o sequenciamento do genoma completo dos microrganismos nos três estados. Os resultados foram divulgados em artigo.

Os pesquisadores ressaltam que ampliar a vigilância genômica da febre do Nilo Ocidental é fundamental para compreender a dinâmica de transmissão do agravo no Brasil.

A partir dos dados atualmente disponíveis, não sabemos se a doença é endêmica no Brasil ou se a transmissão ocorre de forma esporádica, a partir de introduções de outros países. A vigilância ativa, com análise de amostras de cavalos e aves, é importante para entender a epidemiologia local do vírus
Luiz Alcantara

Doença assintomática

O instituto aponta ainda que, de acordo com a OMS (Organização Mundial da Saúde), cerca de 80% das pessoas infectadas pelo vírus do Nilo Ocidental não apresentam sintomas. Entre os casos sintomáticos, a febre geralmente se manifesta de forma leve, com dor de cabeça, cansaço e vômito.

As formas graves da doença, como meningite e encefalite, atingem um em cada 150 infectados. Os sintomas podem ir de febre alta e rigidez da nuca a convulsões, coma e paralisia.

Primeiras evidências no Brasil em 2009

Segundo o Instituto Oswaldo Cruz, o vírus do Nilo Ocidental foi isolado pela primeira vez em Uganda, em 1937, e permaneceu restrito a países da África, Europa e Ásia, durante décadas. Em 1999, porém, chegou aos Estados Unidos, causando um surto de grandes proporções e tornando-se amplamente estabelecido do Canadá à Venezuela.

Por aqui, as primeiras evidências sobre a presença do vírus foram encontradas em 2009, em um estudo liderado pelo IOC/Fiocruz, que analisou amostras de cavalos do Pantanal.

"Desde 2009, pesquisas têm apontado sinais de infecção pelo vírus em cavalos de diferentes estados brasileiros, incluindo Mato Grosso do Sul, Mato Grosso, Paraíba, Espírito Santo, São Paulo e Ceará. No entanto, casos humanos da doença foram registrados apenas no Piauí, onde 10 pessoas foram diagnosticadas de 2014 a 2020", informa o instituto.

Vigilância genômica

O novo estudo demonstra, pela primeira vez, a presença da doença em Minas Gerais, e reforça as evidências sobre a circulação viral no Piauí e em São Paulo. Além disso, avança na vigilância genômica.

Até a publicação do trabalho, apenas um genoma completo do vírus do Nilo Ocidental tinha sido descrito no Brasil, a partir de um cavalo infectado no Espírito Santo em 2018.

De acordo com os autores do estudo, os dados sugerem diferentes introduções do microrganismo no Brasil a partir de países do continente americano. Na árvore filogenética - estrutura que agrupa no mesmo ramo os vírus que compartilham um ancestral comum, de forma semelhante às árvores genealógicas - os vírus recém-sequenciados no Piauí, Minas Gerais e São Paulo aparecem no mesmo ramo de um genoma previamente sequenciado nos Estados Unidos e apresentam como ancestrais mais próximos o vírus proveniente da Colômbia e da Argentina.

Já a sequência decodificada no Espírito Santo agrupa-se em um ramo diferente, ligado ao vírus proveniente da América do Norte.

Os dados reforçam a grande interconectividade dos países e indicam que a mobilidade humana pode desenvolver um papel importante na transmissão e introdução do patógeno. O Brasil apresenta condições climáticas ideais para a propagação dos mosquitos que transmitem o agravo, o que aumenta a necessidade da vigilância
Marta Giovanetti, pesquisadora visitante do Laboratório de Flavivírus do IOC

Sequenciamento

Para realizar o diagnóstico molecular e o sequenciamento do genoma viral nos três casos analisados na pesquisa, os cientistas precisaram superar a baixa carga viral presente nas amostras. Por esse motivo, as análises iniciais, baseadas na metodologia de PCR, não conseguiram confirmar as infecções.

Os casos permaneceram em investigação até que um novo protocolo, com base no método de PCR multiplex, foi aplicado.

"Quando os sintomas da febre do Nilo Ocidental aparecem, a replicação do vírus no organismo já está baixa, o que torna difícil o diagnóstico molecular. Neste estudo, desenvolvemos um protocolo de sequenciamento genético, que amplifica várias regiões do genoma do vírus, contemplando todo o trecho codificante. Assim, conseguimos fechar o diagnóstico e, posteriormente, sequenciar o genoma completo do patógeno", relata Alcantara.

A montagem dos genomas, controle de qualidade e análise filogenética foi realizada com auxílio de um software desenvolvido pelos cientistas para identificar e classificar os genomas do vírus do Nilo Ocidental de forma automatizada. O programa online, chamado de West Nile Virus Typing Tool (Ferramenta de Genotipagem do Vírus do Nilo Ocidental), foi disponibilizado abertamente para outros cientistas na plataforma Genome Detective.

(Com Comunicação/Instituto Oswaldo Cruz)