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"Há famílias inteiras em estado grave com covid", diz fisioterapeuta de UTI

Fábio Rodrigues é fisioterapeuta cardiorrespiratório e de terapia intensiva em um grande hospital de São Paulo - Reprodução/Instagram/@fabioirodrigues
Fábio Rodrigues é fisioterapeuta cardiorrespiratório e de terapia intensiva em um grande hospital de São Paulo Imagem: Reprodução/Instagram/@fabioirodrigues

Danielle Sanches

Do VivaBem, em São Paulo

03/05/2021 09h59

Atuando desde o início da pandemia do novo coronavírus (Sars-CoV-2) na linha de frente, Fábio Rodrigues, fisioterapeuta cardiorrespiratório e de terapia intensiva, que atua em um grande hospital de São Paulo, resume o estado de espírito dele e de todos os colegas: "Estamos exaustos."

Se no começo da pandemia o desconhecimento da doença assustava, agora o mais impressionante é a quantidade de pessoas saudáveis e jovens que estão se tornando vítimas da doença. Fábio deu um depoimento para VivaBem contando como é atuar em uma UTI com pacientes da covid-19.

"Em março de 2020, os pacientes que chegavam eram na maioria idosos com comorbidades. Por isso, a mortalidade era alta em UTI, acho que metade dos pacientes não sobrevivia. A taxa de intubação também era alta: normalmente, em UTIs de problemas respiratórios, a gente intuba uns 30% dos pacientes. Na ala de covid-19, essa taxa é de 80% a 100%.

Na época, não tínhamos profissionais suficientes para atender todo mundo, e muitos foram contratados a toque de caixa. Treinamos muita gente, mas também tivemos muitos colegas infectados e muitas mortes. O clima era sempre pesado.

Mais de um ano se passou e agora estamos exaustos. É verdade que aprendemos muito, manejamos melhor os pacientes e temos mais estrutura para tratá-los. Mas agora estão chegando pessoas mais jovens e em estado muito grave. Então, mesmo com experiência, tem gente saudável, sem comorbidade, morrendo.

Para se ter uma ideia, já vimos famílias inteiras se contaminando e ficando em estado grave, casais que morreram juntos. O vírus parece mais contagioso, mais agressivo.

Me sinto exausto. O nosso papel foi ampliado: antes, quem falava com os familiares era a psicóloga do hospital. Agora, somos nós que conversamos com a família do paciente, fazemos as videochamadas e acompanhamos as despedidas. É triste. Vemos o amor da família, os pedidos para cuidar do filho, do cachorro, porque o paciente não sabe se vai voltar.

A carga emocional é enorme. É comum nos perguntarem se vão voltar. 'Eu confio em você', dizem. E aí, quando eles morrem, fica aquele questionamento interno, aquela dúvida: será que poderia ter feito mais?

Em um dos casos que mais me marcou, o marido internou e precisou intubar. Com a piora do quadro, a médica ligou para a esposa, que pediu para ler um versículo para ele. Detalhe: ela era cega, não tinha mais ninguém para ajudá-la. Ele morreu pouco tempo depois.

Além de exausto, tenho revolta também. Culpo esse governo louco, negacionista, que desacredita a ciência e não compra vacina. Pior é sair do plantão e ver barzinho aberto cheio de gente, como se não estivesse acontecendo nada.

A impressão é que a gente tenta ajudar a esclarecer, mas as pessoas não querem saber. Muitos nem são negacionistas, só acham que podem dar um jeitinho, que não vai acontecer com eles.

Mas aí acontece. Infelizmente, as pessoas só acreditam quando vão parar na UTI e enxergam o que a gente vê todos os dias, com tudo lotado. O vírus faz um estrago violento no corpo.

Eu não sou mais o Fábio de antes da pandemia. Agora tenho pesadelos quando durmo, insônia, sofro de ansiedade.

Por ser líder de uma equipe, tento me manter firme, mas muitos colegas fazem terapia, estão tomando antidepressivo para poder lidar com a situação. Não temos vontade de interagir, queremos nos isolar, sabe? Estamos todos abalados."

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